Heba Khamis / The New York Times
Heba Khamis / The New York Times

Domadoras de leões no Egito mostram aos homens como se faz

A luta mais ampla pela igualdade das mulheres pode estar atrasada no Egito, mas seis mulheres dominam o campo da domesticação de leões no país

Declan Walsh, The New York Times

02 de abril de 2020 | 06h00

GAMASA, EGITO – No seu apartamento em uma cidade litorânea. Luba sl-Helw, uma mãe de família trabalhadora enfrenta inúmeras exigências. Elas faz malabarismos com os telefonemas, prepara uma galinha ensopada para o jantar e desvia dos pedidos dos três filhos, esparramados diante da TV.

Horas mais tarde, Luba entra no picadeiro de um circo usando uma roupa justa de pele de leopardo e botas pretas. A música explode. As crianças aplaudem. Leões e tigres formam um séquito atrás dela. Luba caminha até um tigre empoleirado e acaricia a grande cabeça, provocando um rugido como resposta.

Então faz uma careta teatral. A luta pela igualdade das mulheres está bastante atrasada no Egito, onde apenas 25% das mulheres fazem parte da força de trabalho. Mas há um campo em que as mulheres egípcias dominam. Luba é uma das seis domadoras de leões do país, que em geral pertencem à mesma grande família, cujos espetáculos ultrapassados atraem multidões de egípcios todos os anos.

Com trajes cheios de lantejoulas, e usando nomes artísticos como “A Rainha dos Leões”, elas convencem grandes felinos a atravessar com um salto aros em chamas ou a permitir que ela ande sobre os seus corpos. Algumas tornaram-se celebridades, à sua maneira. Outras sobreviveram aos ataques, nenhuma é acompanhada por um homem nos shows.

“Eu mesma dou a comida para eles’, diz Luba, entre um ato e outro, enquanto joga um bom pedaço de carne de burro em uma pequena jaula ocupada por Hairem, um leão de 6 anos. “E eles me olham como se eu fosse a mãe deles”. Os leões sempre foram símbolos de prestígio e poder no Egito.

Os faraós os caçavam ao longo do Nilo. A Grande Esfinge, que guarda as pirâmides de Gizé, tem cabeça humana e corpo de leão. Para Luba, entretanto, os leões são um negócio de família. Sua avó Mahassen foi a primeira domadora de leões do mundo árabe, e seu pai, Ibrahim, foi um astro do Circo Nacional estatal do Egito, nos anos 1980.

Duas das sete filhas o seguiram no picadeiro: Luba, que sucedeu ao pai como domadora do Circo Nacional, e a irmã Ousa, que se apresenta em um circo privado. Segundo o Fórum Econômico Mundial, as mulheres ocupam apenas 7% dos altos cargos na administração no Egito. Mas em suas apresentações, Luba não deixa dúvidas quanto a quem manda ali, brandindo bastões ou chicotes. “As pessoas esperam ver um homem barrigudo e botas de cano alto”, ela diz.

Luba minimiza as preocupações com a própria segurança, e conta que convence os leões a obedecê-la com muito afeto e pedaços de carne. “Os leões podem ser mais fáceis de se lidar do que as pessoas”, observa. A história do circo da família começou no porto de Damietta no Mediterrâneo, no Egito, há um século.

A família adquiriu os primeiros leões nos anos 1930. Nos anos 1960, os artistas da família ingressaram no Circo Nacional. Antes de domar leões, a filha mais jovem el-Helw tentou uma carreira mais convencional em uma empresa de marketing no Cairo. Mas um gerente a criticou: “Você pensa que está em um circo?” perguntou, ela lembra. “Então eu bati nele”. “Na cabeça, na realidade”, acrescenta. “Foi o fim do emprego”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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