Ivor Prickett para The New York Times
Ivor Prickett para The New York Times

Vício em metanfetamina se espalha pelo Iraque

Viciados em drogas superlotam as prisões locais

Alissa Rubin, The New York Times

26 de setembro de 2019 | 06h00

BASRA, Iraque - Hussein Karim vendeu seus três carros, a terra onde ele tinha planejado comprar uma casa e gastou tudo o que tinha - alguns milhares de dólares - em seu vício em cristais de metanfetamina

Ele é um dos milhares de viciados em metanfetamina no Iraque, um país onde problemas com drogas eram considerados raros. Mas o crescente número de viciados aqui é a mais recente manifestação da decadência da ordem social após a invasão americana de 2003.

Karim, 32 anos, vive agora em um quarto sem janela com a mulher, os três filhos e o irmão deficiente. “Se o cristal está na sua frente, é impossível resistir”, afirmou ele.

Ele diz que está limpo há mais de dois anos e evita qualquer um que possa colocá-lo em contato com a droga. Nem responde quando batem à sua porta, porque teme ser puxado de volta à sua antiga vida.

No ano passado, na província de Basra, a região administrativa mais ao sul do Iraque e com um dos piores problemas com drogas, 1.400 pessoas - quase todas, homens - foram condenadas por posse ou venda de drogas, em sua maioria cristais de metanfetamina. Mais de 6.800 pessoas estão presas no país por causa de drogas, exceto na região curda, que abriga cerca de um quinto da população do Iraque, de acordo com o Conselho Judicial Supremo do Iraque.

Ainda assim, é um número relativamente pequeno para um país de 39 milhões de habitantes. Mas, como o vício em drogas atingiu principalmente Basra e a capital, Bagdá, o problema adquire grande visibilidade.

E como estamos falando de uma questão relativamente nova no Iraque, líderes comunitários e autoridades do governo parecem despreparados para lidar com ela de outra maneira que não seja colocando as pessoas na cadeia.

As drogas contribuem para a pobreza, já que as famílias perdem para o vício e a prisão os homens que lhes provêm os salários. Entre os muçulmanos devotos, o uso de drogas ilícitas é considerado uma vergonha, que macula não somente sua família, mas toda a sociedade.

“As autoridades são muito tímidas ao lidar com a situação”, afirmou Abbas Maher al-Saidi, prefeito de Zubair, uma cidade de 750 mil habitantes no norte de Basra. O uso de drogas é comum entre os jovens locais, muitos deles desempregados. “Esse problema não é discutido por causa das tradições sociais. Nem a mídia está falando disso.”

A abordagem do governo é tentar erradicar qualquer sinal perceptível do problema. Quase todas as noites, dezenas de equipes de policiais se espalham pela província de Basra atrás de usuários e traficantes.

O aumento no uso de drogas em Basra marca a mais recente fase do longo declínio da região rumo à criminalidade, problema que se tornou sério após a deposição de Saddam Hussein por forças americanas.

O uso de estimulantes surgiu e se espalhou cerca de sete anos atrás. Naquele tempo, o crime organizado entrou no comércio de drogas enquanto grandes quantidades de cristais de metanfetamina ficaram disponíveis no Irã, onde inúmeros laboratórios de produção da droga surgiram, afirmou Angela Me, diretora de pesquisa da agência de drogas da ONU.

Desde então, o Irã tenta erradicar os laboratórios, mas parte da produção se deslocou para países vizinhos, disse ela. O juiz Riyadh Abid al-Abass, da Corte Criminal de Basra, afirmou que as drogas também vêm da Arábia Saudita e do Kuwait.

Apesar de, em grande parte, os esforços das autoridades iraquianas para diminuir a quantidade de drogas que chegam pela fronteira com o Irã terem funcionado, os traficantes se voltaram para rotas alternativas e intensificaram sua defesa contra os agentes da lei, afirmaram juízes e a polícia.

Os criminosos passaram a usar drones e câmeras de segurança para vigiar suas instalações, que são protegidas por pesados portões e muros que custam à polícia tempo para transpor, afirmou Al-Saidi.

É impossível provar que as milícias iraquianas criadas para combater a invasão do Estado Islâmico, em 2014, e conhecidas como Unidades de Mobilização Popular, estejam envolvidas no tráfico de drogas. Mas muitos dos presos por uso de drogas afirmam acreditar que algumas unidades trabalhem com os traficantes, contando com aliados no governo.

O fato de os grandes traficantes nunca serem apanhados ou escaparem das prisões logo após a captura aumenta a suspeita em relação ao papel das milícias.

Na ausência de uma política para drogas, as prisões ficaram sem espaço, e um excesso de centenas de homens acaba aglomerado em salas de espera de delegacias de polícia, onde o cheiro de suor, fezes e urina é insuportável.

Alguns enfrentam essas condições até o fim de suas penas, normalmente de 15 meses para infratores sem condenações anteriores.

Uma condenação por drogas no Iraque torna praticamente impossível conseguir um emprego assalariado. Para Karim, as possibilidades de emprego são desoladoras. Ele trabalhou como operador de maquinário pesado no setor de construção, depois atuou como combatente das Unidades de Mobilização Popular. Agora, não consegue trabalho assalariado, disse ele.

Enquanto o sol se punha, sua filha Rassoul, 6 anos, puxava o pai pelo braço. “Podemos tomar um sorvete?”, perguntava ela. Karim pôs a mão no bolso, que, aparentemente, estava vazio. E beijou a filha na testa: “Hoje, não”. 

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