Herman Wouters / The New York Times
Herman Wouters / The New York Times

Dupla de chefs apresenta culinária com efeitos psicoativos

Dois cozinheiros estão explorando ervas, especiarias, plantas e óleos em programa de TV gravado inicialmente na Holanda, onde alucinógenos são legais e acessíveis

Nina Siegal, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2019 | 06h00

AMSTERDÃ - Comestíveis é o termo usado mais frequentemente para os alimentos que fazem com que a maconha e outros alucinógenos  desçam com facilidade. Pense nos brownies de maconha - não exatamente famosos por serem agradáveis ao paladar. Mas dois chefs de Amsterdã vão além  do que é simplesmente comestível, e usam ingredientes que alteram a mente para criar uma cozinha verdadeiramente gastronômica.

Noah Tucker, original de Nova York, e o ex-londrino Anthony Joseph, que fundaram cinco restaurantes de sucesso em Amsterdã, estão explorando o que Joseph chama de “o santo graal” dos ingredientes: ervas, especiarias, plantas e óleos com componentes psicoativos. Começaram na Holanda, onde a política tolerante em relação às drogas brandas faz com que estas substâncias sejam legais e acessíveis. Em abril, estreou a nova série de televisão da dupla, High Cuisine, na plataforma de streaming holandesa Videoland, e agora os dois estão criando uma série de livros de cozinha que reunirão cerca de 100 pratos que alteram a mente.

O programa de TV acompanha os dois chefs numa viagem pela Holanda enquanto aprendem pratos regionais, e utilizando Lotus Azul, estragão mexicano, Kanna sul-africana e outros alucinógenos cujo uso é legal neste país, bem como várias cepas de canabis.

Tucker e Joseph combinam as suas descobertas em refeições de vários pratos apresentadas de maneira elegante, como ovas com repolho, terrine de bacon, cercefi (uma espécie de aipim), fígado de pato  e molho suave com haxixe, e caranguejo do Mar do Norte com algas crocantes, molho de iogurte e redução de maconha.

O programa é dirigido por Tucker, que faz a própria apresentação no início de cada episódio dizendo: “Adoro cozinhar, e adoro ficar alto”. Joseph nunca toma drogas. Em High Cuisine, esta dinâmica yin-yang entre os dois chefs explora momentos cômicos, em que Tucker muitas vezes fica rindo à toa em uma nuvem de fumaça, enquanto Joseph fica sóbrio e lúcido e apresenta de maneira eloquente cada prato improvável  aos clientes.

Karim Mostafi, porta-voz do Ministério da Saúde da Holanda, disse em um e-mail que não poderia comentar a legalidade do programa. “O governo holandês quer prevenir o uso da droga, em todas as suas formas “, escreveu. 

Tucker e Joseph trabalharam em cozinhas premiadas com o Michelin antes de  se conhecerem, há dez anos, em Amsterdã. Juntos, abriram cinco restaurantes e depois venderam quatro para se concentrarem em sua mais recente empreitada, o Yerba, um restaurante “prá frente que usa a erva” no Museum Quarter da cidade, onde são servidos pratos sazonais feitos com ingredientes silvestres, locais e sustentáveis - mas não psicoativos. A cozinha se baseia de maneira consistente em pratos vegetarianos, veganos e sem glúten.

Há cerca de oito anos, os dois chefs criaram o conceito de High Cuisine e começaram a pesquisar a variedade de ingredientes psicoativos disponíveis na Holanda; visitaram fazendas de cultivo de maconha e smart shops, entrevistaram especialistas, e então levaram as substâncias para a sua cozinha a fim de explorar os sabores e os efeitos ao serem fervidas, refogadas, caramelizadas e comidas.

Em cada episódio do programa, Tucker e Joseph exploram uma região da Holanda e, além de pararem em um famoso restaurante local, visitam um especialista em alucinógenos: uma plantação de trufas, uma plantação de sementes de maconha, e, em Amsterdã, um importador e distribuidor de ervas e plantas. “Nós procuramos todos os ingredientes alternativos como um chef faria”, disse Tucker. “Procuramos seu perfil de sabor, e depois os usamos em uma combinação apropriada de sabores”. 

“Todo o conceito é microdosado, o que é muito importante”, acrescentou. “Queremos que os nossos participantes saiam sentindo uma ligeira euforia, mas ainda no controle”. Ou como disse Joseph, mais ou menos como se você tomasse um copo de vinho com cada prato em uma refeição de quatro pratos. "Para sentir-se alegre”.

Eles têm planos para começar a rodar o próximo segmento de uma nova série em locações como Colômbia, Africa do Sul, Brasil, México e Bali. E pretendem aprender como ingredientes como chaliponga, peyote e cogumelos mágicos são usados em rituais locais, a fim de combiná-los com as especialidades culinárias dessas regiões. “É um programa de culinária, de drogas; é um programa de viagens, e é um programa sobre um estilo de vida”, avaliou Tucker. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.