Andrew Testta/ The New York Times
Andrew Testta/ The New York Times
Ruchir Sharma, The New York Times

21 de março de 2020 | 06h00

Embora o Federal Reserve (banco central americano) tenha reduzido juros e anunciado a compra de bilhões de dólares em títulos do Tesouro em 15 de março, isso não impediu a queda em mercados ao redor do mundo no dia seguinte. O coronavírus ameaça desencadear o contágio financeiro em uma economia mundial com vulnerabilidades muito diferentes das que existiam na véspera da crise financeira global há 12 anos.

De várias maneiras, o mundo está agora tão endividado ou mais do que estava quando a última grande crise ocorreu em 2008. Mas o maior e mais arriscado conjunto de dívidas mudou - de famílias e bancos nos Estados Unidos, que foram restringidos pelos órgãos reguladores após a crise, para empresas em todo o mundo.

À medida que as empresas lidam com a perspectiva de uma parada súbita em seus fluxos de caixa, as mais expostas são uma geração relativamente nova de empresas que já lutam para pagar seus empréstimos. Essa classe inclui as “zumbis” - empresas que ganham muito pouco para pagar juros sobre suas dívidas e sobrevivem apenas com a emissão de novas dívidas.

Aeroportos desertos, trens vazios e restaurantes com poucos clientes já estão prejudicando gravemente a atividade econômica. Quanto mais durar a pandemia, maior o risco de que a crise abrupta se transforme em uma crise financeira com empresas zumbis iniciando uma cadeia de inadimplências, como as hipotecas subprime em 2008.

Os bancos centrais de todo o mundo estão se deparando com a perspectiva de que a crise de caixa possa gerar uma crise financeira, como em 2008. É por isso que o Fed adotou recentemente medidas agressivas de flexibilização que estavam diretamente fora do manual de crise de 2008. Então, vale a pena perguntar: por que o sistema financeiro se sente tão vulnerável novamente?

Por volta de 1980, as dívidas do mundo começaram a subir rapidamente, à medida que as taxas de juros começaram a cair e a desregulamentação financeira facilitou o empréstimo. A dívida triplicou para um pico histórico de mais de três vezes o tamanho da economia global na véspera da crise de 2008. Depois, a dívida caiu naquele ano, mas as baixas taxas de juros logo alimentaram uma nova série de empréstimos.

As políticas de dinheiro fácil adotadas pelo Fed e combinadas com bancos centrais de todo o mundo foram projetadas para manter as economias em crescimento e estimular a recuperação da crise. Em vez disso, grande parte desse dinheiro foi para a economia financeira, incluindo ações, títulos e crédito barato para empresas não rentáveis. Os credores ficaram cada vez mais relaxados, concedendo empréstimos baratos a empresas com finanças questionáveis. Hoje, o ônus da dívida global está novamente em um dos níveis mais elevados de todos os tempos.

O nível de endividamento no setor corporativo americano equivale a 75% do PIB do país, quebrando o recorde anterior estabelecido em 2008. Entre as grandes empresas americanas, o ônus da dívida é precariamente alto nos setores de automóveis, hospitalidade e transporte - as indústrias que já estão sentindo o impacto direto do coronavírus.

Escondidos no mercado de dívidas corporativas, no valor de US$ 16 trilhões, estão muitos problemas em potencial, incluindo as empresas zumbis, que representam 16% de todas as empresas de capital aberto nos Estados Unidos e mais de 10% na Europa, de acordo com o Bank for International Settlements, o banco dos bancos centrais.

Mas as zumbis não são a única fonte potencial de problemas. Para evitar regulamentações impostas às empresas públicas desde 2008, muitas se tornaram privadas por meio de acordos que normalmente sobrecarregam a empresa com enormes dívidas. A empresa americana média de propriedade de uma empresa de private equity tem dívidas iguais a seis vezes o seu lucro anual.

Agora, sinais de estresse da dívida estão se multiplicando nos setores afetados pelo coronavírus, incluindo transporte e lazer, automóveis e, talvez o pior de todos, petróleo. Impactados de um lado pelo medo de que o coronavírus colapsasse a demanda, e por outro por temores de uma oferta insuficiente, os preços do petróleo caíram para menos de US$ 35 por barril - muito baixo para várias empresas de petróleo pagarem suas dívidas e juros.

Embora os investidores sempre exijam retornos mais altos para comprar títulos emitidos por empresas financeiramente instáveis, os juros que eles exigem sobre a dívida de alto risco dos Estados Unidos quase dobrou desde meados de fevereiro. Na primeira metade de março, os juros para esse mesmo tipo de dívida das empresas de petróleo estavam próximos aos níveis vistos em uma recessão.

Apesar do mundo ainda não ter visto uma recessão induzida por um vírus, essa é agora uma rara pandemia. O efeito direto sobre a atividade econômica será ampliado não apenas por seu impacto sobre os devedores, mas também pelo impacto de empresas falidas nos mercados financeiros inchados. Quando os mercados caem, milhões de investidores se sentem menos ricos e reduzem os gastos. A economia desacelera.

Quanto maiores os mercados, em relação à economia, maior é esse "efeito negativo de riqueza". E, mais uma vez, graças às promessas aparentemente intermináveis de dinheiro fácil, os mercados nunca foram tão grandes como agora. Desde 1980, os mercados financeiros globais (principalmente ações e títulos) quadruplicaram o tamanho da economia global, resultando em marcas acima dos recordes anteriores estabelecidos em 2008.

Em Wall Street, os especuladores ainda têm esperança de que o pior possa passar rapidamente e apontam para os desenvolvimentos encorajadores da China. Os primeiros casos foram registrados em 31 de dezembro e a taxa de crescimento de novos casos atingiu o pico em 13 de fevereiro, apenas sete semanas depois. Após perdas antecipadas, o mercado de ações da China se recuperou e a economia parecia fazer o mesmo.

Porém, dados divulgados em 16 de março sobre vendas no varejo e investimentos fixos sugerem que a economia chinesa deve contratar neste trimestre. Embora a China não seja mais o único lugar em foco à medida que o vírus se espalha pelo mundo, teme-se que a crise possa voltar para o país, prejudicando a demanda por exportações. Na última década, a dívida corporativa da China aumentou quatro vezes e ultrapassou US$ 20 trilhões - uma das maiores do mundo.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que um décimo dessa dívida está investido em empresas zumbis, que dependem de empréstimos direcionados pelo governo para permanecerem vivas. Em outras partes do mundo, crescem os pedidos para que líderes criem políticas para oferecer apoio estatal semelhante ao frágil setor corporativo.

Independentemente do que os políticos façam, o resultado agora depende do coronavírus e de quanto tempo sua propagação começará a desacelerar. Quanto mais o coronavírus continuar se espalhando em seu ritmo atual, maior a probabilidade de as empresas zumbis começarem a se extinguir, deprimindo ainda mais os mercados e aumentando o risco de contágio financeiro mais amplo. 

Ruchir Sharma é o principal estrategista global da Morgan Stanley Investment Management e o autor de The Ten Rules of Successful Nations (As dez regras das nações bem-sucedidas, em tradução livre)/ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Tudo o que sabemos sobre:
coronavíruseconomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.