Nick Hagen para The New York Times
Nick Hagen para The New York Times

Economista alerta sobre colapso na Turquia

Tim Lee, que há anos vem advertindo sobre o ônus da dívida turca, afirma que os problemas só estão começando

Landon Thomas Jr., The New York Times

20 Agosto 2018 | 10h00

Nos últimos sete anos, Tim Lee tem advertido que a crise financeira da Turquia provocará uma calamidade maior ainda nos mercados globais. Ninguém vinha prestando atenção - até agora.

A queda livre da lira turca e a perspectiva de que, dentro em breve, o país poderá precisar de uma operação de salvamento causou um êxodo dos investidores na Turquia, que se intensificou este mês quando a moeda despencou 16%. Este ano, a lira sofreu uma desvalorização de 70% em relação ao dólar. A certa altura, em meados de agosto, um dólar comprava 6 liras.

Há sinais de que este colapso esteja se espalhando para além do país. Os preços das ações dos bancos europeus e dos principais índices nos Estados Unidos declinaram, e as moedas de China, Brasil e México também cederam.

Repentinamente, a profecia de Lee, segundo a qual os dez anos durante os quais as companhias e as construtoras turcas tripudiaram com o crédito externo barato acabariam mal - em grande parte ignorada -, não parece tão fora de propósito.

"A Turquia é o canário na mina de carvão" - disse Lee. "Teremos novo colapso que de certo modo será pior que o de 2008".

Mas esta convicção não está sendo unânime. Os mercados de ações americanos continuam próximos de suas altas. A ansiedade gerada pelas guerras comerciais dos Estados Unidos com China e Europa arrefeceu um pouco. Até os mercados financeiros nos países em desenvolvimento estão se comportando bem.

Lee, 58, trabalhou por 20 anos como economista para a empresa britânica de fundos mútuos GT Management, e atualmente escreve uma newsletter chamada pi/Economics, em Connecticut. No final de 2011, ele publicou sua previsão de que a Turquia precisaria de uma ajuda de US$ 100 bilhões.

Na época, os bancos centrais do mundo todo estavam injetando recursos em suas economias que estavam se recuperando da crise financeira. Lee noticiou que os bancos turcos estavam tomando empréstimos em dólares para fazer outros empréstimos às companhias turcas em crescimento.

Em suas notas mensais aos investidores, ele voltava sempre a falar deste assunto. Em uma newsletter de 2013, foi mais específico: a lira, então negociada em 1,9 por dólar, enfraquecera e despencaria para 7,2. Na época, a economia turca estava a todo vapor. Mas nos cinco anos seguintes, a situação se deteriorou.

Como consequência dos trilhões de dólares disponíveis em dinheiro novo fornecidos pelos bancos centrais nas economias aquecidas, ficou mais fácil para os governos e as companhias tomar dinheiro emprestado em dólares - e não em suas próprias moedas - para financiarem seus investimentos ou outros programas de crescimento.

Hoje, segundo o Institute of International Finance, a dívida corporativa em moedas estrangeiras chega a US$ 5,5 trilhões, a maior de todos os tempos. A dívida corporativa, financeira e de outra espécie denominada em moedas estrangeiras, em geral dólares, representa cerca de 70% da economia da Turquia, afirma o I.I.F. As companhias turcas e as grandes construtoras usaram dólares emprestados para financiar novas fábricas, shopping centers e arranha-céus que agora definem o horizonte de Istambul.

A ameaça é que, com a desvalorização da lira, torne-se mais dispendioso para as companhias saldar os empréstimos denominados em dólares. Na realidade, muitas delas já declararam que não têm condições de honrar estas dívidas.

"As companhias turcas simplesmente ignoraram todos os riscos e continuaram tomando dinheiro emprestado em dólares", afirmou Lee.

Justin Leverenz, que administra o Oppenheimer Developing Markets Fund, o maior do gênero nos Estados Unidos acredita que a maioria das pessoas não pensou nas maiores implicações do que está acontecendo na Turquia. "O que eu vejo é que o crescimento global é muito mais fraco do que as pessoas julgam", avaliou.

Lee continua reiterando sua mensagem catastrófica: será mais difícil tomar dinheiro emprestado, o dólar subirá de repente e haverá uma série de confiscos de ativos. Ele acredita que os investidores, fugirão das economias em desenvolvimento, depois da Europa e então dos mercados de ações e de títulos dos EUA.

"Desta vez não será uma crise do setor bancário, será uma crise do mercado financeiro. Estou convencido de que isso acontecerá", afirmou.

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