Tony Cenicola / The New York Times
Tony Cenicola / The New York Times

Crescente desigualdade prejudica saúde da democracia liberal

Está na hora de abandonar o julgamento de economistas segundo os quais a sociedade deve fechar os olhos para a desigualdade

Binyamin Appelbaum, The New York Times

31 de agosto de 2019 | 06h00

No início dos anos 1950, um jovem economista chamado Paul Volcker trabalhava como contador no Banco Federal Reserve de Nova York. Ele cuidava da contabilidade para as pessoas responsáveis pelas decisões, e dizia à esposa que via poucas chances de ascender. Na liderança do banco central, estavam banqueiros, advogados e um criador de porcos de Iowa, mas nenhum economista. 

O então presidente do Fed, um ex-corretor da bolsa, chamado William McChesney Martin, certa vez disse a um visitante que ele tinha uma pequena equipe de economistas no subsolo da sede do Fed, em Washington. Eles estavam no edifício, explicou, porque faziam perguntas pertinentes. Estavam no subsolo porque “não conhecem as próprias limitações”.

O menosprezo de Martin pelos economistas era amplamente compartilhado pela elite, em meados do século. O presidente Franklin Delano Roosevelt menosprezava John Maynard Keynes, o economista mais importante da sua geração, que considerava um “matemático” pouco prático.

O presidente Dwight D. Eisenhower, em seu discurso de adeus, pediu aos americanos que mantivessem os tecnocratas longe do poder. O Congresso raramente consultava os economistas; as agências reguladoras eram chefiadas e compostas por advogados; os tribunais desprezavam a evidência econômica como irrelevante.

Mas uma revolução se aproximava. No fim dos 25 anos de crescimento que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os economistas se mudaram para os corredores do poder, ensinando aos estrategistas que o crescimento poderia se renovar minimizando o papel do governo na gestão da economia. E alertaram que uma sociedade que tentasse limitar a desigualdade pagaria o preço na forma de um crescimento menor. Segundo as palavras de um acólito britânico desta nova economia, o mundo precisava “de mais milionários e mais falências”.

Nas quatro décadas entre 1969 e 2008, os economistas exerceram um papel de liderança cortando os impostos dos ricos e contendo os investimentos públicos. Supervisionaram a desregulamentação, fortaleceram as grandes indústrias e defenderam a concentração do poder corporativo, ao mesmo tempo que demonizavam os sindicatos e se opunham às proteções dos trabalhadores, como as leis sobre salário mínimo. Os economistas persuadiram até os legisladores a atribuir um valor em dólares à vida humana - cerca de US$ 10 milhões em 2019 - a fim de avaliar se as regulamentações valiam a pena.

A revolução, como tantas outras, foi longe demais. O crescimento desacelerou e a desigualdade cresceu vertiginosamente. A medida mais dolorosa do fracasso das nossas políticas econômicas é talvez o fato de que a expectativa de vida do americano médio está em declínio, enquanto as desigualdades da riqueza tornaram-se desigualdades da saúde. 

A expectativa de vida cresceu para 20% dos americanos mais ricos entre 1980 e 2010. Nos mesmos 30 anos, a expectativa de vida declinou para 20% dos americanos mais pobres. E o mais chocante é que a diferença na expectativa média de vida entre mulheres ricas e pobres cresceu de 3,9 anos para 13,6 anos.

A crescente desigualdade está prejudicando a saúde da democracia liberal. Nesta era de crescente desigualdade, diminuiu o que temos em comum. Consequentemente, é mais difícil conseguir apoio para as políticas necessárias a uma prosperidade para todos, a longo prazo, como os investimentos públicos na educação e na infraestrutura.

O número de economistas empregados pelo governo cresceu de cerca de dois mil em meados de 1950, para mais de seis mil no finm dos anos 1970. Inicialmente, eles foram contratados para racionalizar a administração da política, mas logo começaram a formular os objetivos da política, também. A figura mais importante foi Milton Friedman, um libertário cujos escritos e exortações conquistaram a imaginação dos estrategistas. Friedman tinha uma resposta incrivelmente simples para os problemas da nação: o governo deveria sair do caminho.

Ele obteve sua primeira grande vitória quando ajudou a convencer o presidente Richard Nixon a acabar com o serviço militar obrigatório em 1973. Friedman e outros economistas mostraram que as forças armadas compostas unicamente de voluntários, recrutados com a oferta de salários de acordo com o valor de mercado, era viável do ponto de vista financeiro e politicamente preferível. O governo Nixon também adotou a proposta de Friedman de permitir que os mercados determinassem as taxas de câmbio  entre o dólar a as moedas estrangeiras.

Mas a guinada para os mercados foi um assunto bipartidário. A redução do imposto de renda federal começou sob o presidente John Kennedy. O presidente Jimmy Carter iniciou uma era de desregulamentações em 1977 nomeando um economista, Alfred Kahn, para desmantelar a burocracia que supervisionava a aviação comercial. O presidente Bill Clinton restringiu os gastos federais nos anos 1990, declarando que “a era do governo tentacular acabou”.

Economistas liberais e conservadores compartilhavam da confiança de que os mercados tendem ao equilíbrio. Eles concordaram que o objetivo fundamental da política econômica era aumentar o valor do dólar da produção nacional. E tiveram pouca paciência para as iniciativas que visassem limitar a desigualdade. 

Charles L. Schultze, presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Carter, disse no início dos anos 1980 que os economistas deveriam lutar por políticas eficientes, “mesmo quando o resultado implica perdas significativas da renda para determinados grupos - como quase sempre acontece.”

Uma geração mais tarde, em 2004, o Prêmio Nobel Robert Lucas advertiu contra a renovação dos esforços para reduzir a desigualdade. “Das tendências perigosas para as economias saudáveis, a mais sedutora e, na minha opinião, a mais venenosa é concentrar-se nas questões de distribuição”.

Os relatos de aumento da desigualdade frequentemente assumem uma visão fatalista. O problema é descrito como uma consequência natural do capitalismo, ou é atribuído a forças como a globalização ou a mudança tecnológica. Mas grande parte da culpa está em nós, na nossa decisão coletiva de adotar políticas que priorizaram a eficiência e encorajaram a concentração da riqueza, e de negligenciar políticas que igualassem a oportunidade e a distribuição dos prêmios.

A ascensão da economia é a razão fundamental do aumento da desigualdade. Está na hora de abandonar o julgamento de economistas segundo os quais a sociedade deve fechar os olhos para a desigualdade. Reduzir a desigualdade deve ser o objetivo primário da política pública.

A medida de uma sociedade é a qualidade de vida em toda a pirâmide, não apenas no topo, e um corpo cada vez maior de pesquisas mostra que os que nasceram na base hoje têm menos chance do que nas gerações anteriores de alcançar a prosperidade ou de contribuir para o bem-estar geral da sociedade. Isto não é ruim apenas para os que sofrem, é ruim também para os ricos. Quando a saúde está concentrada nas mãos de poucos, mostram os estudos, o consumo total declina e os investimentos ficam defasados.

A indiferença consciente pela distribuição da prosperidade é uma importante razão pela qual a própria sobrevivência da democracia liberal agora está sendo testada por demagogos nacionalistas. Não tenho meios especiais para prever por quanto tempo a corda irá durar, ou quanto peso ela poderá suportar. Mas sei que os s laços que compartilhamos durarão mais se pudermos encontrar maneiras de reduzir a tensão. 

Binyamin Appelbaum é o autor do livro “The Economists’ Hour: False Prophets, Free Markets and the Fracture of Society”, a ser lançado em breve, do qual foi adaptado o presente artigo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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