Tamara Merino para The New York Times
Tamara Merino para The New York Times

Dois exploradores na corrida para serem os primeiros a cruzarem a Antártida sem assistência

A travessia da calota polar, compreendendo quase 1.500 quilômetros, pode levar 65 dias

Adam Skolnick, The New York Times

25 Novembro 2018 | 06h00

PUNTA ARENAS, CHILE - Uma janela se abriu na manhã de 31 de outubro, com uma breve pausa nos ventos e na neblina polar, e o voo para a Antártida foi liberado para decolagem.

Durante quase uma semana, o americano Colin O’Brady, 33 anos, um atleta dedicado a circuitos de aventura, e o capitão do exército britânico Louis Rudd, 49 anos, esperaram no Estreito de Magalhães, perto do extremo sul da América do Sul.

A poucos quarteirões um do outro, os dois pesaram e embalaram cuidadosamente suas provisões de frio, separando o equipamento para condições polares. Suas mochilas incluíam sacos de dormir para condições de frio abaixo de -40°C, painéis solares portáteis, esquis para cross-country, telefones via satélite e um rastreador GPS programado para levá-los passo a passo através do continente mais alto, seco e frio do planeta.

Os dois, que estabeleceram entre si uma relação de concorrência durante o tempo que passaram no Chile, estavam determinados a disputar o título de primeira pessoa a atravessar a Antártida sozinha, sem apoio - uma odisseia de 1.482 quilômetros em meio ao gelo e aos ventos cortantes que pode levar até 65 dias. É uma jornada que matou um homem dois anos atrás.

Durante boa parte deste ano, o capitão Rudd imaginou que teria pela frente uma batalha solitária contra a natureza. Agora, tornou-se uma corrida. O capitão Rudd anunciou em abril que faria a tentativa. Então, em meados de outubro, faltando poucas semanas para o período limite para os preparativos, O’Brady revelou no Instagram que planejava fazer o mesmo.

O capitão Rudd segue o estilo de um aventureiro à moda antiga. Alistou-se nos fuzileiros navais aos 16 anos e continua ligado às forças armadas britânicas. Combateu em Kosovo, no Iraque (três turnos) e no Afeganistão (quatro turnos). “Obviamente, a Antártida é perigosa à sua maneira, mas eu me considero extremamente sortudo", disse ele. “Tenho amigos que perderam membros, olhos, coisas que mudaram suas vidas.”

O capitão Rudd foi apresentado à exploração polar por outro soldado inglês, o tenente-coronel Henry Worsley, parente de Frank Worsley, capitão da malfadada expedição de Ernest Shackleton até a Antártida no início do século 20. Em 2012, o capitão Rudd e o coronel Worsley rastrearam o percurso de 1.480 quilômetros da jornada de Roald Amundsen até o polo sul.

O’Brady é um experiente atleta e aventureiro que ganha cada vez mais destaque nas redes sociais. 

Cresceu em Portland, Oregon, e nadou pela Universidade Yale. Durante uma viagem à Tailândia em 2008, envolveu-se num acidente. Suas pernas ficaram gravemente queimadas, e os médicos lhe disseram que jamais voltaria a caminhar normalmente. Dezoito meses mais tarde, enquanto morava em Chicago e trabalhava no setor financeiro, ele se inscreveu num triatlo de distância olímpica. Venceu na categoria amadora. O’Brady largou o emprego, passou seis anos competindo em triatlos profissionais, e tinha resultados que o classificavam para a olimpíada.

Mas ele abandonou o esporte em 2014 para de dedicar ao Explorers Grand Slam. Escalou cada um dos “sete picos” (a montanha mais alta de cada continente) e esquiou através do último grau antes dos polos em apenas 139 dias em 2016, estabelecendo um recorde mundial ainda não superado. Em meados deste ano, ele escalou os pontos mais altos de cada um dos 50 estados americanos em 21 dias, deixando para trás outro recorde.

Para se preparar para a jornada pelo polo sul, o capitão Rudd se submeteu a um treinamento, dedicando horas aos exercícios de impacto. Todas as noites, depois de terminar o serviço na base do exército britânico, ele arrastava um imenso pneu de caminhão pela margem do rio. O treinador profissional Mike McCastle submeteu O’Brady a uma preparação semelhante em Portland. O’Brady ganhou sete quilos que músculo. Para suportar os elementos congelados, ele manteve o corpo em posição de prancha com mãos e pés mergulhados em baldes de água gelada. Então, desfez nós enquanto os dedos estavam amortecidos pelo frio.

O’Brady chama sua expedição de “The Impossible First” [A primeira vez impossível] e mostra seu progresso nas redes sociais. “Se não puder mostrá-lo, a coisa perde um pouco da graça", disse ele. 

“Eu defendo a superação de obstáculos. Acredito que todos devemos incentivar uns aos outros.” Uma palestra TEDx apresentada por ele no ano passado já foi vista 1,2 milhão de vezes.

Embora alguma tensão inicial fosse perceptível entre os dois aventureiros, eles concordaram em definir um trajeto que parte da Plataforma de Gelo Ronne, partindo no dia 3 de novembro. Estão arrastando trenós nórdicos, chamados pulks, onde transportam todo o alimento e equipamento para acampar. Antes de começarem a jornada, seus pulks pesavam cerca de 170 quilos.

Embora alguns aventureiros tenham usado pipas para aproveitar a força dos ventos na travessia do continente ou recorrido à entrega de suprimentos ao longo do trajeto, o explorador polar inglês Ben Saunders foi o último a tentar uma travessia sozinho, sem apoio. Escolheu uma rota diferente, e desistiu depois de percorrer 1.296 quilômetros em 2017. 

No ano anterior, o coronel Worsley fizera uma tentativa semelhante. Cobriu mais de 1.448 quilômetros, mas morreu em decorrência de uma infecção dois dias depois de ser resgatado a 203 quilômetros da linha de chegada. O capitão Rudd comandou uma equipe de seis soldados ingleses para refazer os passos dele, concluindo a jornada em 2017.

O capitão Rudd e O’Brady captaram mais de 200 mil dólares cada um, recorrendo a patrocinadores corporativos e doadores particulares para organizar suas expedições. Os dois se reuniram no bar do hotel escolhido por Shackleton no sul do Chile fizeram amizade em torno do desejo comum de sofrer em nome da aventura. Posteriormente, concordaram em participar de uma corrida.

Mais ou menos ao meio dia do dia 3 de novembro, o capitão Rudd e O’Brady embarcaram num hidroavião. Após um voo de 90 minutos, chegaram à Plataforma de Gelo Ronne.

O’Brady foi o primeiro a sair e apanhar seu equipamento. “Boa sorte", disse-lhe o capitão Rudd, “acho que vamos nos encontrar no fim".

Os dois se despediram com um abraço, provavelmente seu último contato humano pelos dois meses seguintes. Então, enquanto O’Brady amarrava o trenó à cintura, o avião seguiu por mais meio quilômetro até chegar ao ponto de partida paralelo do capitão Rudd.

A Plataforma de Gelo Ronne flutua no oceano, mas está presa ao continente. Eles começaram a cinco quilômetros do continente em si. O’Brady estava contente por manter o ritmo e se preparar para os dias seguintes, mais árduos. 

“Depois que encontramos um ritmo e uma rotina, as coisas começam a fluir melhor", disse ele usando o telefone via satélite.

As temperaturas podem ficar abaixo de -45°C, mesmo no verão, e se uma tempestade obrigá-los a permanecer por dias na barraca, os aventureiros podem ficar sem alimento. Outros riscos incluem a hipotermia, o congelamento das extremidades do corpo e uma condição conhecida como ulceração polar. 

Ferimentos infeccionados demoram para cicatrizar por causa da temperatura. No planalto polar, já foram medidos ventos de até 100 quilômetros por hora. Mesmo ventos mais fracos podem criar condições de baixa visibilidade e formar ondulações na superfície da neve, dificultando a tarefa de arrastar um trenó atrás de si.

“Faz 100 anos que as pessoas tentam essa travessia, e ninguém teve sucesso até hoje", disse O’Brady. 

“E aqui temos dois sujeitos motivando um ao outro a realizar um feito impossível.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.