Josh Haner para The New York Times
Josh Haner para The New York Times

'É apenas questão de tempo para população de ursos polares declinar', diz biólogo

Efeitos do aquecimento global colocam futuro dos ursos em situação delicada

Henry Fountain e Steve Eder, The New York Times

11 de dezembro de 2018 | 06h00

Andrew Derocher é um biólogo da Universidade de Alberta que pesquisa os ursos polares há mais de 30 anos. Ele falou sobre os ursos do Ártico com o aquecimento do clima, e o impacto em potencial da exploração do petróleo e do gás. 

Pergunta - No Ártico, existem cerca de 25 mil ursos polares. Qual é a atual situação destes animais?

As pessoas imaginam que todos os ursos polares estejam vivendo em situações dramáticas. Não é bem isto. Os ursos polares estão ótimos em muitas áreas em que foram distribuídos, e com 19 populações diferentes ao redor do Ártico, temos 19 cenários diferentes.

E o que acontece com os ursos do Refúgio Nacional da Vida Selvagem no Ártico, no Alasca?

Este é um dos 19 ambientes que mostram muito claramente os efeitos da mudança climática. Historicamente, esta subpopulação era muito mais abundante, com mais de 1.500 ursos. Agora, são 800 a 900. É evidente que esta espécie reage à mudança das condições do gelo. Com o aquecimento do clima, os ursos estão sendo empurrados cada vez mais para o norte.

A cobertura de gelo marinho no Ártico vem encolhendo cerca de 13% a cada dez anos, desde 1980. De que maneira esta perda afeta os ursos?

Os ursos polares usam o gelo marinho para caçar as focas. O fim do gelo provoca um efeito dominó que começa na base da cadeia alimentar e sobe até o peixe e depois às focas.

A redução do gelo marinho significa também que os ursos polares passam mais tempo em terra. Isto preocupa?

Eles perdem peso quando estão longe de sua presa. A certa altura, acabarão cruzando um limiar em que morrerão de fome em terra ou inclusive não conseguirão se reproduzir porque as fêmeas não terão reservas de gordura suficientes. Provavelmente nós estamos modificando a abundância de focas, estamos pedindo que os ursos andem muito mais longe, estamos pedindo que eles jejuem por períodos mais longos, estamos reduzindo os melhores períodos do ano para eles se alimentarem. Tais efeitos são cumulativos e produzem péssimas condições corporais nos ursos. E isto se traduz na redução das taxas de reprodução e de sobrevivência. É apenas uma questão de tempo para a população declinar.

O que sabem os cientistas sobre o impacto da exploração do petróleo e do gás sobre os ursos polares?

Alguns ursos não se incomodam com as pessoas, não se incomodam com as motos de neve nem com o tráfego de veículos ou de tanques. Entretanto, outros são extremamente desconfiados e fugirão rapidamente do que os perturba. Quando as fêmeas estão com filhotes novos tendem a ser muito tímidas. Se incomodamos uma fêmea perto da sua toca, é mais provável que ela a abandone levando os filhotes. Os jovens ursos ainda não estão bem desenvolvidos e dependem dos seus abrigos para se protegerem. Fazer com que saiam da toca não é uma boa ideia. Precisamos aceitar pelo menos a premissa básica de que perturbá-los não será benéfico para os ursos. Depois a questão é: a sua situação ficará muito pior? É difícil dizer. Mas tudo o que intensificar os atuais impactos da perda do gelo marinho não será bom para a população.

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