Société française de photographie
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Documentário ressalta importância da cineasta Alice Guy-Blaché

Pioneira do cinema, ela explorou gênero, raça e classe, e inspirou nomes como Sergei Eisenstein, Alfred Hitchcock e Agnès Varda

Elizabeth Weitzman, Thw New York Times

09 de maio de 2019 | 06h00

Quando você pensa nos titãs dos filmes clássicos, quem vem à sua mente? Com certeza, o nome da cineasta francesa Alice Guy-Blaché – uma das pioneiras mais influentes do cinema – não lhe ocorreria. Até pouco tempo atrás, Blanché estava relegada às notas de rodapé, onde costuma ser mencionada apenas  como a primeira cineasta, mas é menosprezada em termos do seu impacto. E no entanto, de 1896 a 1922, ela fez cerca de mil filmes, ampliando as fronteiras visuais e temáticas do cinema. Fez experimentos com o primeiro som sincronizado, a película em cores e os efeitos especiais. Explorou gênero, raça e classe. E inspirou futuros gigantes como Sergei Eisenstein, Alfred Hitchcock e Agnès Varda.

Agora, o seu legado está sendo ressuscitado. Graças ao novo documentário de Pamela Green, Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché, atualmente em exibição limitada, Alice deverá receber o crédito que merece, cerca de um século depois do seu último filme. Green contou que ficou impressionada, em 2000, quando ouviu falar de Alice Guy-Blaché em um documentário da televisão de Susan e Christopher Koch, intitulado Reel Models, sobre mulheres pioneiras no cinema. “Fiquei pasma”, comentou. “Porque o seu nome  não era conhecido?”.

Alice nasceu em 1873, como Alice Guy; sua mãe, uma francesa educada em um convento, casara com um intelectual franco-chileno mais velho do que ela. Seu pai era proprietário de livrarias em Valparaiso e Santiago. Grávida, sua mãe insistiu em viajar de navio do Chile até a França, só para que sua filha pudesse nascer em Paris.

Em 1894, Alice Guy-Blaché se candidatou ao emprego de secretária de Léon Gaumont, um inventor francês que, na época, estava experimentando a linguagem cinematográfica. Homens como Gaumont e os irmãos Lumière, que patentearam e apresentaram um cinematógrafo incipiente em 1895, estavam interessados na mecânica das imagens em movimento para documentar a vida real: trabalhadores saindo de uma fábrica, multidões em uma parada.

Mas Alice percebeu um rumo diferente. “Pensei que seria possível fazer coisas melhores do que filmes de demonstração”, escreveu em sua autobiografia The Memoirs of Alice Guy-Blaché. “Propus timidamente a Gaumont que me deixasse escrever uma ou duas pequenas cenas e permitisse que fossem interpretadas por amigos meus”. Gaumont concordou com o pedido, mas ela poderia escrever “somente com a condição expressa de que isto não interferisse com as minhas obrigações de secretária”. Logo em seguida, ela dispensava estes deveres por outros: procuraria locações, criaria costumes, e se tornaria cinegrafista, roteiristaa, diretora e produtora.

Ao longo de 23 anos, Alice fez comédias, aventuras e romances. Fez thrillers, melodramas e westerns; épicos religiosos e documentários. Depois de dirigir o estúdio de Gaumont, em Paris, foi para a América, onde abriu a produtora Solax, de enorme sucesso em Fort Lee, Nova Jersey, uma das primeiras nos Estados Unidos.

Alice estava acostumada a ser passada para trás, mesmo pelo marido, Herbert Blaché. Embora tivesse fundado a Solax, seus poderes na empresa eram limitados. “Eu poderia embaraçar os homens, segundo Herbert”, ela escreveu, “interessado em fumar os charutos deles”.

Alice viveu até os 94 anos, o que significa que teve tempo de sobra para ver as suas realizações ignoradas pelos historiadores. (Morreu em 1968). Dezenas de anos mais tarde,  Hollywood ainda demorava a evoluir. Quando Green tentou compartilhar a história de Alice antes do movimento Time’s Up, a indústria continuou a não demonstrar interesse. “Eu tive a impressão de ter sido roubada, de certo modo”, afirmou. “Tinha de fazer alguma coisa a respeito!”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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