Kiana Hayeri para The New York Times
Kiana Hayeri para The New York Times

Dona de café em Cabul menospreza os esforços de paz com o Taleban

Laila Haidari afirma que não ficará diante do grupo para implorar pelos seus direitos

Rod Nordland, The New York Times

21 de fevereiro de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - O homem em um carro que estava bloqueando o trânsito ficou chocado quando um motorista que passou por ele gritou: "Seu burro sujo!" E ficou ainda mais surpreso quando olhou para cima e viu que se tratava de uma mulher. Uma mulher dirigindo um carro. Uma mulher dirigindo um carro sem usar o hijab obrigatório!

Era Laila Haidari, dona de um café em Cabul que permite que homens e mulheres comam juntos, casados ou não, com ou sem o lenço na cabeça, e usa os lucros para financiar uma clínica de reabilitação para viciados em drogas.

Quase todo mundo chama Laila, 39, de "Nana", ou "mamãe", e os seus defensores a descrevem como "a mãe de mil filhos", por causa do número de afegãos viciados em drogas que, segundo dizem, ela já salvou. Agora, Laila pretende começar uma revolta contra as conversações de paz com o Taleban.

"Gente, o Taleban está voltando", ela disse recentemente aos clientes do seu restaurante. O Taj Begum sofreu repetidos ataques da mídia local que praticamente o considera um bordel. "Precisamos nos organizar", disse aos clientes. "Espero encontrar mais 50 mulheres que se levantem e digam: 'não queremos a paz'. Se o Taleban voltar, vocês não terão uma amiga como eu, e não haverá nenhum restaurante como o Taj Begum."

Embora a maioria dos ativistas da causa das mulheres no Afeganistão seja financiada e apoiada pelo Ocidente, ela insiste em organizar sua atividade política por conta própria, e em seus próprios termos.

"Antes disso, precisamos mudar os nossos homens e as nossas famílias", afirmou. "Não pensem que sou uma vítima, como tantas das nossas mulheres na vida pública parecem ser. Eu não vou ficar sentada em frente aos talebans usando hijab, implorando pelos meus direitos", explicou.

Laila, que vem de uma família conservadora em matéria de religião, se casou aos 12 anos com um mulá vinte anos mais velho. "Desde os 12 anos, eu me sinto como se estivesse em um ringue de boxe", afirmou. "Naquela época, eu não sabia que o casamento de crianças era uma coisa injusta, embora eu tivesse a sensação de ser estuprada todas as noites por um homem adulto, e isto era errado."

Sua família fugiu para o Irã, como refugiada, onde Laila deu três filhos ao mulá. O marido permitiu que ela tivesse aula de religião, mas ela secretamente começou a se interessar por outras coisas, e frequentou uma universidade iraniana, onde se formou em cinema.

Laila se divorciou - de acordo com a lei islâmica, ela ficou com as crianças - e voltou ao Afeganistão, onde descobriu que seu irmão Hakim morava debaixo de uma ponte em Cabul, viciado em heroína. Ela prometeu a Deus que abriria um centro de tratamento para viciados se conseguisse salvá-lo, e conseguiu usando o método do Narcóticos Anônimos em 12 etapas e uma dose de amor rude.

Laila mora sozinha em um apartamento. Uma noite, contou que ele foi invadido por dois homens que não imaginavam que ela tivesse uma arma em baixo da cama. "Atirei no teto e eles fugiram", ela disse. A notícia de um acordo preliminar, divulgada recentemente, entre o Taleban e negociadores dos Estados Unidos, que prevê uma retirada dos americanos do país, agitou Laila.

"Estamos diante de uma ideologia, não de um grupo de pessoas", ela disse. "Eles acreditam que as mulheres são por definição seres de segunda classe. Não podemos mudar esta ideologia, por isso não tenho nenhuma esperança com as conversações dos talebans."

Os três filhos de Laila, hoje de 16 a 21 anos, fugiram do Irã e foram para a Alemanha e estão em contato com a mãe pelo WhatsApp. O seu trabalho é para eles, afirmou. "Vou ter algo para contar aos meus filhos e netos, quando perguntarem: 'o que você fazia quando o Taleban chegou?'"

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