Vince Valitutti/Paramount Pictures
Vince Valitutti/Paramount Pictures

Em live action, a aventureira Dora celebra a cultura indígena latina

Ainda que a representação visual da personagem tenha sido criticada por reforçar uma aparência estereotipada do mestiço, a produção do filme garantiu cuidado

Janice Llamoca, The New York Times

08 de setembro de 2019 | 06h00

Isabela Moner leu e releu o roteiro e escutou gravações de áudio repetidas vezes. Ela se preparava para dar vida à personagem Dora, a Aventureira, nas telas de cinema. As falas que ela decorava eram em quechua, idioma do império Inca que é atualmente falado por creca de oito milhões de pessoas na América do Sul, principalmente no Peru, na Bolívia e no Equador. “O quechua é repleto de detalhes", disse Isabela.

Mesmo após a conclusão das filmagens de Dora e a Cidade Perdida, “depois de decorar todas as falas, nós voltávamos para ajustar algumas palavras aqui e ali". Isso porque “uma pessoa que fale quechua fluentemente perceberia a diferença", acrescentou a jovem atriz. Para o filme, que mostra a exploradora, agora adolescente, e seus colegas do ensino médio em uma aventura pelas selvas do Peru, era importante não errar nos detalhes culturais.

A identidade bilíngue pan-latina de Dora foi criada originalmente como desenho animado no fim dos anos 90 pela Nickelodeon como forma de oferecer representatividade às crianças de ascendência latina. Ainda que a representação visual de Dora da chamada latinidade tenha sido criticada por reforçar uma aparência estereotipada do mestiço (cabelos pretos e lisos, e pele avermelhada), certo cuidado foi investido na definição daquilo que ela representaria.

Em 2019, uma Dora interpretada por uma atriz de verdade, que também fala quechua, foi criada com a ajuda de um consultor para garantir a precisão dos elementos e da linguagem indígenas. Historicamente, Hollywood é dada a equívocos. No grande sucesso de meados de 2008, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, o protagonista foi visto em um Peru repleto de imprecisões, incluindo pirâmides de aparência meso-americana situadas na América errada.

“Infelizmente, isso pode dar a impressão de que tudo abaixo do Rio Grande seria uma coisa só. E sabemos que isso não é verdade", afirmou Américo Mendoza-Mori, professor peruano de quechua e espanhol da Universidade da Pensilvânia, contratado como supervisor das falas em quechua em Dora.  “Há um legado de invisibilidade dos grupos indígenas e suas culturas", acrescentou ele, e representações equivocadas desse tipo “reforçam os estereótipos". Um dos principais objetivos do professor Mendoza-Mori era conferir autenticidade aos detalhes fictícios do filme. Ele disse que queria “mostrar um lado positivo, aspectos valiosos que incluem o conhecimento e a história dos povos andinos".

Resgate da história andina

Durante a aventura, Dora e os colegas interagem com tecnologias andinas reais. Em uma cena, a jovem interpreta um conjunto de constelações incas, usadas pelos indígenas para propósitos agrícolas. Durante uma sequência de ação, os roteiristas incorporaram informações a respeito de antigos aquedutos subterrâneos. “Se analisarmos o filme cuidadosamente", disse o professor Mendoza-Mori, “vemos que há a tentativa de enviar um recado reconhecendo o legado da história andina. Um desses elementos é Kawillaka". 

No filme, a personagem da princesa Kawillaka é interpretada por Q’orianka Kilcher, que tem ascendência peruana indígena. O nome da personagem vem de um relato original encontrado em um manuscrito andino, datado do século 16. No fim do filme, Kawillaka conhece Dora e questiona as intenções da aventureira. Dora responde que ela a família e os amigos vieram para aprender, e não para conquistar nem roubar tesouros como fizeram os conquistadores brancos no passado indígena das Américas. “Subitamente, teremos uma personagem disposta a celebrar a cultura latina indígena", garantiu o professor Mendoza-Mori.

Ainda que Dora retenha uma ambiguidade étnica, Isabela, a atriz, não padece desse problema. É uma americana de ascendência peruana, e alguns de seus parentes no Peru falam quechua. Ela disse que interpretar Dora a aproximou dos ancestrais indígenas.

“Totalmente", reforçou. “Também me ajudou a ter mais confiança em quem sou e no que estou fazendo”. “Passei a respeitar mais minha própria cultura", acrescentou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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