Documentário explora o transtorno de identidade dissociativa

Documentário explora o transtorno de identidade dissociativa

A condição, que antes era conhecida como transtorno de personalidade múltipla, afeta cerca de 1% da população

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

10 de abril de 2021 | 05h00

Marshay, de 28 anos de idade, refere-se a si mesmo como “menininha” e diz que se sente como se tivesse nascido há seis anos. Sua mãe acha que algo ruim deve ter acontecido com ela quando ainda era muito criança, mas não sabe o que ocorreu. Quando pergunta à filha porque acha que ainda é uma criancinha, ela responde: “não me lembro de nada. Não quero crescer. Quero continuar criança”.

O cérebro de Marshay periodicamente busca um refúgio, uma persona onde se sentir imune a algum abuso terrível que aparentemente ela sofreu no começo da vida. E a jovem possui outras identidades, que “emergem” quando ocorrem eventos desencadeadores e ela necessita de identidades alternativas para se sentir segura.

Marshay é uma das muitas pessoas que sofrem de um transtorno de identidade dissociativa, tema de um novo documentário chamado Busy Inside. Ela faz parte do grupo de 1% da população com esse transtorno psiquiátrico que outrora era chamado transtorno de personalidade múltipla, famosamente retratado há décadas em filmes como As três faces de Eva e Sybil. Ele afeta principalmente mulheres.

O novo documentário mostra os desafios de conviver com a doença. Mas muitas das pessoas afetadas nunca procuram ajuda médica até, e salvo se, sua vida se tornar ingovernável.

Karen Marshall, terapeuta de Marshay, também convive com esse transtorno e disse-me que 17 personalidades diferentes habitam sua psique e emergem de tempos em tempos. Ela sofreu graves abusos psíquicos e físicos quando criança nas mãos da sua mãe e sentiu um tremendo alívio quando ela morreu “e não podia mais me ferir”. Segundo ela, seu próprio trauma, e como aprendeu a controlá-lo, a ajudaram a se tornar uma eficiente terapeuta.

O Dr. David Spiegel, psiquiatra da Stanford University, que deu a esse tipo de transtorno o nome mais atual, explica que “desenvolvemos nossa identidade na infância e se você é abusado por alguém que deveria amá-lo e protegê-lo, procura se desprender dessa situação abusiva. Em casos extremos, você assume outras identidades. E isso se transforma num transtorno”. O hipocampo, parte do cérebro que lida com o estresse, se deteriora, e o efeito é uma extrema sensibilidade aos hormônios do estresse”, explica o médico.

No começo da vida, quando o cérebro não consegue enfrentar um problema, ele o coloca numa pequena caixa”, diz ele. E mais tarde, quando não consegue lidar com alguma coisa, isto é colocado em outro compartimento do cérebro e assim por diante, o que resulta no fato de algumas pessoas desenvolverem personalidades distintas, cada uma delas se mantendo no controle por algum tempo.

Uma mulher no filme chamada Sarah, que tem sete ou oito identidades, descreve seu trauma de infância, estar num porão terrivelmente gelado com pouca roupa e dois homens a agarrando e outros de pé rindo. “Posso ver isso acontecendo, mas não consigo parar. O monstro sempre retorna, destruindo tudo”, diz ela.

No documentário, a terapeuta Karen Marshall encoraja Marshay a se aceitar como uma mulher adulta com muitas facetas, afirmando que: "todos nós temos papéis diferentes e de certo modo todos nós usamos máscaras diferentes".

Para a pessoa que sofre com esse transtorno, quando uma identidade alternativa predomina, ela perde a noção do tempo e não tem nenhuma lembrança do que a outra personalidade fez quando estava ocupando o espaço. Karen Marshall disse que uma mulher que ela tratou tinha uma personalidade alternativa que era uma ladra e quando retornava à sua identidade principal, não tinha a mínima ideia de como havia adquirido todas as coisas que havia em seu apartamento.

O transtorno de identidade dissociativa costuma não ser diagnosticado e com frequência é diagnoticado incorretamente como depressão ou ansiedade e consequentemente tratado erroneamente, diz o Dr. Spiegel. Quando indivíduos com esse transtorno reconhecem o problema, em média, são necessários seis anos para eles saberem o que está causando os sintomas, se buscarem ajuda, afirma o médico.

Algumas pessoas com esse transtorno nunca se tratam e de alguma maneira conseguem ter uma vida normal até que alguma coisa muito estressante faz com que suas identidades alternativas apareçam e corrompam sua capacidade de funcionar. Por exemplo, disse-me Marshall, uma pessoa no filme atuava muito bem como executiva de uma empresa há muitos anos, até que um trauma familiar deixou-a tão nervosa que suas identidades emergiram, personalidades muito hostis e devastadoras emergiram e ela não conseguiu mais exercer seu trabalho.

Segundo o Dr. Spiegel, algumas pessoas que convivem com esse transtorno “temem um tratamento ou se mostram ambivalentes a respeito. Não acreditam que estou aqui para ajudá-las porque, com base na sua história, acham que a pessoa que querem ajudá-las potencialmente irá lhes causar danos”.

As identidades alternativas podem surgir ao mesmo tempo como se a pessoa fosse duas, uma se opondo à outra. Elas desenvolvem papéis especializados, aparecendo em determinadas circunstâncias, segundo o médico. Por exemplo, uma identidade  “protege” contra outra que se mostra agressiva ou nociva. A identidade protetora pode pensar: “vou permanecer aqui enquanto fulana estiver circulando”, disse ele.

Como Marshall explicou, as pessoas têm uma ou duas identidades que agem como guardiães, mantendo as outras no seu interior.

No tratamento, a identificação e enfatização dos valores e crenças básicas da pessoa, a idade adulta dela, permitirá a ela aprender a dominar as identidades que são perturbadoras ou encrenqueiras, disse Marshall.

Sua abordagem do tratamento não visa necessariamente livrar as pessoas de suas identidades alternativas, salvo se for esse o seu desejo. Pelo contrário, disse, elas podem aprender a usar essas identidades construtivamente e viver uma vida normal como adulto numa sociedade.

Também é útil reconhecer as circunstâncias que levam uma identidade inquietante a surgir e temporariamente tomar o lugar da personalidade adulta. Marshall disse ter aprendido que “se estou cansada, doente, ou estressada, acabo me dividindo” e uma personalidade infantil vêm à tona.

Como no transtorno de estresse pós-traumático, as pessoas com múltiplas identidades têm flashbacks e revivem constantemente os abusos sofridos. “Não assisto a filmes sobre abuso infantil”, disse Marshall. Ao tratar o transtorno de identidade dissociativa, disse ela, “procuro levar as 'criancinhas' que foram traumatizadas a se conscientizarem de que estão seguras, que não serão machucadas novamente”.

O Dr. Richard P. Kluft, psiquiatra em Bala Cynwyd, Pensilvânia, concentra sua terapia “no apoio carinhoso, estimulante e reconfortante” que ajuda os pacientes a se sentirem seguros. “A mente cura com a dedicação amorosa”, afirmou. Tanto ele como Spiegel com frequência usam a hipnose para ajudar na terapia e ensinam os pacientes como se acalmarem com a auto-hipnose entre as sessões.

No caso de pacientes relutantes, Luft diz que ele acolhe todas as partes da sua personalidade, ajudando as suas várias identidades a se simpatizarem e se respeitarem.

De acordo com Karen Marshall, à medida que as pessoas com múltiplas identidades começam a melhorar, “elas conseguem analisar o que estão sentindo e vivenciando. E aprendem a usar suas identidades alternativas construtivamente, conseguindo viver em sociedade como uma pessoa adulta”, o que aos poucos ela vem aprendendo a fazer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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