Jalaa Marey/Agence France-Presse ? Getty Images
Jalaa Marey/Agence France-Presse ? Getty Images

Drusos consideram lei israelense uma traição ‘de sangue’

Grupo desempenhou papel desproporcional no aparato de segurança de Israel

Isabel Kershner, The New York Times

10 Agosto 2018 | 10h00

DALIYAT EL-KARMEL, ISRAEL- Nas imediações desse vilarejo druso há um monumento nacional em homenagem a mais de 420 soldados e membros das forças de segurança de origem drusa que morreram em batalha defendendo Israel.

A pequena minoria drusa, de língua árabe, alinhou-se aos judeus antes mesmo da criação do país. Nos 70 anos passados desde então, ambos os grupos descreveram sua aliança estratégica como um “pacto de sangue”, e às vezes referindo-se a si mesmos com linguagem parecida, como “irmãos de sangue".

Então, em julho, o parlamento aprovou uma lei elementar, com peso de emenda constitucional, declarando Israel “o estado-nação do povo judeu", construído com base no direito de autodeterminação nacional “exclusivo ao povo judeu". O árabe deixa de ser um idioma “oficial" do país (além do hebreu), passando a um “status especial".

Mas o que mais incomoda a minoria árabe de Israel, que representa 21% de uma população de quase nove milhões, é o fato de não haver menção à democracia ou à igualdade para todos os cidadãos.

Os drusos, grupo religioso geralmente pacífico formado por cerca de 145 mil cidadãos para quem a lealdade ao estado é uma questão de fé, denunciaram a nova lei como traição. E, agora, estão liderando uma reação contra a nova emenda que está agitando país e desafiando o governo de direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

“Já chega de bater no nosso ombro e dizer, ‘Vocês são nossos irmãos, nós amamos vocês’”, disse Shadi Nasraldeen, 45 anos, cujo irmão, o soldado israelense Lutfi, foi morto durante a mais recente guerra em Gaza, em 2014.

“Tem que haver igualdade plena", disse Nasraldeen, que encerrou uma carreira de 26 anos no exército no ano passado e agora trabalha no local do monumento. “Somos os primeiros a correr para a batalha e os primeiros a morrer pela bandeira.”

Ele acrescentou: “É como se o povo israelense tivesse simplesmente nos abandonado. Eles dizem que não é assim. Mas, de acordo com as cláusulas dessa lei, nós não existimos".

Depois que pelo menos dois oficiais drusos anunciaram sua baixa no exército, o chefe do estado-maior, tenente-general Gadi Eisenkot, escreveu uma carta aos soldados, pedindo que deixassem questões políticas de fora do exército.

Como os judeus que completam 18 anos, os drusos são convocados para o serviço militar. Embora seu número seja pequeno, eles desempenham um papel desproporcional no tão falado aparato de segurança israelense.

Dúzias de ex-policiais de alta patente assinaram uma carta no mês passado pedindo que a lei fosse reelaborada para reconhecer o status das minorias que ajudam a defender Israel.

Os drusos, separados do Islã há mil anos, não reivindicam as mesmas causas dos árabes israelenses nem partilham de sua identidade nacional palestina.

Os circassianos, grupo étnico de maioria muçulmana, também são convocados para o serviço militar. 

Muitos beduínos se alistam como voluntários, assim como números menores de árabes muçulmanos e cristãos. A maioria dos judeus ultra-ortodoxos recebe isenção do serviço militar para se dedicar ao estudo da Torá.

Para protestar contra a lei, centenas de israelenses participaram de uma aula de árabe em massa numa praça de Tel Aviv. Um jornalista druso, Riad Ali, falou no canal da emissora pública, dizendo que a lei tinha “confirmado a morte” do seu sonho israelense. Mordechai Kremnitzer, ex-diretor da faculdade de direito da Universidade Hebraica de Jerusalém, disse estar “envergonhado” enquanto “patriota sionista” e chorou durante entrevista para o rádio.

Em sua loja de celulares em Daliyat el-Karmel, Anan Shami, 28 anos, disse que seu pai tinha combatido nas guerras de 1948 e 1967, seu irmão lutou em 2006 na Guerra do Líbano, e ele combateu em Gaza em 2014.

“Diga aos mortos nos cemitérios que eles se tornaram baixas de segunda classe", disse Shami. “Para que eles combateram?”

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