(Maciek Nabrdalik/The New York Times)
(Maciek Nabrdalik/The New York Times)

Documentário traz à tona acusações de abuso contra o clero polonês

'Não conte a ninguém' recebeu mais de 20 milhões de visualizações desde que foi lançado online

Marc Santora e Joanna Berendt, The New York Times

25 de maio de 2019 | 06h00

VARSÓVIA - Anna Misiewicz tinha sete anos quando foi convidada a ir até o quarto do padre de sua paróquia, em uma aldeia no sudoeste da Polônia. Ela pensou que o sacerdote precisasse da sua ajuda para contar as doações feitas à igreja, mas ela se achou sozinha com um maníaco sexual, identificado apenas como Padre Jan A. Ele tocou o peito da criança, acariciou o seu corpo e a obrigou a usar as mãos para masturbá-lo.

Anos mais tarde, o cheiro do leite ainda lhe provoca enjoos, contou, “porque o padre bebia leite e o gosto do leite ficava na sua boca e depois na minha". Em um novo documentário, Anna lembra desses pesadelos e também se defronta com o homem que a atacou, e no entanto continua padre.

“Eu nunca deveria ter feito aquilo”, diz o sacerdote em um momento captado pelo vídeo gravado secretamente. Ele pede desculpas e também para beijar a mão de Anna, que mal consegue segurar o nojo. O documentário de duas horas de duração, intitulado Não conte a ninguém, recebeu mais de 20 milhões de visualizações desde que foi lançado online no dia 11 de maio. O filme mostra em detalhes não apenas um padrão de abusos que inclui acusações de estupro, mas também que a Igreja dessa nação profundamente católica tratou de proteger os padres por dezenas de anos.

“Finalmente estamos testemunhando o reconhecimento nacional, do mesmo tipo que levou à justiça as Igrejas de outros países”, disse Joanna Scheuring-Wielgus, ativista e parlamentar da oposição. “Este filme mostra em branco e preto a podridão generalizada do clero”. Em grande parte, os abusos ocorreram nos anos 1980, sob o pontificado do polonês João Paulo II. As revelações obrigaram a pôr em discussão o fato de João Paulo, hoje santo, não ter adotado nenhuma medida para proteger as crianças.

No ano passado, o reverendo Henryk Jankowski, que morreu em 2010, foi acusado de abusar de crianças. Este ano, alguns ativistas derrubaram a sua estátua em Gdansk; as autoridades a recolocaram no lugar, mas quando surgiram outras acusações, a prefeitura decidiu retirá-la definitivamente.

Jaroslaw Kaczynski, o líder do Partido Lei e Justiça que está no governo, acusou os que levantam a questão dos abusos sexuais praticados por padres de procurarem minar os alicerces da Igreja. Mas quando a opinião pública manifestou a sua revolta, o governo foi obrigado a responder. O parlamento impôs recentemente punições mais rigorosas aos que abusam de crianças, e eliminou o estatuto sobre a limitações das sanções  aos autores destes crimes.

Entretanto, algumas personalidades do clero procuraram associar  a questão do abuso à homossexualidade. O bispo Miroslav Milewsi disse em uma entrevista que “será impossível solucionar a questão da pedofilia na Igreja sem abordar o problema da ‘máfia lavanda’(a cor),  ou seja, as pessoas que têm  preferências sexuais ou são homossexuais”.

O papa Francisco atribuiu a crise dos abusos ao clericalismo, uma visão que enaltece os sacerdotes e a sua autoridade. Recentemente, ele apresentou a primeira lei da Igreja que obriga os prelados do mundo inteiro a informar os casos de abuso e as tentativas do seu acobertamento.

Um estudo publicado pela Igreja polonesa em março constatou que de 1990 a meados de 2018, as autoridades eclesiásticas receberam informações de abusos referentes a 382 sacerdotes. O estudo, que usou dados de mais de 10 mil paróquias, diz que nesses 28 anos, 625 crianças foram molestadas sexualmente.

Mas os analistas afirmam que estes números subestimaram tremendamente a extensão dos abusos. Os críticos destacaram também que o estudo não incluiu detalhes sobre o que aconteceu com os autores dos abusos depois que foram descobertos, incluindo os que foram transferidos para outras paróquias.

O documentário mostra que os padres não só tiveram a permissão para continuar no sacerdócio como também para trabalhar com crianças. O reverendo Dariusz Olejniczak foi flagrado pela câmera chefiando um retiro para crianças apesar da proibição de trabalhar para sempre com jovens.

Depois do lançamento do filme, ele pediu para abandonar o sacerdócio. Marek Sekielski, o produtor do documentário, disse que no passado foram feitas grandes promessas, mas “as belas palavras das mais altas autoridades eclesiásticas muitas vezes foram contestadas pelas ações dos padres”.

No entanto, ele está otimista. “A boa recepção do filme superou as nossas maiores expectativas”, afirmou. “Nós vimos que o filme provocou algum exame de consciência do clero. Ouvimos vozes da Igreja dizendo que chegou o momento para mudar de fato alguma coisa”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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