Amanda Mustard/The New York Times
Amanda Mustard/The New York Times

O drama das mulheres apresentadas como atrações turísticas

Mesmo depois de décadas na Tailândia, as mulheres da tribo Kayan que fugiram de Myanmar sobreviveram com seus tradicionais anéis de pescoço. Mas isto está mudando

Hannah Beech, The New York Times - Life/Style

02 de janeiro de 2021 | 05h00

HUAY PU KENG, TAILÂNDIA – Na frente de cada casa de bambu, no vilarejo de Huay Pu Keng, há uma pequena tenda de venda de anéis de pescoço como aqueles que as mulheres da comunidade indígena Kayan usam tradicionalmente. Existem versões mais intrincadas de argolas de latão, com fechos que permitem ser colocados facilmente.

Há travesseiros especiais para dormir com essas gargantilhas que comprimem a clavícula e criam a ilusão de um pescoço alongado. Há esculturas de madeira de mulheres com seus anéis de pescoço decorativos e algumas chamadas “vinho long-neck” embora as garrafas sejam bojudas e redondas. 

Toda a economia de Huay Pu Keng e de outros vilarejos Kayan depende desses adornos de metal presos em torno do pescoço das mulheres. “As mulheres mais velhas usam essas argolas como tradição”, disse Um Na, 58 anos, que vende bijuterias em outra cidade turística. “As mais jovens usam para fins de turismo”.

Os Kayan constituem uma pequena minoria étnica que fugiu da guerra civil na região leste de Myanmar nos anos 1980. Quando chegaram à Tailândia, as autoridades, em acordo com a milícia étnica de Myanmar que controlava a fronteira, viram uma oportunidade. Em vez de colocá-los em campos especiais construídos para centenas de milhares de outros refugiados que também fugiram do conflito armado em Myanmar na época, eles os colocaram em vilarejos criados mais recentemente e projetados para se tornarem destinos turísticos.

Quando foram instaladas nesses vilarejos, as mulheres passaram a receber salários de até US$ 200 por mês de empresas de turismo. Os tailandeses, dos operadores de barcos a fabricantes de bijuterias e outras quinquilharias, começaram a lucrar. Os vilarejos são chamados pelos críticos de “parques temáticos étnicos” com os Kayan exibidos como atração turística humana.

Mas para as mulheres e suas famílias, os turistas asseguravam uma renda regular, mesmo que isso significasse continuar uma tradição que de outra forma poderia ter desaparecido no século 21. O coronavírus complicou a situação. A Tailândia proibiu muitos estrangeiros de entrarem no país para impedir a propagação do vírus e hoje apenas alguns turistas visitam essa região remota do país.

E a sorte dos Kayan de novo levanta perguntas incômodas sobre sua exploração cultural, autonomia econômica e a realidade da vida como refugiados. Mu Tae estava sentada em sua tenda, com sua cabeça se movimentando sobre 18 aros de metal que tornavam a distância que separa seu queixo dos seus ombros parecer impossivelmente longa.

“O governo disse que temos de preservar nossa cultura e o fazemos, mas não há ninguém aqui para ver”, disse ela. Durante anos muitos estão sem documentação e não podem deixar seus vilarejos, nem nenhuma esperança de emigrar para um outro país porque não vivem em campos de refugiados.

Os que se aventuraram sem os papéis necessários tiveram um choque. “Quando comecei a escola na cidade todo mundo arregalava os olhos e eu tinha vergonha das argolas no meu pescoço”, disse Ma Prang, 22 anos, que removeu os 20 aros há quatro anos. “Quero ser médica e acho que será difícil praticar a profissão com essa serpentina no pescoço”.

Mas há uma dezena de anos, o governo tailandês passou a permitir que os Kayan se transferissem para os campos de refugiados de maneira que pudessem se candidatar para viverem num outro país. Desde então, inúmeros começaram uma nova vida na Finlândia, na Nova Zelândia e nos Estados Unidos, entre outros países. Nenhuma das mulheres continua usando seus anéis de pescoço.

Ao contrário dos Kayan nos campos de refugiados, alguns que vivem em vilarejos turísticos conseguiram cidadania tailandesa ou têm vistos que permitem a eles se movimentarem livremente pelo país. Mas mesmo depois de décadas vivendo na Tailândia, outros membros da etnia não receberam cidadania, o que os deixa à mercê das autoridades tailandesas.

“Não sei porque não tenho uma carteira de identidade”, disse Ma Nye, 33 anos, que vive no vilarejo de Huay Sua Tao, o mais visitado pelos turistas. “Minhas filhas nasceram na Tailândia, mas não têm documentos também”. Yothin Thubthimthong, diretor da Autoridade de Turismo da Tailândia na província de Mae Hong Son, disse que a vida dos imigrantes nas aldeias turísticas é melhor do que viver num campo de refugiados.

“Embora não sejam tailandeses, acho que é melhor do que viver no campo com dezenas de milhares de pessoas”, afirmou. A aldeia Long Neck Hill é uma coleção de barracas de bambu com eletricidade intermitente construídas por um policial aposentado nos arredores de Chiang Mai.

Ali costumam chegar 50 turistas por dia, muitos deles vindos da China, e pagam US$ 15 para ver as mulheres Kayan e seus anéis de pescoço, como também outros grupos étnicos como os Lahu, Akha e Lisu. Hoje o número de visitantes é menor. E sem um salário, muitos trabalhadores deixaram o local.

Mu Nan, 22 anos, viveu na aldeia com os pais durante cinco anos. Sua mãe, Mu Bar, usa um colar de pescoço com 25 argolas e é uma das mulheres mais fotografadas da comunidade. Ao contrário dos pais ou do seu irmão, Mu Nan recebeu a cidadania tailandesa este ano, depois de três anos preenchendo formulários e lutando com a burocracia. Ela agora estuda na universidade de Chiang Mai. “Nunca tive nenhuma educação”, disse Mu Bar. “A vida da minha filha será diferente da minha. Ela pode fazer o que quiser”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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