Erika Gerdemark para The New York Times
Erika Gerdemark para The New York Times

Do Harlem para Herrang: Norma Miller ainda reina

A 'Rainha do Swing' é uma conexão direta para a história do Lindy Hop, uma dança nascida no Harlem na década de 1920

Renata Sago, The New York Times

29 Agosto 2018 | 10h00

HERRANG, SUÉCIA - O bum bum rítmico da big band de Count Basie, dos anos 30, ecoava no centro comunitário Folkets Hus da cidade. Homens de suspensórios e calças, e mulheres em vestidos de seda com pingentes de miçangas se abanavam no calor de agosto que batia recordes na Suécia.

A temperatura não incomodou Norma Miller, 98, sentada no palco com um casaco de lantejoulas e calça justa preta.  Atrás dela, era projetado um trecho de um documentário de 1935, em preto e branco, do Harvest Moon Ball, no Madison Square Garden, em Nova York.

Ela apontou para uma figura esguia, cheia de vigor, na tela - ela aos 16 anos - gingando na pista de dança com Billy Ricker. “Este é o concurso que perdi porque minha blusa se abriu!” disse Norma. “Dá para ver a blusa se abrindo!”

A aula desta noite no Herrang Camp Dance, no interior do país, a cerca de 110 quilômetros de Estocolmo, proporcionou um vislumbre da vida de Norma - a “Rainha do Swing” - que a dança levou das calçadas do Harlem, em que o Lindy Hop “loose-and-let-go” nasceu nos anos 20, para os salões de baile da Europa, onde o Lindy Hop floresceu durante toda a década de 40.

Para os dançarinos do mundo todo, na maioria brancos, Norma Miller era a ligação direta com a história afro-americana do Lindy Hop. Norma terminou sua aula agradecendo, em tom de brincadeira, mas com sinceridade, aos dançarinos brancos por manterem vivo o Lindy Hop.

O Lindy Hop, de Charles Lindbergh, casava os tradicionais oito passos do swing com os movimentos frenéticos e soltos das danças afro-americanas da época: rodopiando, deslizando, com sacudidas e chutes muito rápidos.

O Lindy Hop se tornou internacional, com cenários em salões de baile, e a abertura de clubes e acampamentos de swing em lugares como Cingapura, Rússia, Israel e Nepal.

Norma cresceu em um prédio de apartamentos atrás do Savoy Ballroom do Harlem, e lembra que ouvia as big bands da janela de casa. No seu livro de memórias de 1984, “Swingin’ at the Savoy”, ela escreveu que sua mãe, empregada doméstica, dava festas para ganhar um dinheiro a mais. Mais tarde, ela e a irmã ensaiavam os movimentos em casa.

No domingo de Páscoa de 1932, um dos principais dançarinos do Savoy, Twistmouth George, viu Norma, então com 12 anos, dançando na calçada em frente ao clube e a convidou para se apresentar com ele.

“O Savoy era um local muito importante socialmente para os negros frequentarem e se misturarem, porque nós éramos confinados a áreas reservadas”, ela contou. “Não podíamos ir a todos os outros cinco salões que eles tinham na cidade”.

Norma participou de alguns concursos amadores no Harlem, e chamou a atenção de Herbert White, fundador do popular Whitey’s Lindy Hoppers. Aos 15 anos, ela foi convidada a fazer parte da trupe que excursionava para lançar o Lindy Hop em clubes e salões de baile da Europa.

No ápice de sua carreira, ela se apresentou em Paris, Miami e Rio de Janeiro com os Whitey’s Lindy Hoppers, cruzando o caminho de Duke Ellington e Josephine Baker, fumando baseados com Louis Armstrong, e apareceu em filme em “Hellzapoppin” (1941).Mas a Segunda Guerra Mundial acabou com os Whitey’s Lindy Hoppers, porque os jovens do grupo foram convocados. Então Norma formou sua própria equipe. Nos anos 60, ela passou da dança para a comédia sobre a dança.

O Herrang Dance Camp foi fundado como um evento de uma semana de duração, no verão, para 25 amantes do Lindy Hop suecos, em 1982. No verão deste ano, o acampamento de cinco semanas atraiu cerca de 5 mil dançarinos e 100 instrutores provenientes de mais de 60 países. Norma descreveu o acampamento como um lugar em que os estudantes “vêm herdar a alma da dança negra”.

Norma, que hoje precisa de ajuda para se movimentar, dá aula sentada numa cadeira. Durante uma oficina, recentemente, ela gritava com os instrutores para que mantivessem o ritmo: “Não! É BE-dop buh bop!”

Norma, que divide o seu tempo entre a Flórida e a Itália, disse que pretende comemorar o seu 100º aniversário em dezembro de 2019, em Herrang, e lembra de que, quando falaram para ela do acampamento pela primeira vez, não acreditou.

“Eu disse: Vocês estão brincando. Mas quem é que vai vir até aqui?”

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