Michelle V. Agins/The New York Times
Michelle V. Agins/The New York Times

Drive-in 'encontra seu nicho' na pandemia oferecendo bingo, shows e filmes

O Circle Drive-in, na Pensilvânia, ampliou o espaço para carros e agora admite apenas a metade de público que teve no passado

James Barron, The New York Times - Life/Style

18 de setembro de 2020 | 05h00

Na pandemia, esse drive-in se transformou num espaço de 60 mil m² seguro, onde as pessoas se perdem na multidão, mas continuam sozinhas para assistir a um filme. Ou jogar bingo. Ou ver um espetáculo de fogos de artifício. Ou cantarolar junto num show. O Circle Drive-in, em Dickson City, no norte da Pensilvânia, adaptado às novas regras da pandemia, ampliou o espaço para carros e admite apenas a metade das pessoas que recebia no passado. O pessoal que vende pipoca fica atrás de protetores de plástico e funcionários foram contratados para limpeza dos banheiros o tempo todo.

E o Circle Drive-in vem apresentando mais do que filmes. Transmite, via streaming, eventos como o show de Garth Brooks (exibido em 300 drive-ins no país). Reabriu seu mercado de pulgas aos domingos, que há anos começou a gerar receita quando não eram exibidos filmes recém-lançados – um drive-in tem de esperar pela escuridão, os projecionista não podem apagar as luzes.

Em agosto, ele foi palco de um show ao vivo do cantor Aaron Lewis (US$ 199 por carro). O concerto e outros eventos têm sido uma necessidade. “Se dependêssemos apenas dos filmes estaríamos fora do negócio porque não têm sido lançados filmes desde o início da pandemia”, disse Joseph Calabro, médico de 64 anos que dirige o Circle-in. Em maio, quando o espaço abriu para o verão, as pessoas estavam apreensivas, chegando com máscaras cobrindo o rosto e com as janelas dos carros fechadas. Pareciam assustadas, saindo de casa para se divertirem, mas se perguntando até que ponto era perigoso, disse Calabro. E em dúvida sobre o quão arriscado seria descarregar sua mini-geladeira, abrir suas mantas e se estenderem na carroceria das picapes.

Depois de alguns fins de semana, a expressão dos rostos por trás das máscaras mudou. “Você conseguia ver uma diminuição das rugas no canto dos olhos dos pais, e as crianças com olhar sorridente. Achei muito bom. Era uma válvula de escape”, disse Calabro, para o público e para ele.

The Circle é um trabalho de amor para Calabro, diretor executivo da empresa Physician’s Practice Enhancement, com sede em Nova Jersey, que fornece profissionais de saúde para hospitais em sete estados – médicos de pronto-socorro, patologistas e psiquiatras. Seu tio foi proprietário do Circle por mais de 50 anos, mas depois os drive-ins começaram a desaparecer. A pandemia mudou tudo.

“O drive-in encontrou seu espaço novamente, um nicho na comunidade”, disse Frances Kovaleski, encarregado dos registros de testamentos e funcionário de um tribunal especial para guarda de órfãos no condado de Lackawanna. “Você está em seu carro. E respeitando o distanciamento social para ver o filme. Não precisa se preocupar com nada”.

Na região de Dickson City, o Circle-in é uma volta no tempo. “Continua da mesma maneira que era nos anos 1950, 1960 – a arquitetura, o layout do local, mesmo as bilheterias quando você entra com seu carro”, disse Steven Serge, gerente de uma concessionária que fica no caminho do drive-in. Os drive-ins foram um elemento por excelência da cultura americana de loucura pelos carros nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, mas há muito tempo são considerados uma relíquia a ser descartada.

Com o público diminuindo cada vez mais, perdendo espaço para as salas de cinema que multiplicaram e se tornaram triplex, quadruplex e multiplex, o preço da terra aumentando, como também os impostos, tudo isso levou muitos proprietários de drive-ins a venderem o espaço, dando lugar a subdivisões, estacionamentos de escritórios ou shopping centers. Mas a pandemia tornou o ano de 2020 diferente.

“Os drive-ins começaram a reabrir antes de outras atividades”, em muitos lugares, disse Nick Hensgen, que opera o website driveinmovie.com, “porque foram criados para o distanciamento social e você consegue controlar quem entra e sai do seu veículo”. Eles se tornaram literalmente uma das únicas opções de lazer disponíveis. “Muitos lotam todos os fins de semana”, disse ele, “porque estão operando com 50% da capacidade para dar mais espaço entre os carros.

Calabro assumiu o Circle-in depois da morte do tio, Michael Delfino, aos 98 anos, em fevereiro, pouco antes de a pandemia atingir o país. Delfino e sua mulher compraram o Circle 57 anos antes. Hoje o espaço possui duas telas e transmite trilhas de rádio FM que os cinéfilos podem ouvir nos carros. Calabro já trabalhou no drive-in quando adolescente, fazendo pipoca e servindo bebidas e atuando como gerente, no Circle ou em algum outro drive-in da família Delfino.

Nos anos 1990, quando retornou à cidade depois de uma carreira no Army Medical Corps (departamento médico do Exército) ele passou a auxiliar o tio e a tia a modernizarem o Circle. Guenelda Delfino, que foi professora, morreu em 2014, com 92 anos. Michael Delfino continuou o trabalho com ajuda de Calabro. No ano passado, a família comemorou o 98º aniversário dele no Circle. “Realisticamente, eles poderiam ter vendido a propriedade e ganhar muito dinheiro”, disse Cesare Forconi, administrador da comunidade de Dickson City.

“Mas continuaram a operar o espaço nos bons e nos maus tempos”. E existem sinais de que os bons tempos continuarão por mais algum tempo. O Circle-in tem programado uma dezena de shows ao vivo até meados de outubro – e já ouvimos os promotores falando sobre possíveis reservas para 2021, disse Calabro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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