Scott McIntyre para The New York Times
Scott McIntyre para The New York Times

Para muitos economistas, imigração torna os EUA um país mais rico

“Sem a imigração, nosso país encolhe", disse Douglas Holtz-Eakin, que comanda a organização conservadora American Action Forum

Patricia Cohen, The New York Times

06 de setembro de 2019 | 06h00

MIAMI - Depois de terminar um jantar particularmente saboroso em um restaurante na companhia da mulher, Pedro Martinez foi até a cozinha nos fundos. “Não sei o quanto vocês ganham, mas ofereço um aumento", sussurrou Martinez. Executivo da 50 Eggs, grupo de restaurantes com sede em Miami, ele sempre traz consigo alguns cartões de negócios.

O número de imigrantes que procuraram as cidades do sul da Flórida é maior do que o observado na maioria das cidades americanas, e, durante décadas, os empregadores dependeram dessa mão de obra para lavar pratos, erguer paredes e cuidar de famílias. Ainda assim, parece não haver imigrantes suficientes para satisfazer a implacável demanda de Miami por trabalhadores desse tipo.

Enquanto o desemprego em todo o território dos Estados Unidos recua aos menores níveis já vistos, seduzir os trabalhadores - seja nas cozinhas, nos canteiros de obras ou nos armazéns e lojas como o Walmart - se tornou prática comum. Em cidades como Miami, que são como ímãs para os imigrantes, os recém-chegados ocuparam algumas das vagas de trabalho, mas empregadores de várias indústrias e estados diferentes insistem que são necessários muitos mais.

E, de acordo com a maioria dos economistas, os números indicam que não há falta de espaço. De acordo com eles, a imigração torna o país mais rico. “Sem a imigração, nosso país encolhe", disse Douglas Holtz-Eakin, que comanda a organização conservadora American Action Forum. Isso ocorre porque o crescimento é impulsionado por dois ingredientes: o tamanho da força de trabalho e a eficiência desses trabalhadores na produção de mercadorias. E ambos estão chegando a pontos bem abaixo da média para o pós-guerra.

Um dos motivos é o fato de os americanos terem menos filhos. No ano passado, a taxa de natalidade chegou ao ponto mais baixo em três décadas, garantindo que a próxima geração de americanos nascidos no país será menor do que a atual. O resultado são menos trabalhadores e menos consumidores; menos casas para construir, celulares para vender e carros para comprar. Se a entrada de imigrantes for impedida, esse quadro se agrava.

Usando dados censitários, a firma de investimentos Blackstone Group estima que, na ausência da imigração, a população em idade útil (25 a 64 anos) teria queda de 17 milhões já em 2035. “Realmente precisamos dos imigrantes", disse Byron R. Wien, representante da Blackstone, em julho. “Se tivermos uma população em queda, será difícil ter um PIB em crescimento", disse ele referindo-se ao Produto Interno Bruto.

No momento, há 7,3 milhões de vagas de emprego nos EUA e seis milhões de desempregados. Essa diferença deve aumentar conforme o número de aposentados cresce mais rapidamente do que o número de novos trabalhadores. “Em todos os mercados nos quais temos negócios, enfrentamos um problema de escassez de mão de obra", disse Pilar Carvajal, diretora da Innovation Senior Management, que administra sete asilos na Flórida. 

Os recém-contratados na região ganham algo entre US$ 10 e US$ 12 por hora - o mesmo que um lavador de pratos, e pouco mais que um agricultor. Ela teve que recusar propostas de trabalho. “É um vácuo de funcionários", disse ela. As agências de emprego nem retornam os telefonemas. “Graças a Deus, temos os imigrantes", disse ela. “Nós os contratamos assim que podemos.”

Mais de um milhão de imigrantes entram nos EUA todos os anos, a maioria por meio de canais legítimos. Somados, os imigrantes são mais de 44 milhões, ou 13,6% da população. A proporção é mais alta do que nos anos 1970, mas acima da observada nos anos 1890, quando milhões de europeus vieram ao país. O presidente Donald Trump resistiu aos argumentos de quem diz que o país precisa de mais imigrantes. “Nosso país está cheio", disse ele durante visita à fronteira sul no primeiro semestre do ano. “Não podemos receber mais ninguém.”

Apesar de uma década de expansão, a disparidade de renda está aumentando, e muitos americanos têm dificuldade para encontrar bons empregos. Uma queixa comum diz que os imigrantes tomam vagas de emprego que ficariam com americanos nativos, principalmente os de escolaridade mais baixa. Os imigrantes tendem a ficar com empregos que os cidadãos não desejam aceitar pelo salário oferecido.

Salários significativamente mais altos poderiam atrair mais cidadãos nativos para os empregos de serviços desempenhados por muitos imigrantes - na área de saúde e nos cuidados com o lar. “A ideia segundo a qual os imigrantes legais estão tirando empregos dos americanos é simplesmente falsa", disse John Kunkel, diretor da 50 Eggs. “É um comentário típico de alguém que nunca administrou um negócio.”

As indústrias sazonais são particularmente dependentes dos imigrantes. Na mais recente temporada de colheita de tomates, a distribuidora DiMare Fresh, empresa familiar com fazendas na Flórida e na Califórnia, tinha muitas vagas de trabalho em aberto. Na sua instalação principal, ao sul de Miami, a empresa só conseguiu preencher 165 das 280 vagas em aberto. 

A temporada dos tomates na Flórida só voltará em novembro. Enquanto isso, Paul DiMare, diretor executivo da empresa, balança a cabeça quando indagado a respeito das operações dos agentes da imigração. “Eles querem mandar toda essa gente de volta", disse ele. “E quem diabos vai fazer o trabalho?” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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