Kayana Szymczak para The New York Times
Kayana Szymczak para The New York Times

DNA supera arqueologia na busca pelas origens humanas

Pesquisadores descobriram que história da humanidade é revelada pelo DNA presente nos ossos humanos

Carl Zimmer, The New York Times

30 Março 2018 | 15h15

BOSTON - David Reich vestia uma roupa especial branca com capuz, tamancos cor de creme e uma máscara cirúrgica azul. Somente seus olhos eram visíveis enquanto analisava fragmentos de ossos que estavam sobre o balcão.

Reich, um geneticista da Escola de Medicina de Harvard, apontou para um pedacinho do tamanho de um morango: “Este vem de um sítio de 4 mil anos da Ásia Central, acredito que do Uzbequistão”.

E foi mostrando na fileira de amostras. “Esta aqui é de 2.500 anos de um sítio da Grã-Bretanha. Esta outra é da Era do Bronze russa, e estas são amostras da Península Arábica. Essas pessoas nunca se encontrarem no tempo ou no espaço”.Ele espera que sua equipe de cientistas e técnicos encontre DNA nestes ossos. Há boas probabilidades de que consigam.

Em menos de três anos, o laboratório Reich divulgou o DNA dos genomas de 938 indivíduos que viveram na Antiguidade - mais do que todas as outras equipes de pesquisa que trabalham neste campo juntas. As descobertas de seu laboratório mudaram nossa compreensão da pré-história humana.

“Eles oferecem respostas a perguntas antigas, e às vezes nos brindam com visões espantosamente imprevistas”, disse Svante Paabo, diretor do Instituto Max Plank de Paleontologia de Leipzig, na Alemanha.

Reich, Paabo e outros especialistas em DNA antigo estão montando, juntos, uma nova história da humanidade, uma história que corre paralelamente às narrativas colhidas dos fósseis e registros escritos. Na pesquisa de Reich, ele e seus colegas lançaram uma luz sobre o povoamento do planeta e a difusão da agricultura, entre outros eventos extremamente importantes.

Em um livro publicado em março, “Who We Are and How We Got Here” (Quem somos e como chegamos aqui, em tradução livre), David Reich, 43, explica como os avanços no sequenciamento e análise do DNA ajudaram este novo campo a decolar.

“De fato, é como a invenção de um novo instrumento científico, como um microscópio ou um telescópio”, disse. “Quando um instrumento tão poderoso é inventado, ele abre todos esses horizontes, e tudo é novo e surpreendente”.

O pesquisador supervisiona uma equipe com diferentes especialidades, da genética à matemática. Mas o “laboratório limpo” é onde é recuperado o material bruto de todo o seu trabalho - o DNA antigo. As roupas que cobrem os pesquisadores da cabeça aos pés e que eles vestem cada manhã em uma câmara de vácuo garantem que nenhum fragmento perdido de pele ou gota de suor contamine os ossos com DNA moderno. Todas as noites, o laboratório inteiro é banhado com luz ultravioleta que destrói os genes. 

Eles descobriram que o osso ao redor do ouvido interno, é o melhor lugar para buscar DNA antigo nos esqueletos.

David Reich e o Nick Patterson, que chegou mais tarde ao campo da genética, depois de trabalhar como criptógrafo, criaram uma maneira para determinar se uma população descendeu de dois ou mais grupos distintos.

Ao analisar o DNA de aldeias da Índia, eles descobriram que cada indiano vivo descende de dois grupos distintos. Um, o dos Indianos Ancestrais do Norte, está ligado às populações da Ásia Central, Oriente Médio e europeias. O segundo grupo, o dos Indianos Ancestrais do Sul, não está estreitamente relacionado a nenhum povo vivo fora da Índia. As duas populações se misturaram entre 2 mil a 4 mil anos atrás.

Em 2006, Svante Paado convidou a equipe de Reich para ajudar a imaginar de que maneira os humanos modernos e os neandertais estavam relacionados entre si. Os cientistas fizeram uma série de descobertas históricas. O DNA dos neandertais indica que seus ancestrais se separaram dos nossos há cerca de 600 mil anos. Mas os testes de David Reich revelaram que humanos vivos fora da África ainda carregam traços do DNA dos neandertais.

Como é possível? Antes que os neandertais se extinguissem na Europa, eles encontraram e se cruzaram com os ancestrais dos humanos modernos quando partiram da África.

Em 2010, descobriu-se que um osso indistinto do dedo mindinho que foi recuperado em uma caverna da Sibéria chamada Denisova carregava todo o genoma de uma linhagem de humanos anteriormente desconhecida e extinta. Os denisovanos, como passaram a ser conhecidos, separaram-se dos neandertais há cerca de 400 mil anos, revelou a análise genética.

Reich e os seus colegas descobriram que os denisovanos, como os neandertais, deixaram um legado genético nas pessoas vivas, principalmente na Austrália, Nova Guiné e Ásia.

Muitos cientistas agora suspeitam que, no futuro, o antigo DNA possa revelar outros tipos de humanos extintos.

A viagem de David Reich pela pré-história o levou a imaginar o que o DNA poderá revelar sobre eventos mais recentes. Em 2015, ele e seus colegas publicaram o DNA de 69 antigos europeus que viveram de 3 mil a  8 mil anos atrás.

De acordo com seus resultados, humanos com ancestrais do Oriente Médio que viviam da agricultura substituíram os caçadores-coletores que já viviam na Europa. Então, há cerca de 4.500 anos, chegou uma outra onda de pessoas, descendentes dos nômades que andavam a cavalo, procedentes das atuais estepes russas.

Há cerca de 4.500 anos, segundo descobriram os arqueólogos, houve uma repentina mudança na Grã-Bretanha para novos estilos de cerâmica e trabalhos em metal, conhecidos coletivamente como cultura Beaker. Muitos especialistas afirmaram que estes agricultores tomaram emprestadas as técnicas do continente europeu.

Ocorre que o DNA diz outra coisa, como mostraram David Reich e seus colegas. Enquanto a cultura Beaker se espalhava de sociedade em sociedade no continente, foi levada para a Grã-Bretanha por imigrantes que descendiam dos nômades vindos das atuais estepes russas.

Estes povos substituíram quase totalmente os primeiros agricultores. Hoje, muitos britânicos fazem remontar 90% de seus ancestrais a esta onda de imigrantes.

Não fosse pelas descobertas no campo da genética, “Ninguém teria imaginado a escala desta mudança”, disse Ian Armit, arqueólogo da Universidade de Bradford que colaborou com Reich na pesquisa. 

O plano do dr. Reich é descobrir o DNA antigo de todas as culturas conhecidas pela arqueologia em todas as partes do mundo. E, em última análise, ele espera criar um atlas genético da humanidade dos últimos 50 mil anos.

“Procuro não pensar nisso em bloco, porque este projeto é imenso”, disse.

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