Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Dizimado pela guerra, Museu do Iraque recupera sua história

Saqueada sob os olhos de soldados americanos durante a guerra de 2003, a instituição, que tem obras com mais de 5 mil anos, tenta se conectar com população

Alissa J. Rubin, The New York Times

14 de junho de 2019 | 06h00

BAGDÁ - Se há uma lembrança marcante e coletiva do Museu do Iraque, esta é provavelmente a imagem de seus salões saqueados em 2003 enquanto soldados americanos assistiam em seus tanques. Estátuas pesadas demais para serem transportadas foram derrubadas dos pedestais, transformando em pó seus ombros de 3 mil e 4 mil anos. Algumas perderam os olhos ou um lado do rosto. Caixas de vidro foram estilhaçadas, e seu conteúdo, jogado no chão.

Uma das obras de arte mais celebradas do museu era o vaso Warka, gravado com marcas de cinco milênios atrás, mostrando que já naquela época que os povos antigos da Mesopotâmia cultivavam o trigo e as frutas, sabiam tecer e trabalhar com cerâmica. Quando alguém o subtraiu, uma parte da história humana foi perdida. O mesmo vale para a Lira Dourada de Ur, um instrumento musical de 4.500 anos folheado a ouro, prata e cornalina.

Estive lá em 2003, na segunda manhã de saques, e fui impedido de me aproximar da entrada por uma multidão de iraquianos que corria transportando objetos de argila que não consegui identificar. Também transportavam itens mais prosaicos - armários de gavetas, cadeiras e rolos de fiação elétrica.

No primeiro semestre de 2019, 16 anos mais tarde, voltei ao museu. Ele foi reaberto em 2015 depois que preservacionistas consertaram parte do estrago e outros países ajudaram no restauro de muitas galerias. Ainda assim, eu esperava ver salas vazias. Em vez disso, descobri que, apesar da perda de 15 mil obras de arte, o museu estava cheio de um acervo extraordinário.

Em uma galeria bem iluminada, observei duas majestosas criaturas de alabastro com pelo menos quatro metros de altura, e parecendo ainda maiores por estarem montadas sobre plintos. Tinham o rosto barbado como homens, quatro ou cinco pernas, asas largas como águias, e corpo e cauda de touro. Conhecidos como lamassu no antigo idioma sumério, acreditava-se que fossem espíritos guardiões, construídos nos portões das cidades, nas entradas dos palácios e no vestíbulo das salas do trono.

Aqui, eles vigiavam duas salas de frisos que mostravam mesopotâmios da antiguidade transportando tributos ou caminhando ao lado de seus cavalos, ricamente desenhados. Os lamassus e os frisos sobreviveram aos saqueadores por serem pesados demais para serem levados.

Historiadores da arte e arqueólogos sabem o quanto o acervo é excepcional. Mas, apesar da relativa segurança da Bagdá de hoje, a cidade e o museu ainda são pouco procurados pelos iraquianos, e menos ainda por turistas estrangeiros.

"Há coisas que não podem ser encontradas em qualquer outro lugar, especialmente os objetos do início da história da Mesopotâmia", explicou Christopher Woods, diretor d Instituto Oriental da Universidade de Chicago, que visitou Bagdá recentemente. "É um acervo digno de manual de história".

Além de tentar reaver as peças saqueadas (cerca de 4.300 já foram recuperadas), o desafio, agora, é tornar o museu acessível para o maior número possível de iraquianos, disse Abdulameer al-Hamdani, ministro da cultura do Iraque.

"Ordenei que o museu permaneça aberto todos os dias, e disse que estudantes de ensino médio e superior podem entrar sem pagar", disse al-Hamdani, que é arqueólogo. 

Ainda assim, segundo ele, é difícil fazer com que os visitantes sintam que o museu de arte é relevante para suas vidas, especialmente entre os iraquianos mais jovens. Ainda que o número de excursões escolares seja muito maior hoje do que no passado, não há muito para orientá-las - nada de docentes nem guias.

O acervo do museu é tão abrangente que os historiadores da arte dizem ser desafiador abordar sua totalidade.

"O mais notável no Museu do Iraque é a amplitude de períodos cronológicos que ele aborda", disse Paolo Brusasco, arqueólogo e historiador da arte da Universidade de Gênova, que trabalhou muito tempo no norte do Iraque. "Desde o período assírio até o otomano", disse ele.

As peças mais antigas do museu são de aproximadamente 4000 a.C. Além disso, o acervo tem peças de cerâmica pintadas no formato de criaturas estranhas cuja boca funciona como bico; pequenas esculturas de animais que seriam brinquedos; barcos frágeis feitos de uma madeira leve encontrada em túmulos antigos. Os historiadores imaginam que os barcos seriam usados para transportar as almas ao mundo seguinte.

Hoje, a lei iraquiana estipula que tudo o que for encontrado no Iraque fica no país. Isso significa que o acervo do museu continuará a crescer, já que há no país cerca de 13 mil sítios arqueológicos e um grande número de escavações em andamento, disse al-Hamdani.

Segundo Ali al-Nashmi, professor de história e arqueologia da Universidade Mustansiriya, em Bagdá, não há fim para o passado no Iraque. "No Iraque, cidades são construídas sobre cidades", disse. / Falih Hassan contribuiu com a reportagem.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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