Giulia Marchi / The New York Times
Giulia Marchi / The New York Times

Distrito financeiro de Yujiapu é a Manhattan 'vazia' da China

Diferentemente do distrito de Nova York, Pequim agora precisa encontrar fórmulas para impulsionar o crescimento sem agravar o endividamento

Alexandra Stevenson e Cao Li, The New York Times

18 de maio de 2019 | 06h00

TIANJIN, CHINA - Em um porto da Alemanha, 150 pianos Steinway aguardam o embarque, a porta de entrada para a grande inauguração do segundo campus da Juilliard School. O ar em Tianjin é tão seco que os pianos precisam de um ambiente refrigerado, o que contribui para dobrar praticamente o custo do campus de última geração para US$ 225 milhões. Mas este custo extra não cabe à Juilliard. Quem está pagando a conta é o governo local. O que poderá tornar-se um problema para as autoridades que lutam com as dívidas depois de um épico frenesi de gastos para a criação de um novo centro comercial do zero.

Bem-vindo ao Distrito Financeiro de Yujiapu, que gosta de denominar-se a Manhattan da China, mas talvez deva ser vista como um monumento ao fracasso do modelo de crescimento chinês - 80% do espaço destinado a escritórios está vazio. A construção de outros edifícios parou, só os esqueletos se destacam contra o céu. Em um shopping enorme, há apenas alguns consumidores. No seu interior, uma loja de pets não tem animais.

As empresas e os moradores que as autoridades locais esperavam para povoar a cidade ainda não apareceram. A Juilliard, que deveria atrair estudantes e respectivas famílias, abrirá suas portas nos últimos meses do ano. Rara instituição ocidental que apostou em uma oportunidade neste distrito. Os governos locais chineses estão atolados em dívidas. Pelos cálculos oficiais, o total chega a US$ 4,5 trilhões. Mas, segundo estimativas não oficiais, poderá beirar os US$ 10 trilhões. Grande parte dos empréstimos para projetos como a filial da Juilliard em Tianjin raramente é revelada.

Durante muito tempo, a China contraiu empréstimos grandes para construir, prevendo um enorme crescimento econômico para saldá-los. O projeto previa vender grandes extensões de terra às incorporadoras e fazer empréstimos para subsidiar a construção. Empregos e novas cidades viriam normalmente. Foi este o modelo que ajudou a China a erguer os seus arranha-céus e a construir trens de grande velocidade, abrindo as portas para uma era de prosperidade.

Mas o país já não está crescendo quanto antes. Pequim agora precisa encontrar outras fórmulas para impulsionar o crescimento - sem agravar o problema do endividamento. “A economia chinesa apostou na construção para o futuro, e há sinais consideráveis  de que construiu em excesso”, afirmou Logan Wright, diretor da consultora Rhodium Group, acrescentando que a dívida e a capacidade ociosa poderão frear o crescimento. “Isto, provavelmente, significará uma expansão econômica muito mais lenta”.

Tianjin, uma cidade costeira próxima de Pequim por trem, chegou a registrar uma das taxas de crescimento mais elevadas da China. O seu sucesso ganhou as manchetes; para as autoridades locais, tudo isto era uma decorrência do “espírito de Tianjin, da velocidade de Tianjin e dos benefícios proporcionados por Tianjin”.

Então a economia desacelerou. E as autoridades locais da Binhai New Area, um polo econômico especial de Tianjin que inclui Yujiapu, admitiram que haviam superestimado o crescimento. Cortaram US$ 50 bilhões do orçamento original para 2016, prevendo uma produção econômica de US$ 100 bilhões. Hoje, Tianjin é uma das regiões de menor crescimento da China. Segundo o parâmetro mais amplo para empréstimos no país, chamado financiamento social total, o governo de Tianjin, suas corporações e domicílios devem mais de US$ 760 bilhões, segundo o Rhodium Group. Os juros anuais devidos por todos os tomadores em Tianjin totalizaram 12 vezes o seu crescimento econômico nominal anual, afirma o Rhodium. 

Michael Hart, consultor imobiliário de Tianjin, disse que a volta do crescimento salvaria a cidade dos seus problemas. “É como assistir a uma peça em cinco atos”, disse Hart, referindo-se a críticos de Yujiapu, “e ainda nos encontramos na metade do Ato I, e já a consideramos uma peça horrível”.

Para Alexander Brose, diretor da escola Juilliard, o distrito se beneficiará do prestígio do nome Juilliard para atrair gente. Recentemente, ele visitou o canteiro de obras, indicando o que esperava ver no próximo ano. Aqui, uma sala de concertos de 687 lugares, apontou. Lá, um espaço para recitais de 299. Mais adiante, um teatro de 250 assentos. E parou, olhando para as centenas de operários que soldavam, martelavam e movimentavam aço, e disse, referindo-se ao governo local: “Acho que, para as autoridades, esta é a cereja do bolo deste novo projeto." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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