Jianan Yu / Reuters
Jianan Yu / Reuters

Donald Trump e uma obsessão tarifária desde a década de 1980

Esta predileção cresceu nos últimos anos, enquanto as tarifas se destacaram como o instrumento unilateral mais poderoso que Trump pode manejar para implementar sua agenda econômica

Jim Tankersley e Mark Landler, The New York Times

28 de maio de 2019 | 06h00

WASHINGTON - Donald J. Trump perdeu um piano de 58 teclas usado no clássico de cinema Casablanca que estava sendo leiloado em 1988 por uma companhia japonesa que representava um colecionador. Embora depois menosprezasse o fato de ter sido vencido por um lance mais alto, isto serviu de lembrete em primeira mão da crescente riqueza do Japão, e no ano seguinte, o presidente americano foi à televisão para pedir um aumento de 15% a 20% sobre as importações do Japão.

“Acredito firmemente nas tarifas”, declarou Trump à jornalista Diane Sawyer. À época, o hoje presidente dos Estados Unidos era um incorporador imobiliário de Manhattan e exibia incipientes instintos políticos, antes de criticar o Japão, a Alemanha Ocidental, a Arábia Saudita e a Coreia do Sul por suas práticas comerciais. “Os Estados Unidos estão sendo explorados”, afirmou. “Somos uma nação devedora e precisamos tributar, precisamos tarifar, precisamos proteger este país”.

Trinta anos mais tarde, poucas questões definem mais a presidência de Trump do que a sua predileção pelas tarifas - e em certos casos, ele se mostrou mais inabalável. Aliados e historiadores afirmam que esta predileção está arraigada na experiência de Trump, homem de negócios nos anos 80, com o povo e o dinheiro do Japão, que via como uma ameaça mortal ao predomínio econômico dos Estados Unidos. “É uma coisa que ficou atravessada em sua garganta desde os anos 80”, disse Dan DiMicco, ex-executivo do setor petrolífero que ajudou a formular a política comercial de Trump na campanha de 2016 e na transição presidencial. “Era uma decorrência de suas convicções mais profundas”.

Esta predileção cresceu nos últimos anos, enquanto as tarifas se destacaram, talvez, como o instrumento unilateral mais poderoso que Trump pode manejar para implementar a sua agenda econômica - e talvez a expressão política mais pura dos temas de campanha que o conduziram à Casa Branca. “As tarifas mantêm a coerência de Trump”, sublinhou Jennifer M. Miller, professora assistente de Historia do Dartmond College de New Hampshitre que, no ano passado, publicou um estudo no qual mostra até que ponto a ascensão do Japão afetou a visão de mundo do presidente. “A sua obsessão em sair vitorioso, que na sua opinião as tarifas conseguirão para ele. A sua obsessão em parecer durão. A sua obsessão por corrigir alguns trechos das fronteira nacionais. E a sua obsessão  pelo poder executivo”.

Trump impôs tarifas sobre as lavadoras de roupa, os painéis solares, o alumínio e os bens importados da China por um total de US$ 250 bilhões. E estuda a adoção de outras sobre importações chinesas e sobre carros, caminhões e autopeças da Europa e do Japão no valor de US$ 300 bilhões.

Grupos empresariais, legisladores republicanos e democratas, além de alguns dos seus assessores da área de política interna, tentaram convencer Trump a retirar estas tarifas, mas ele desafiou a pressão. E se tornou mais insistente em afirmar que são os parceiros comerciais dos EUA, e não os consumidores americanos, que arcam com o ônus dos custos do que, no fundo, não passa de um aumento dos impostos sobre as importações. Nenhuma evidência respalda isto.

Em conversações com legisladores e assessores, Trump gosta de usar o verbo “tarifar” e menospreza as preocupações de que possam contribuir para a elevação dos preços e pela depressão da atividade econômica. “Onde estão as minhas tarifas? Tragam-me as minhas tarifas”, falou o presidente em reuniões no início de sua presidência, quando seus assessores não lhe ofereciam opções suficientemente rápidas.

Arthur Laffer, economista conservador que assessorou Trump, disse que apresentou ao presidente tudo o que costuma ensinar em matéria sobre política comercial. “Se analisarmos bem as tarifas, elas são péssimas para a economia”. Mas ele acredita que Trump as está usando para pressionar outros países a abrirem ainda mais seus mercados. 

Entretanto, Trump parece considerar cada vez mais as tarifas não apenas como um instrumento de negociação, mas como fim em si mesmas. Ele declarou recentemente no Twitter que os líderes chineses parecem estar convencidos de que poderão aguardar um acordo comercial melhor se esperarem a eleição de um novo presidente. “Seria mais interessante para eles agissem agora”, escreveu Trump, “mas adoro  arrecadar GORDAS TARIFAS!”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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