Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Dragões de Komodo atraem multidões e dinheiro para uma região pobre

Ingresso de visitantes, no entanto, ameaça a população nativa de dragões de Komodo

Hannah Beech, The New York Times

17 de agosto de 2019 | 06h00

PARQUE NACIONAL DE KOMODO, INDONÉSIA - O dragão de Komodo, um lagarto nativo de três metros de comprimento que vive em um arquipélago formado por inúmeras ilhas, projetava rapidamente para fora sua língua bifurcada. Perto dele havia dois meninos, o tamanho certo da merenda do dragão. 

Um guia local pediu que se aproximassem. Os dragões de Komodo parecem dinossauros que chegaram atrasados para a extinção. Capazes de farejar o sangue a quilômetros de distância, eles comem búfalos de água, veados e inclusive os seus semelhantes. Sua saliva é coberta de veneno. Ataques fatais contra seres humanos são muito raros, embora possam acontecer. Mas o lagarto enorme que repousava ao lado dos dois jovens turistas havia acabado de engolir galinhas e cabras, e estava mergulhado no seu costumeiro estupor digestivo.

O guia assegurou que não havia perigo em tirar uma foto com o predador, um dos três mil dragões que restam no mundo. Os turistas vêm para o Parque Nacional de Komodo, que se estende sobre uma explosão vulcânica de ilhas no Pacífico Sul, para ver os dragões, e também sua vibrante vida marinha.

Mas o parque corre o risco de desaparecer por causa desta popularidade. Embora o turismo de Komodo gere consideráveis recursos para uma das regiões mais pobres da Indonésia, também favorece o acúmulo de montanhas de lixo, uma invasão de pessoas e ocasionalmente o contrabando de lagartos. Desde 2015, o número de turistas estrangeiros que visitam o parque nacional dobrou, e o dos nacionais quintuplicou. O parque agora é uma escala do circuito dos navios de cruzeiro, e milhares de pessoas desembarcam aqui diariamente.

Preocupadas com as hordas de visitantes, as autoridades provinciais pretendem fechar a ilha de Komodo, onde vive a maior população de dragões, em janeiro de 2020. O turismo na ilha seria assim proibido por pelo menos um ano. Para uma região pobre, perder parte dos US$ 300 milhões de receitas em razão do fechamento não é uma decisão fácil, mas as autoridades afirmam que é essencial para o futuro do parque.

“Se não devolvermos aos dragões ao seu habitat, eles acabarão extintos nos próximos 50 a 100 anos”, disse Yosef Nae Soi, o vice-governador da província de Nusa Tenggara Leste, que inclui as ilhas do Parque Nacional de Komodo. Entretanto, este projeto poderá fracassar por causa do governo nacional indonésio, ao qual este ano caberá a decisão final. Se a ilha for fechada, a decisão afetará não apenas os visitantes, mas também os moradores que vivem há séculos entre os dragões. Eles terão de ser transferidos, afirmam as autoridades locais.

Diz a lenda que estes aldeões - cerca de 1.700 vivem hoje na ilha - compartilham dos mesmos ancestrais dos dragões. Segundo dizem, os répteis não os incomodam. Mas Yosef, o vice-governador provincial, declarou que “a Ilha de Komodo pertence ao dragão de Komodo. O Komodo precisa de um lugar espaçoso para viver onde não haja seres humanos”.

E se as pessoas se recusarem a deixar a ilha que é seu lar há gerações? “Se nós as avisarmos e elas não nos derem ouvidos, a culpa será toda delas se servirem de comida aos dragões”, disse Yosef. “É o que nós oferecemos aos Komodos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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