Agence France-Presse, via The New York Times
Agence France-Presse, via The New York Times

Economia chinesa enfraquece e desafia liderança de Xi

Para economistas, desaceleração é a pior desde a crise financeira global de 2008

Keith Bradsher e Ailin Tang, The New York Times

25 de dezembro de 2018 | 06h00

DONGGUAN, CHINA - Os consumidores e empresas da China estão perdendo a confiança. As vendas de carros caíram muito. O mercado imobiliário tropeça. Algumas fábricas estão dispensando funcionários para o Ano Novo Lunar com dois meses de antecedência.

A economia da China desacelerou muito nos meses mais recentes, apresentando talvez o maior desafio enfrentado pelo seu grande líder, Xi Jinping, em seus seis anos de governo. Em seu país, ele enfrenta escolhas difíceis que podem dar novo fôlego ao crescimento, mas aprofundar seus problemas de longo prazo, como o pesado endividamento. No palco mundial, Xi foi obrigado a fazer concessões aos Estados Unidos com a intensificação da guerra comercial do presidente Donald J. Trump.

O estrago que isso pode causar para ele pode depender do quanto trabalhadores chineses como Yu Hong verão seus empregos sumir. Numa tarde recente, Yu, 46 anos, estava embarcando num trem e voltando para casa, na província de Hubei, China central, para um período de quase três meses de férias não remuneradas. A fábrica de lâmpadas em Dongguan onde ele trabalha reduziu drasticamente o salário e cortou horas de serviço.

"É um ambiente muito diferente agora", disse Yu. “Para trabalhadores imigrantes como nós, o único interesse é ganhar dinheiro".

No dia 15 de dezembro, autoridades chinesas informaram um crescimento mensal surpreendentemente fraco nas vendas do varejo e na produção industrial, afetando os mercados globais e ajudando a derrubar o índice de ações S&P 500 em 1,9%. Muitos economistas dizem que a desaceleração é a pior desde a crise financeira global, dez anos atrás, quando Pequim foi obrigada a injetar trilhões de dólares na economia para impedir que o crescimento do país chegasse a um fim abrupto e desastroso.

No decorrer das duas últimas décadas, uma economia em crescimento acentuado proporcionou aos líderes chineses uma plataforma ainda mais estável. Depois que a China buscou entrar para a Organização Mundial do Comércio e sediar os Jogos Olímpicos de 2008, Pequim não teve de recorrer à ajuda de Washington nem de outras das grandes capitais mundiais. A China vem negociando a partir de uma posição fortalecida.

Xi não tem mais esse luxo. Ele consolidou seu controle de uma parte ainda maior da vida política e social chinesa, além da economia. Este ano, eliminou as restrições à reeleição, possibilitando a si mesmo governar até a morte, se assim desejar. A responsabilidade pública por um declínio prolongado pode recair sobre seus ombros. O governo já ordenou que más notícias econômicas sejam censuradas.

A China ampliou o tipo de gasto comandado pelo governo que resgatou sua economia no passado. No Xuzhou Construction Machinery Group, conglomerado de propriedade estatal que fornece muitas máquinas para a construção de estradas e ferrovias, as vendas tiveram alta de 50% em relação ao ano anterior, de acordo com a empresa.

As autoridades reguladoras também ordenaram aos bancos que emprestem mais às empresas privadas. Ministros prometeram compensar as empresas que não demitirem. A legislação ambiental é menos policiada, tornando mais fácil para que fábricas poluentes se mantenham em atividade. A grande pergunta é o que vai acontecer no ano que vem, principalmente nas áreas costeiras, que dependem das exportações para os EUA.

Muitas cadeias de fornecimento destinadas aos EUA já acumularam algum estoque, o que significa que as importadoras americanas podem precisar de menos unidades.

"Ainda estou em pânico, com medo de enfrentar um ano de baixa para os negócios", disse o engenheiro Cyril Liu, 23 anos, mandado recentemente para casa num período de nove dias de férias não remuneradas porque seu empregador, uma fábrica de circuitos, recebeu poucos pedidos. "Muitos amigos que trabalham em empresas menores estão preocupados com o destino de seus empregos no ano que vem", contou.

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