Ryan Christopher Jones para The New York Times
Ryan Christopher Jones para The New York Times

'Dois países, um só time’: uma fronteira que o beisebol apagou

No México ou no Texas, este time joga em casa

James Wagner, The New York Times

29 Setembro 2018 | 10h15

LAREDO, Texas - Os hinos nacionais dos Estados Unidos e do México tocaram nos alto-falantes do estádio, enquanto as bandeiras de ambos os países tremulavam ao vento quente do verão. Os torcedores conversavam em inglês e em espanhol. Hambúrgueres e pipoca eram tão procurados quanto tacos e fatias de maçã cobertas com calda de tamarindo.

Chegara a hora de os Tecolotes de los Dos Laredos, as Corujas dos Dois Laredos, um dos times mais antigos do beisebol mexicano, entrarem em campo no Uni-Trade Stadium, do lado texano da fronteira.

Mas não era um jogo fora de casa.

A fronteira está praticamente apagada aqui, uma perspectiva às vezes não compreendida nas discussões acaloradas sobre muros e migrantes e acordos internacionais do comércio. Por isso, nesta temporada, em uma mescla de simbolismo e tino comercial, os Tecolotes jogaram metade de suas partidas fora de casa em Nuevo Laredo, no México, do outro lado do Rio Grande.

Parecia normal, até mesmo esperado. Torcedores, jogadores e funcionários dos times já viviam dos dois lados da fronteira, indo e voltando através dela com vistos e autorizações especiais. Uma formação anterior deste time mexicano de beisebol antes jogava regularmente aqui.

Mas isto foi há 14 anos; os tempos mudaram. A logística do jogo dos dois lados da fronteira ficou complicada, porque a travessia passou a tomar mais tempo por causa da verificação dos documentos e dos veículos. Nuevo Laredo, também, ficou violenta com a guerra do narcotráfico, e as viagens, antes consideradas normais, hoje são menos frequentes e mais tensas.

Um jogo dos Teocolotes que estava marcado para este verão foi transferido para o Texas depois que os jogadores dos dois times ficaram preocupados com um tiroteio que durou 90 minutos do lado mexicano.

Mesmo assim, ambas as cidades acharam a decisão de os Tecolotes jogarem no Texas mutuamente benéfica, e um evento que significava muito mais, um lembrete de uma época mais simples e de vínculos que permanecem fortes, embora estejam sendo postos à prova.

“Ainda que a política e a diplomacia se encontrem em um momento tenso e difícil em outros lugares, nós temos de fazer o que podemos aqui”, disse o prefeito Enrique Rivas de Nuevo Laredo. “Aqui, vivemos uma realidade diferente do que pensam Washington ou a Cidade do México. O beisebol veio aqui para unir o que a política talvez não consiga fazer.”

O time, provavelmente o único nas partidas de beisebol que joga em casa em dois países, é uma criação de José Antonio Mansur, um homem de negócios mexicano que é o proprietário dos Tecolotes, filiado à Liga Mexicana de Beisebol.

No inverno, Mansur transferiu a equipe de Veracruz para Nuevo Laredo e insistiu que os jogos fossem realizados em Laredo. Ele voltou a adotar o nome Corujas dos Dois Laredos, usado por uma formação anterior do time, anos atrás. Foi uma jogada de marketing baseada no óbvio: estas duas cidades estão inextricavelmente ligadas entre si.

Mais de 208 bilhões de dólares em transações comerciais passaram por Laredo no ano passado, tornando-a um dos portos terrestres mais movimentados dos Estados Unidos, segundo o Departamento dos Transportes dos EUA. Em média, 39 mil pessoas cruzam diariamente a fronteira a pé, de carro e de ônibus. Cerca de 95% da população de Laredo, de 260 mil habitantes, é hispânica.

Os Tecolotes agora usam um novo logotipo que representa o caráter binacional do time: o Número 2 envolve um L, com símbolos das bandeiras de ambos os países. O slogan dos Tecolotes é “Dos Naciones, Un Equipo”, Duas nações, uma só equipe.

“Vivemos em um território outrora mexicano”, disse Mansur, 72, em seu escritório antes de um jogo em Laredo. “E todas as pessoas que viveram aqui não perderam as suas raízes”.

O precursor dos Tecolotes de hoje jogou em ambos os lados da fronteira de 1985 a 2004, e ambas as cidades tinham um estádio vazio disponível; em Laredo; uma equipe independente da liga, hoje extinta, deixou o estádio de beisebol Uni-Trade no ano passado.

Dos 114 jogos de sua temporada regular, os Tecolotes jogaram 30 em casa no Uni-Trade Stadium, e 27 do lado mexicano, no Estádio Nuevo Laredo - mais os jogos das eliminatórias de ambos os lados da fronteira, antes da derrota dos Tecolotes, no dia 16 de setembro.

O público dos jogos em Laredo foi maior do que em Nuevo Laredo. A violência e a distante localização do estádio de Nuevo Laredo tornaram mais difícil atrair torcedores, segundo representantes do time. 

Há também mais recursos disponíveis e dinheiro de patrocínio no Texas - um motivo fundamental pelo qual Mansur quis que o seu time jogasse aqui.

Embora as autoridades e os moradores locais afirmassem que a violência em Nuevo Laredo diminuíra, no início deste ano, o Departamento de Estado americano colocou cinco estados mexicanos, incluindo Tamaulipas, de Nuevo Laredo, em sua lista de proibição de viagens, ao lado do Afeganistão, da Síria e do Iraque.

A fama de Nuevo Laredo levou alguns jogadores a pedirem sua transferência, e outros se recusaram a comparecer após terem sido transferidos para o Tecolotes.

Segundo os jogadores e a diretoria, o time não tem sido alvo das gangues. Mas, por motivos de segurança, a maioria dos jogadores do Tecolotes mora em Laredo, em um hotel reservado, durante a temporada, o que é possível porque muitos nasceram nos Estados Unidos de pais mexicanos.

Antes dos jogos em Laredo, os jogadores que moram em Nuevo Laredo se reúnem na ponte, na fronteira, no centro da cidade, entram a pé nos Estados Unidos, depois pegam uma van  que os conduz até o estádio. Depois dos jogos em Nuevo Laredo, as vans do time deixam os jogadores na fronteira. É muito mais rápido a pé.

“Atravessamos tantas vezes que conhecemos nove de cada dez guardas de fronteira”, disse Kelvis Flete, administrador assistente do Tecolotes. “Eles até nos perguntavam se havíamos ganho naquela noite”.

Embora os ingressos fossem mais baratos em Nuevo Laredo, a média do público pagante de Laredo era quase o dobro, mais de 4 mil pessoas. Um anúncio lembrava aos torcedores que visitavam o México que a taxa para cruzar a fronteira de carro, 3,50 dólares , seria dispensada. Bastava mostrar um canhoto do ingresso dos Tecolotes. Laredo, que fica com o valor da taxa de fronteira, fazia isto para atrair o público do México.

Muitos jogadores sabiam o que eles representavam para os torcedores de ambos os lados. Os inconvenientes de sua viagem eram mínimos em comparação aos de muitas pessoas que cruzavam diariamente a fronteira com muito menos.

“Às vezes, as pessoas não entendem a importância do que estamos fazendo, mas é realmente algo grande”, disse o jogador Alejandro Rivero, 30. “As questões entre os dois países são coisas entre políticos e líderes. Nós somos apenas os atletas que jogam dos dois lados, mas estamos mostrando que as pessoas podem viver a vida, e viver em paz”.

O prefeito Pete Saenz, 66, de Laredo, Texas, e Rivas, 46, seu colega, estão unidos por um vínculo profundo; eles fizeram lobby juntos em Washington, no ano passado, por questões regionais e, este ano, eles se convidaram mutuamente para as duas partidas de abertura em casa dos Tecolotes.

“É assim que nós trabalhamos aqui”, disse Saenz, do Partido Democrata. “Nós sabemos que há dois países, mas somos vizinhos e nos ajudamos mutuamente; este é um aspecto fundamental da nossa cultura. Embora eu seja cidadão americano e patriota - e eles sejam patriotas mexicanos - não nos sentimos divididos”.

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