Laura Moss/The New York Times
Laura Moss/The New York Times

As pessoas estão fazendo reformas enormes na própria casa

Como passaram tanto tempo em casa no ano passado, alguns proprietários elevaram os projetos de artesanato e design a um novo nível

Ronda Kaysen, The New York Times - Life/Style

06 de abril de 2021 | 05h00

Jen Rondeau não queria transformar sua lavanderia em uma pista de dança psicodélica, mas, agora que ficou parecida com uma, ela está muito satisfeita consigo mesma.

Tudo começou no início de janeiro, quando a demanda por máscaras caseiras que ela vendia diminuiu e Rondeau, artista e musicista, se viu sem uma saída criativa. Então, ela voltou sua atenção para a sala utilitária cinzenta no porão de sua casa em West Orange, no estado de Nova Jersey.

Ao longo de três dias, ela pintou um desenho abstrato no estilo mid-century ao longo de uma parede, mistura ousada de vermelho, azul, rosa e laranja. Feliz com o resultado, ela estendeu o design para o lado oposto, colocou uma cadeira laranja no canto e montou uma máquina de iluminação de discoteca que reproduz uma sequência de luz intermitente que pisca no mesmo ritmo de qualquer música que tocar no alto-falante bluetooth.

"Eu estava com muita energia e precisava canalizá-la em algo. Agora que a lavanderia está pintada, quero ficar lá. Fico feliz quando estou lá", disse Rondeau, de 43 anos, que mora em uma casa de quatro quartos em estilo fazenda com o marido, Paul Rondeau, de 42 anos, cinegrafista freelancer, e os dois filhos pequenos.

À medida que a pandemia desencadeia uma onda de reformas residenciais, alguns proprietários mais astutos interpretaram o momento como uma chance de usar a criatividade, deixando de lado as expectativas de como uma casa deveria ser e atualizando os ambientes para canalizar a energia artística, reimaginando o que é uma decoração aceitável no processo. Enquanto muitos proprietários estão investindo grandes quantias destruindo cozinhas e banheiros, esses estão criando algo único e profundamente pessoal, muitas vezes gastando apenas algumas centenas de dólares em materiais.

Saudade de ir ao cinema? Não há melhor momento para transformar o porão em um home theater completo, com direito até o balcão de lanchonete. Não há espaço para uma banheira no minúsculo banheiro? Não importa. Em vez disso, instale uma no quarto. As crianças estão cansadas do isolamento? É a hora de instalar uma pista de patinação no gelo no jardim da frente.

Para esses proprietários, os projetos pandêmicos do tipo "faça você mesmo" têm sido libertadores, explorando talentos artísticos não realizados ou aprimorando aqueles que eles cultivaram por anos. A casa se tornou não apenas um espaço que desejam ocupar, mas que pode ser moldado de acordo com sua visão criativa.

"Estou vendo muito mais cores, muito mais senso de aventura nas escolhas de decoração. As pessoas pensam: 'Como não tenho outro lugar para ir, posso muito bem olhar para algo interessante enquanto estou em casa'", observou Ingrid Fetell Lee, designer e autora de As Formas da Alegria: O Surpreendente Poder dos Objetos.

Leanne Ford, designer de interiores e estrela do programa da HGTV Home Again with the Fords, acha que é o momento certo de os proprietários abandonarem algumas das expectativas pré-pandemia. Qual é o sentido de um quarto de hóspedes se você não tem hóspedes? "Não precisamos decorar da mesma forma que fazíamos há um ano; precisamos decorar de acordo com a maneira como estamos vivendo agora."

Este também é um momento para trabalhar nossos músculos criativos. Sem hóspedes ou visitas, não há ninguém para comentar as escolhas peculiares. "As pessoas estão muito preocupadas com o que o irmão, a mãe ou o vizinho vão dizer", disse Ford. Mas agora, num momento em que o julgamento está em espera, alguns proprietários estão se sentindo mais ousados. "Há um poder criativo e libertador em cuidar da própria vida, em saber que esta é sua casa. No momento, não há visitas, portanto é uma hora ainda melhor para praticar isso".

Depois que Rondeau terminou de pintar a lavanderia, ela passou para as paredes que os pedestres veem da rua. "Pensei: 'O que faço agora?' Foi como um vício", contou ela, que aprendeu a técnica ao se inspirar em Racheal Jackson, muralista de Vancouver, em Washington, com quase 70 mil seguidores no Instagram.

Em seguida, Rondeau pintou um mural no banheiro dos filhos, espaço longo e estreito que ela também viu como pronto para experimentação. Mas, depois de cinco dias de pintura, o resultado foi uma decepção. As bordas não estavam retas e as cores não combinavam com os azulejos marrons: "A imagem na minha cabeça não se traduziu bem no espaço."

Mas os meninos, de cinco e nove anos, ficaram contentes. Assim, em vez de corrigir o mural, ela se mudou para a área de estar e de jantar, onde pintou a parede de trás – da borda da sala de jantar até a lareira da sala de estar – de azul-marinho, com linhas, formas e círculos vibrantes. Na entrada, que se abre para a sala de estar, ela pintou um desenho de forma livre com linhas pretas e quadrados coloridos.

Para ela, o resultado foi transformador, principalmente na sala de estar, que tem um teto abobadado e vista para os arranha-céus de Manhattan, a cerca de 64 quilômetros de distância. "Antes, a sala não era um espaço caloroso e acolhedor. Parecia que tínhamos colocado um sofá lá e pronto. Agora está incrível. Toda manhã, bebo meu café antes que as crianças acordem e fico sentada na sala olhando o nascer do sol sobre a cidade".

Um cinema de verdade com um balcão de lanchonete

A pandemia proporcionou tempo a alguns proprietários para lidar com projetos que estavam na lista de desejos. Fazia muito tempo que Rineeka Sheppard queria um colocar um balcão de lanchonete no home theater que ela e o marido, Steven, construíram no porão da casa de cinco quartos em Indianápolis, em 2018.

A vida, porém, sempre atrapalhou. Ambos trabalhavam e estavam criando três adolescentes e uma criança de cinco anos. Mas, em abril passado, Sheppard, de 38 anos, foi demitida do seu emprego de cobrança de empréstimos estudantis inadimplentes no Departamento de Educação do estado por conta da pandemia – e de repente ficou com tempo livre de sobra. "Finalmente, chegou a hora. Com a covid, consegui dar um passo atrás e respirar", disse Sheppard, cuja parte favorita em um cinema é o estande de guloseimas.

Enquanto seu marido de 43 anos, mecânico, construía o espaço, Sheppard vasculhava o Facebook Marketplace em busca dos itens. Lá, ela encontrou os aquecedores de pretzel e de nacho, uma vitrine para os lanches e uma minigeladeira com fachada de vidro. (Ela já tinha uma máquina de pipoca, comprada na Wayfair.) Qualquer balcão de lanchonete precisa de uma máquina de refrigerante, e ela acabou encontrando uma em um restaurante que estava fechando. Por meio das mídias sociais, encontrou um técnico aposentado da Coca-Cola disposto a instalar a máquina e a fazer a manutenção dela.

Steven Sheppard passou meses instalando as paredes de drywall e o piso novo do porão. Ele construiu o balcão com paletes de madeira e pintou a sala de preto com detalhes em vermelho. Expandiu o cinema de seis para dez assentos, adicionou uma fileira mais elevada na parte de trás e duas poltronas reclináveis a mais na frente. "Muitas vezes eu ficava pensando: 'Ah, cara, não consigo fazer isso'", relembrou. Em uma ocasião, ele trabalhou do meio-dia às três da manhã do dia seguinte. "O tempo parecia não mudar lá em embaixo e eu não sabia se era dia ou noite. Por isso, continuei trabalhando."

Que tal uma banheira no quarto?

Durante dois anos, Sage Crawford pensou em instalar uma banheira com pés em seu apartamento de um quarto em Aarhus, na Dinamarca, onde mora. Mas Crawford, de 45 anos, americana de Connecticut, tinha dois obstáculos a superar. Com pouco menos de um metro quadrado, o banheiro era pequeno demais para qualquer coisa além de um simples chuveiro, e uma banheira com pés não é um item fácil de encontrar no país escandinavo. A certa altura, sua melhor amiga, nova-iorquina que mora em Amsterdã, sugeriu uma solução bem nova-iorquina: instalar a banheira no quarto.

Mas a vida estava corrida demais até a primavera setentrional passada, quando Aarhus entrou em confinamento. "Eu disse a mim mesma: 'Sabe de uma coisa? Agora é um ótimo momento para concretizar o lance da banheira. Não posso viajar, não tenho aonde ir. Não tenho mais nada para comprar.'"

Agora, meses depois de um segundo bloqueio, Crawford não se arrepende de seu projeto peculiar. Seu quarto agora se parece com um sereno quarto parisiense, tornando os longos dias solitários mais fáceis de suportar. Às seis da tarde, ela entra na banheira, lê um livro no Kindle e desfruta um dos 15 aromas de banho de espuma que encomendou on-line. "Fico realmente ansiosa para chegar a hora. É meu lugar feliz. Se eu não tivesse feito isso, estaria muito triste", comentou Crawford, que normalmente viaja nessa época do ano para escapar da escuridão do inverno escandinavo.

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