Ryad Kramdi/Agence France-Presse
Ryad Kramdi/Agence France-Presse

Distantes de Deus, ou apenas com os pés no chão?

Mesmo para os espiritualizados, a crença está em constante evolução

Robb Todd, The New York Times

24 de dezembro de 2018 | 06h00

Deus foi declarado morto mais de uma vez, mas a maioria das pessoas ainda acredita n'Ele. E, entre o número cada vez maior de pessoas que não acreditam em Deus, muitos acreditam em alguma coisa - ainda que não saibam dizer ao certo em quê.

Friedrich Nietzsche escreveu um dos primeiros obituários prematuros do todo-poderoso no final do século 19. Essa ideia, segundo escreveu no Times Katharine Q. Seelye, ganhou vida nova nos anos 1960 quando um grupo de teólogos radicais chegou à mesma conclusão.

"Deus está morto", disse um desses teólogos, Thomas J. J. Altizer. "Esse Deus não está mais presente, não se manifesta, não é mais real".

Altizer, que morreu no dia 28 de novembro, fez essa afirmação pela primeira vez numa época em que cerca de 97% dos americanos diziam acreditar em Deus. Nas palavras de Katharine, depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, as pessoas começaram a se perguntar se haveria uma divindade benevolente nos observando. Entre os que tiveram essa dúvida estava Albert Einstein. 

"A palavra Deus é, para mim, apenas a expressão e o produto das fraquezas humanas, e a Bíblia não passa de uma coleção de lendas veneráveis, mas ainda assim primitivas", escreveu ele em 1954. "Nenhuma interpretação é capaz de mudar isso (para mim), não importa o quão sutil".

Essa citação é de uma carta de uma página e meia que ele escreveu em resposta a "Choose Life: The Biblical Call to Revolt" (Escolher a vida: o apelo bíblico à revolta), que foi vendida este mês por US$ 2,9 milhões num leilão, de acordo com reportagem de James Barron para o Times.

"Einstein usou a carta para rejeitar a ideia de um Deus que desempenha um papel ativo na vida cotidiana, respondendo a preces individuais", escreveu Barron.

Einstein também disse não morrer de amores pelo judaísmo, mas tinha orgulho de ser judeu e, em outros momentos, orgulho de "não ser um ateu". Até Altizer evitou o vazio religioso, descrevendo a si mesmo como um "ateu cristão".

A proporção de americanos que se identificam como cristãos recuou para aproximadamente 70% da população. Mas Jonathan Merritt escreveu no Times que "é difícil imaginar esse resultado simplesmente conversando com as pessoas. Com frequência, a maioria diz que não se sente à vontade para falar de assuntos de fé".

Merritt, que escreve a respeito de política, cultura e religião, encomendou um levantamento no ano passado que revelou que mais de três quartos dos americanos "não participam de conversas religiosas com frequência". Ainda mais chocante, apenas 13% dos cristãos que frequentam a igreja com regularidade participavam de diálogos espirituais uma vez por semana.

O declínio do cristianismo institucional desde os anos 1960, e a época do Deus-está-morto seguiu por dois rumos diferentes. De acordo com Katharine, Altizer "incensou os evangélicos, e o efeito duradouro de suas palavras pode ter sido a ascensão da direita religiosa".

Enquanto isso, Ross Douthat escreveu no Times que "empreendedores político-espirituais" e "gurus da autoajuda" começaram a substituir as igrejas tradicionais nos EUA.

Douthat diz ainda acreditar "em algo divino que criou o universo", mas está interessado em raciocínios e livros indicativos de um futuro pós-cristão, mais bem descrito como uma retomada do paganismo. Essa visão de mundo admite a possibilidade de uma vida após a morte, mas busca a felicidade e a harmonia no mundo real, e não fora dele.

"Diferentemente do ateísmo, insistimos que o cotidiano é moldado pelo divino e inspirado por Ele, mantendo um sentido, e não um conjunto aleatório", escreveu ele, “um lugar onde podemos realmente ter a esperança de nos sentirmos em casa".

Tudo o que sabemos sobre:
religião

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.