Peter Parks/Agence France-Presse — Getty Images
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Adaptações genéticas podem ter nos tornado mais vulneráveis à poluição no ar

Atravessando o tempo, toxinas suspensas no ar podem estar associadas a doenças como câncer de pulmão, diabetes e mal de Alzheimer, apontam estudos

Carl Zimmer, The New York Times

24 de janeiro de 2020 | 06h00

As toxinas suspensas no ar nos causam efeitos adversos de uma série de maneiras. Além de elos já comprovados com o câncer de pulmão e doenças cardíacas, os pesquisadores estão descobrindo novas associações com doenças como diabetes e mal de Alzheimer. Cientistas ainda estão analisando como a poluição no ar causa esses males. Também tentam entender como algumas pessoas parecem apresentar uma resistência a esse ataque contínuo.

Agora, alguns pesquisadores argumentam que as respostas para essas perguntas podem estar no passado, em nossa evolução. Nossos ancestrais eram atacados pelas toxinas do ar mesmo quando éramos primatas bípedes caminhando pela savana da África, argumentou o biólogo Benjamin Trumble, da Universidade Arizona State, e Caleb Finch, da Universidade do Sul da Califórnia, na edição de dezembro da Quarterly Review of Biology.

Os cientistas levantam a hipótese de nossos antepassados terem desenvolvido defesas contra esses poluentes. Hoje, essas adaptações podem oferecer uma proteção, ainda que limitada, contra a fumaça do tabaco e outras ameaças no ar. Mas nosso legado evolucionário também pode ser um fardo, especularam eles. Algumas adaptações genéticas podem ter nos tornado mais vulneráveis à poluição no ar.

Há cerca de sete milhões de anos, a África estava se tornando gradualmente mais árida. O Saara surgiu no norte do continente, enquanto prados se abriram no leste e no sul da África. Periodicamente, a savana teria passado por pesadas tempestades de areia vindas do Saara. “Quando a poeira aumenta, observamos mais problemas pulmonares", explicou Finch. Também é possível que os pulmões dos primeiros humanos ficassem irritados com os altos níveis de pólen e partículas de massa fecal produzidas pelos animais que pastavam na savana.

Finch e Trumble sustentam que os cientistas deveriam avaliar se essas novas mudanças alteraram nossa biologia por meio da seleção natural. Uma das maneiras de fazê-lo é analisar genes que evoluíram bastante desde que nossos ancestrais deixaram as florestas. Um deles é o MARCO, que oferece um modelo para a produção de uma isca molecular usada por células do sistema imunológico nos nossos pulmões.

As células usam essa isca para limpar bactérias e partículas. A versão humana do gene MARCO é bem diferente daquela encontrada nos outros primatas. O ar empoeirado estimulou a evolução da molécula em nossos ancestrais da savana, de acordo com a hipótese dos pesquisadores.

Posteriormente, nossos ancestrais aumentaram as ameaças suspensas no ar ao dominar o fogo. A fumaça criou novas pressões evolucionárias, acreditam Finch e o Trumble. Os humanos evoluíram poderosas enzimas no fígado, por exemplo, para decompor toxinas que chegavam à corrente sanguínea pelos pulmões.

O toxicólogo molecular Gary Perdew, da Universidade Pennsylvania State, e seus colegas encontraram evidências da evolução estimulada pela fumaça em outro gene, o AHR. Este gene produz uma proteína. Quando toxinas ficam presas na proteína, células liberam enzimas que decompõem as toxinas. Mas os fragmentos deixados para trás podem causar dano no tecido.

Perdew acredita que os humanos evoluíram para uma resposta mais fraca do AHR como concessão para minimizar a resposta a determinados poluentes do ar sem causar efeitos colaterais exagerados. Algumas variações genéticas que surgiram no nosso fumacento passado podem nos beneficiar hoje em dia. Mas Finch e Trumble estudaram outro gene que parece funcionar ao contrário.

Os pesquisadores descobriram que o gene ApoE4 aumenta o risco de demência decorrente da exposição à poluição no ar. Mas esses estudos se limitaram a países industrializados. Quando os pesquisadores analisaram outras sociedades — como os agricultores de vilarejos pobres em Gana, ou povos da floresta da Bolívia — o ApoE4 apresentou um efeito muito diferente.

Nessas sociedades, as doenças infecciosas ainda são uma das principais causas de morte, especialmente entre as crianças. Nesses lugares, o ApoE4 aumenta a probabilidade das pessoas sobreviverem até a idade adulta e terem filhos. A seleção natural pode ter favorecido o ApoE4 por centenas de milhares de anos. Mas este e outros genes talvez tivessem efeitos colaterais nocivos que permaneceram invisíveis até a era moderna, cheia de fumaça e fuligem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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