Adama Jalloh/The New York Times
Adama Jalloh/The New York Times

A polícia está atenta aos astros do drill no Reino Unido

Recentes decisões judiciais exigem que oficiais vigiem letras de rap, material que os promotores dizem celebrar gangues e crimes violentos

Ed Clowes, The New York Times - Life/Style

09 de fevereiro de 2021 | 05h00

LONDRES – O rapper britânico Digga D não explica como perdeu a visão de um olho quando estava preso no ano passado, não porque não quer,  mas porque falar sobre o que ocorreu pode levá-lo de volta para a prisão.

A polícia londrina está de olho em tudo que ele diz em público, seja em entrevistas ou músicas.

Em 2018, Digga D foi condenado a um ano de prisão por tramar uma rebelião violenta depois de uma ação judicial na qual vídeos de música do rapper foram apresentados como prova. Ao condenar o arista, cujo nome verdadeiro é Rhys Herbert, o juiz também expediu ordem proibindo-o de divulgar músicas que descrevem a violência praticada por gangues.

Digga D tem de comunicar à polícia num prazo de 24 horas qualquer lançamento de uma nova composição, juntamente com a letra. E se um tribunal concluir que a letra é uma incitação à violência ele será enviado novamente para a prisão: as condições impostas para o rapper continuar em liberdade também limitam o que ele pode falar publicamente sobre o seu passado.

Assim, numa entrevista pelo Zoom, ao ser questionado sobre como perdeu a visão de um olho, Digga D simplesmente fez um gesto de desdém.

Digga D tem uma posição destacada na cena britânica do drill, um subgênero do hip-hop que apresenta melodias sombrias no piano que se sobrepõem a linhas de baixo que se repetem monotonamente e cuja letra evoca a vida em algumas das comunidades mais desfavorecidas do país. O drill surgiu pela primeira vez em Chicago, nos Estados Unidos, e assumiu uma nova vida em Londres em meados da década de 2000, se fundindo com a cena grime e da música de garagem e ajudando a dar força para outros estilos em lugares tão diversos como Brooklyn, Nova York, e Brisbane na Austrália.

Mas as letras às vezes violentas levaram a polícia e legisladores a acusarem esse gênero de rap de alimentar os crimes com o uso de facas, que aumentaram como jamais se viu em 10 anos na Inglaterra, segundo dados do governo.

Como Digga D, alguns dos mais populares artistas do gênero na Grã-Bretanha, acabaram se colocando do lado contrário da lei com suas músicas que refletem suas experiências de vida em gangues, justiça criminal e uma temporada atrás das grades.

Sentenças judiciais como a que proibiu Digga D de compor música de rap exortando a violência também atingiram outros artistas do gênero. Introduzidas em 2014 e conhecidas como ordens por conduta criminosa, elas dão aos juízes amplos poderes para regulamentar a vida de criminosos condenados, como a expulsão de certos bairros ou impedi-los de se reunirem com antigos parceiros. Os juízes também usam essas ordens para controlar as letras compostas por alguns músicos, argumentando que, quando os rappers se vangloriam de ataques contra rivais, isso fomenta as tensões de rua.

Em janeiro de 2019, por exemplo, um juiz em Londres condenou os músicos Skengdo e AM a nove meses de prisão por infringirem uma ordem por conduta criminosa quando divulgaram música com letra que incluía uma lista de membros da gangue que haviam sido esfaqueados.

Rebecca Byng, porta-voz da unidade de combate a crimes violentos da polícia londrina, disse num e-mail que essas ordens "têm um escopo de longo alcance que vai além das letras de músicas que incitam a violência", acrescentando que "são uma ferramenta importante para “afastar os jovens da violência”.

“Não estamos mirando nos artistas, mas em criminosos violentos”, ela acrescentou.

No entanto, a polícia londrina recentemente intensificou suas medidas, removendo vídeos desse gênero de música do YouTube.

Em 2020, o YouTube removeu 319 vídeos a pedido da polícia de acordo com um relatório obtido por meio de uma denúncia feita pela entidade Freedom of Information. O dobro do registrado em 2019. No total, o YouTube já removeu mais de 500 vídeos de música drill nos últimos três anos.

Keir Monteith, advogado criminalista de Londres, vem assessorando um projeto de pesquisa financiado pelo governo para estudar como as letras compostas por raps são usadas como prova no tribunal. Ele disse que sob muitos aspectos o tratamento dado pelas autoridades a esse novo gênero de música lembra os dias de auge do punk na década de 1970, quando a polícia encerrava shows de música e a BBC proibiu a emissão de um single de sucesso da banda Sex Pistols.

Mas se os artistas punks foram tratados duramente, os rappers do drill estão numa situação ainda pior, disse Monteith. Os esforços do sistema judiciário penal “estão focados, erroneamente, numa camada particular da nossa sociedade, que são os jovens negros”, disse ele. “Esta é a real preocupação no caso presente”.

As letras abordando a vida na prisão que, há muito tempo definem o hip-hop americano, são preocupações relativamente novas dos rappers britânicos. À medida que um número crescente de artistas do gênero drill entram em conflito com o sistema judiciário penal, esses temas começam a aparecer.

Numa recente apresentação de improvisos no YouTube, Digga D cantou sobre usar uma chaleira na prisão para ferver atum em lata; e Headie One, outro rapper londrino, conta que usou cookies para fazer um bolo de aniversário na prisão, na música Ain’t It Different, que chegou ao segundo lugar na parada de singles inglesa no ano passado.

Potter Payper, músico de 25 anos, foi preso por acusações envolvendo drogas quando compôs a maior parte das músicas do seu mais recente álbum, Training Day 3. Ele foi preso 14 vezes e, como Digga D, seus vídeos de música foram parte das provas usadas para condená-lo.

Durante sua mais recente sentença de prisão, ele não estava compondo música, disse numa entrevista por telefone. Mas o ponto crítico foi uma noite em junho de 2019. Stormzy, que talvez seja o rapper mais bem-sucedido comercialmente na Grã-Bretanha, se apresentava no palco principal do Festival de Glastonbury e Payper conseguia ouvir os presos nas celas vizinhas ouvindo a apresentação do rapper. Quando Stormzy o nomeou no palco como uma das suas influências, os detentos começaram a bater nas portas, gritando o nome de Payper.

Depois disso, ele escreveu 30 canções novas, disse.

A história sobre como Digga D perdeu a visão de um olho – que ele hesita tanto em comentar – pode ser encontrada nos registros da prisão. Ele foi esfaqueado com uma lâmina feita com uma lata de atum, segundo um funcionário do ministério da Justiça. A sua advogada, Cecilia Goodwin, disse que o rapper vinha lutando com estresse pós-traumático depois daquele ataque.

Mas grande parte da experiência de Digga D continua, no momento, oculta.

“Há mais no meu coração que eu gostaria de falar e mostrar”, afirmou. Ele poderá fazer isto com sua música quando a ordem do tribunal expirar, em 2025.  / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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