Yasuyoshi Chiba/Agence France-Presse - Getty Images
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Dívida de países da África com a China não para de aumentar

Em todo o continente, o dinheiro de Pequim geralmente se mostra irresistível

Dionne Searcey e Jaime Yaya Barry, The New York Times

29 de novembro de 2018 | 06h00

DACAR, SENEGAL - O novo aeroporto internacional de Serra Leoa deveria ser um reluzente centro de boas-vindas para os viajantes - um símbolo mostrando que, depois de uma devastadora guerra civil e uma epidemia de Ebola, o país estava finalmente aberto para os negócios.

Mas, em outubro, o governo decidiu que o valor multimilionário era alto demais e, assim, cancelou o financiamento que possibilitaria a construção: um empréstimo de mais de 300 milhões de dólares da China que Serra Leoa teria dificuldade em quitar.

O presidente Julius Maada Bio logo foi elogiado pelos analistas por frear um projeto que provavelmente teria endividado profundamente seu país, que já é um dos mais pobres do mundo.

Parecia que Serra Leoa tinha prestado atenção nas lições duramente aprendidas por outros países desenvolvidos que se viram devendo quantias imensas à China.

Mas, dias depois de anunciar a suspensão do acordo, Bio apareceu nos canais estatais da TV chinesa para deixar claro que não estava se afastando da China. Na verdade, pediu a ajuda do país para a construção de uma ponte de mais de 1 bilhão de dólares, e também se mostrou aberto a renegociar o empréstimo do aeroporto.

“Somos um país em desenvolvimento", disse Bio ao entrevistador, “e procuramos países interessados em nos ajudar nesse desenvolvimento".

Em toda a África sub-saariana, governos como o de Serra Leoa estão optando por ignorar exemplos claros de países em desenvolvimento levados à beira do desastre depois de receberem pesados empréstimos da China.

Quarenta por cento dos países da região estão à beira de uma crise de endividamento, de acordo com alertas do Fundo Monetário Internacional. E muitos desses continuam a solicitar empréstimos a Pequim para ajudar no financiamento de aeroportos, estradas, ferrovias, represas e projetos de eletricidade.

Os sinais de alerta de um endividamento excessivo em relação à China aparecem em todo o mundo, como no Sri Lanka, onde as autoridades entregaram à China por um período de 99 anos um porto e 15 mil acres de terra depois de enfrentarem dificuldades para manter os pagamentos em dia.

No momento, o Quênia pediu muito mais empréstimos à China do que a qualquer outro país. Mas também passou a depender mais de uma enxurrada de produtos manufaturados na China, um desequilíbrio na balança comercial que dificulta a captação de moeda estrangeira para quitar a dívida.

O fundo monetário destacou o caso do Djibouti, que recebeu uma grande base militar no deserto, e tem problemas potenciais no pagamento de sua crescente dívida, cujo principal credor é o Export-Import Bank do governo chinês. Mas o Djibouti não dá sinais de limitar os novos empréstimos para projetos de construção.

Na Nigéria, projetos chineses foram envolvidos em acusações de corrupção e má qualidade das construções. Mas o país volta a procurar a China para a construção de uma estrada litorânea e outros projetos.

A dívida chinesa se tornou “altamente viciante, facilmente disponível, e proporciona uma sensação de bem estar no curto prazo, mas traz efeitos negativos no longo prazo muito piores do que qualquer bem estar passageiro", de acordo com um artigo recente de Grant T. Harris, ex-conselheiro do presidente Barack Obama.

O fato de a China ter inundado os mercados africanos com bens manufaturados de baixo custo significa que muitas fábricas africanas foram levadas à falência, dificultando para o país a captação do dinheiro necessário para devolver os empréstimos de Pequim.

A China ofereceu linhas de crédito a países ricos em recursos naturais como petróleo, bauxita e ferro. 

Assim, se um país em desenvolvimento rico em recursos tiver dificuldade para manter em dia o pagamento em dinheiro, os recursos naturais podem servir como pagamento, mais cedo ou mais tarde. A China também obtém vantagens políticas ao conseguir promessas de apoio ao governo de Pequim em relação à questão de Taiwan como condição para a oferta de empréstimos.

Em novembro, a China anunciou a criação de um fundo de 60 bilhões de dólares para projetos africanos de infraestrutura para aprofundar as relações com o continente.

Pequim também prometeu perdoar os empréstimos concedidos a alguns dos países mais pobres da África. 

A China está reforçando os laços em novas áreas do continente, especialmente a África Ocidental, acrescentando mais países à lista de envolvidos na iniciativa do Cinturão e Estrada.

Para países como Serra Leoa, ansiosos para deixar no passado a instabilidade política, o poder de atração dos acordos chineses pode parecer irresistível. Com mais da metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza e uma economia que enfrenta dificuldades para retomar o nível de atividade alcançado antes da epidemia de Ebola, restam poucas alternativas ao país.

Os analistas alertam que os governos africanos precisam aprender a negociar melhor os empréstimos da China, obtendo juros mais favoráveis e incluindo cláusulas exigindo empregos de período integral para os cidadãos locais.

“Os chineses parecem saber o que querem dos africanos, especialmente em se tratando de commodities", disse Ibrahima Cheikh Diong, que já integrou o governo senegalês. “A pergunta é, será que o mesmo vale para os africanos?”

Keith Bradsher contribuiu com a reportagem

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