Patricia Wall/The New York Times
Patricia Wall/The New York Times

Drinque é preparado com tintura à base de insetos

Destilarias artesanais recorrem às cochonilhas para obter tonalidades vibrantes em suas bebidas

Robert Simonson, The New York Times

21 de dezembro de 2018 | 06h00

Os aperitivos americanos viveram um momento de relativa prosperidade nos anos mais recentes. Todos têm algo em comum: um leve amargor e uma tonalidade vermelha forte. E os insetos. É isso mesmo: insetos. 

Muitos desses drinques usam a tintura natural conhecida como carmine, extraída de um pequeno inseto chamado cochonilha, para alcançar sua tonalidade vibrante. Não se trata de alguma nova e estranha tendência das destilarias: nativa das Américas, a cochonilha é usada há séculos para dar cor a tudo, de tecidos a cosméticos, passando por alimentos.

Durante décadas, a Campari usou cochonilhas esmagadas para dar cor a seus destilados. Em 2006, a empresa decidiu interromper o uso do carmine em seus novos produtos, substituindo-o por cores artificiais, por causa da chamada “incerteza no fornecimento do corante natural". Esta poderia ter sido uma sentença anunciando o fim da participação do inseto nas bebidas alcoólicas.

De fato, quando Todd Leopold, destilador-chefe da empresa de bebidas alcoólicas Leopold Bros., do Colorado, decidiu criar um aperitivo alguns anos atrás, o principal argumento contra a cochonilha era o fato de “ninguém usar o inseto", disse ele. “A Campari não o fazia mais.”

Agora, ele e outros especialistas em destilaria estão apostando tudo na cochonilha. O uso do inseto pode desagradar determinados grupos, como os veganos e aqueles que seguem a dieta kosher. Mas os produtores de bebidas alcoólicas dizem que essa é uma alternativa melhor do que as tinturas artificiais, cuja maioria é derivada do petróleo.

“Diante da escolha entre derivados do petróleo ou insetos esmagados, os insetos são mais atraentes", disse Lance Winters, destilador-mestre da St. George Spirits, na Califórnia, que usa a cochonilha no seu Bruto Americano.

A cochonilha não tem cheiro nem sabor, e seu uso é tradicional - algo que os destiladores consideram importante. “Tentamos evitar tudo aquilo que não for natural", disse Francesco Amodeo, presidente da Don Ciccio & Figli, em Washington. “A tintura artificial produz um gosto estranho que gruda na língua.”

Amodeo passou três anos em busca de uma boa fonte de cochonilhas, uma jornada que atrasou o lançamento do seu aperitivo, chamado Cinque. Ele encontrou seu fornecedor no Peru e na Bolívia. Geralmente, a cochonilha é usada em forma de líquido ou pó. Para a St. George Spirits, basta uma fração de grama por litro de álcool para conferir a um destilado uma coloração escarlate. Nos Estados Unidos, os destiladores que usam cochonilha ou carmine devem informá-lo no rótulo.

Mas, por que esses aperitivos tem que ser vermelhos? Mais uma vez, é questão de tradição. De acordo com Amodeo, os aperitivos são para “servir no fim da tarde, até o por do sol. É algo que reflete um pouco a hora do dia. Os amaros, mais escuros, são para a noite".

John Troia, fundador do Tempus Fugit Spirits, em San Francisco, que usa cochonilhas, acha curiosa a objeção das pessoas a beber insetos. “O engraçado é que, tecnicamente, o álcool é um veneno para o corpo", disse ele. “Me parece um pouco engraçado dedicar tamanha atenção a detalhes desse tipo.”

Mais conteúdo sobre:
Camparibebida alcoólicainseto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.