Ashley Gilbertson para The New York Times
Ashley Gilbertson para The New York Times

Economia de Gana alcança patamares notáveis na África

Petróleo e cacau impulsionam desenvolvimento do país, mas alto índice de desemprego reduziu otimismo da população

Tim Mcdonnell, The New York Times

23 Março 2018 | 15h00

TEMA, GANA - Ainda recentemente, nos anos 1980, Gana, país da África Ocidental, estava em crise, afetado pela fome após uma série de golpes militares. Mas o país tem eleições pacíficas desde 1992, e as perspectivas melhoraram há cerca de uma década, com a descoberta de grandes reservas oceânicas de petróleo na sua costa.

Agora, com o preço do petróleo voltando a subir e a produção de petróleo em rápida expansão, Gana está prestes a alcançar um marco notável para um país que vivia na pobreza alguns anos atrás: de ser uma das economias de crescimento mais rápido este ano, de acordo com o Banco Mundial, o Banco de Desenvolvimento Africano, o Fundo Monetário Internacional e a Brookings Institution.

Sua projeção de crescimento para 2018, entre 8,3% e 8,9%, pode ultrapassar até a Índia, com seu próspero setor da tecnologia, e a Etiópia, que ao longo da década mais recente foi uma das economias africanas de crescimento mais rápido graças à expansão da produção agrícola e das exportações de café. Em janeiro, o principal índice de ações de Gana alcançou o crescimento mais rápido do mundo, 19%, de acordo com a Bloomberg.

O cacau é a outra commodity de Gana, e os produtores estão ampliando a prosperidade trazida pelo petróleo.

Edmund Poku, diretor administrativo da Niche Cocoa, disse que sua usina de processamento em Tema, subúrbio industrial da capital, Accra, já tem contratos para vender todo o pó, manteiga e barras de chocolate que serão produzidos em 2018.

“É o primeiro ano que chegamos a esse resultado", disse Poku.

Dentro da usina de Poku, equipes de técnicos estavam sentadas atrás de fileiras de computadores, operando máquinas que assam, moem, cozem, prensam e misturam centenas de quilos de cacau por dia.

A instalação dele é a encarnação da meta de economistas e tecnocratas de toda a África: um empreendimento local que oferece centenas de empregos bem pagos de alta capacitação e usa tecnologia de ponta. Poku dobrou a capacidade produtiva da fábrica nos dois anos mais recentes e planeja contratar mais 100 funcionários este ano.

Mas os economistas e outros especialistas alertaram para que Gana evite a chamada maldição dos recursos naturais, que levou outros países a apostarem demais na extração de petróleo e outros minerais, indústrias frequentemente associadas à corrupção.

O presidente Nana Akufo-Addo, eleito no final de 2016 em meio a um grande descontentamento com a economia, prometeu dar ouvidos a esses conselhos, canalizando a renda do petróleo para o ensino, a agricultura e a manufatura, diversificando assim a economia do país.

Seus críticos dizem que um programa prevendo a instalação de novas fábricas para uma série de indústrias (uma em cada um dos 216 distritos de Gana) teve início lento.

O crescimento em indústrias como finanças e atendimento de saúde ficou para trás, em parte porque o investimento do governo foi limitado nos anos mais recentes, corrigindo a trajetória após anos de gastos excessivos. Depois de um momento inicial de prosperidade do petróleo em 2011, uma folha de pagamentos inchada do funcionalismo público e a cobrança de juros cada vez mais altos para a dívida pública levaram o país a um grande rombo orçamentário quando o preço do petróleo caiu. Gana ainda terá de provar que consegue converter essa renda do petróleo em empregos de alta qualidade e crescimento sustentável.

A taxa de desemprego, embora abaixo da média de 7,4% observada na África subsaariana, aumentou de 4% em 2011 para 5,8% no ano passado, de acordo com o Banco Mundial. Entre os jovens, a proporção de desempregados chega a 11,5%.

Nas ruas de Accra, onde a população teve aumento de quase um milhão de habitantes nos dez anos mais recentes, chegando a 2,7 milhões, com muitas pessoas vindo do interior para a capital à procura de trabalho, o otimismo é difícil de detectar.

Kekeli Aryeetey se formou em finanças pela Universidade Pentecostal de Accra muitos anos atrás. Ela foi demitida de uma empresa de microfinanças, e depois de uma agência de viagens, antes de decidir abrir uma loja que vende arroz e óleo de dendê a granel.

Como estudante, ela imaginou que seu futuro seria num escritório com ar-condicionado, um salário decente e férias anuais. Sua renda atual é de aproximadamente US$ 67 por mês, abaixo da média nacional de US$ 115. Espera que a riqueza do petróleo chegue até ela.

O governo “fala grandiosamente", diz ela, “mas, em se tratando do nosso dia a dia, não vejo mudanças. Podemos estudar, obter qualificações, mas não é o bastante. Ainda temos dificuldade para encontrar emprego".

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