Maxim Babenko / The New York Times
Maxim Babenko / The New York Times

Para russos, perspectiva negativa desacelera economia

Em fevereiro, o governo informou que o PIB cresceu apenas 1,3% em 2019, ante 2,5% no ano anterior; atrasos nos gastos foram apontados como responsáveis pelo resultado decepcionante

Andrew E. Kramer, The New York Times

06 de março de 2020 | 06h00

MOSCOU — No ano passado, a Rússia estabeleceu a meta de acelerar sua expansão econômica — crescer mais rápido que a média do restante do mundo — como forma de garantir a posição do país enquanto potência global dominante.

Até o momento, o plano começou mal. A proposta do presidente Vladimir V. Putin, que lembrou alguns economistas da economia centralizada do período soviético, previa gastos do governo da ordem de US$ 400 bilhões ao longo de seis anos, dinheiro destinado a áreas específicas. Entre os gastos estariam 900 pianos para escolas de música e 40 ringues de patinação cobertos, além de dinheiro para estradas e aeroportos.

Mas, em fevereiro, o governo informou que o Produto Interno Bruto da Rússia cresceu apenas 1,3% em 2019, ante 2,5% no ano anterior. Atrasos no gasto do dinheiro foram apontados como responsáveis pelo resultado decepcionante. Em comparação, a média global de crescimento no ano passado foi de 2,9%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Passados seis anos desde que sanções limitaram o acesso a bancos ocidentais e o preço do petróleo, uma das principais exportações russas, alcançou um valor historicamente baixo, o ritmo de crescimento mostra uma economia rastejando, atrasada pelo baixo investimento privado e uma pesada burocracia estatal.

Ainda assim, de acordo com muitos outros critérios, a economia parece robusta. O governo tem sólidas reservas de divisas estrangeiras, conseguiu controlar a inflação (atualmente em 2,4% ao ano) e teve um superávit orçamentário de 500 bilhões de rublos, ou US$ 8 bilhões, no ano passado.

Muitos economistas apontam agora para os superávits orçamentários e reservas de ouro e divisas estrangeiras, que somavam US$ 562 bilhões no fim de janeiro, como um problema. A relutância do governo em gastar dinheiro com medidas de estímulo econômico enviou um recado ao setor privado. “Ninguém quer investir", afirmou Vladislav Inozemtsev, fundador do Centro de Estudos Pós-Industriais, um centro de estudos estratégicos de Moscou. “Ninguém acredita que a situação econômica de amanhã será melhor do que a de hoje". 

Apesar da promessa de gastos com estímulo feita no ano passado, o governo segue poupando. A política parece refletir uma crença russa profundamente enraizada: não importa o quando as coisas estejam ruins hoje, elas sempre podem piorar. O pagamento de impostos se acumulou como garantia contra choques futuros, como sanções mais rigorosas ou preços ainda mais baixos para o petróleo.

O governo e as empresas estatais — o governo é acionista majoritário de seis das 10 maiores empresas na bolsa de valores russa — não estão gastando, na esperança que a economia e a base fiscal cresçam sozinhas. Os economistas também apontam para o baixo investimento do setor privado como uma das causas do crescimento lento, decorrente do temor de uma piora na economia ou nos preços das commodities.

Os problemas econômicos não condizem com a imagem da Rússia enquanto potência global. O país cresceu com a anexação da Crimeia em 2014. Mas, depois de interferir em eleições e interceder militarmente na Síria e na Ucrânia, o orçamento da federação russa se manteve essencialmente estável desde 2014, se ajustarmos os valores pela inflação. O lucro com o petróleo é destinado a uma reserva chamada Fundo de Bem Estar Nacional, que no início do ano alcançou a meta de acumular soma equivalente a 7% do PIB, ou cerca de US$ 125 bilhões.

Durante a maioria dos anos após o colapso soviético, a saída de dinheiro da Rússia superou a entrada. Como o seu governo, os russos se protegem contra os momentos de declínio. No ano passado, eles tiraram do país US$ 26 bilhões.

Por décadas, a inflação descontrolada foi um flagelo da economia russa pós-soviética, mas o baixo crescimento e o declínio dos salários reais mantiveram os preços sob controle.

Em vez de reciclar os lucros e investir em seus negócios, as gigantes russas do petróleo e da mineração quitaram dívidas e, mais recentemente, pagaram substanciais dividendos, elevando o preço de suas ações.

O mercado de ações russo teve no ano passado o segundo melhor desempenho do mundo, com valorização de 40% em valores denominados em dólares. A economia da Rússia, de US$ 1,7 trilhão, é atualmente a 11.ª maior do mundo, entre Canadá e Coreia do Sul.

Sofya Donets, economista-chefe da Renaissance Capital para a Rússia, disse que a política de engordar as reservas teve como custo o crescimento, mas deixou o governo em boa situação. “Uma coisa podemos afirmar: esse crescimento está abaixo do potencial da economia russa", explicou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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