Ethan Miller / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
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Eddie Van Halen, um guitarrista arquiteto e, ao mesmo tempo, vândalo

O guitarrista, que morreu esta semana aos 65 anos, reinventou as regras para ser um guitar hero – e depois as transgrediu inúmeras vezes

Jon Pareles, The New York Times - Life/Style

09 de outubro de 2020 | 14h56

Eddie Van Halen não tocava rápido: tocava hiper-rápido. E tocava alto. Era vistoso, assertivo e explosivo, muitas vezes interrompia uma exibição virtuosística com um slide ainda mais elegante. Como guitarrista principal do Van Halen, ele dedilhava, batia, torcia e raspava suas cordas, a um só tempo amparando os cantores principais da banda e desafiando-os com um contraponto insano.

E, nos incontáveis palcos de arena onde tocou com o Van Halen, assim como diante das câmeras dos videoclipes, ele fazia tudo com um sorriso natural – nada das contorções faciais melodramáticas de tantos guitarristas, só um sorriso de alegria infantil por estar ali misturando propulsão, filigrana e destruição total, por estar ali se divertindo com todo aquele barulho.

Sua guitarra vermelha Frankenstrat, decorada com listras pretas e brancas, não era uma arma fálica: era um brinquedo infinitamente maleável. O Van Halen lançou seu álbum de estreia em fevereiro de 1978, apresentando Eddie Van Halen como um dos últimos “heróis da guitarra” que se conectaria com um público de massa. (Coincidentemente, Prince, que também podia ser um grande guitar hero, entre seus muitos outros papéis, lançou seu álbum de estreia em abril do mesmo ano).

Ajudou muito o fato de o Van Halen ter sucessos pop. Embora a banda tenha creditado suas canções a todos os seus membros coletivamente, Eddie Van Halen tinha um papel importante na composição das músicas, desde os retumbantes sintetizadores de ‘Jump’ até os riffs e acordes sincopados de ‘Unchained’.

E, depois, muitas vezes, ele tratava suas próprias estruturas sólidas como parques de diversões. Era arquiteto e, ao mesmo tempo, vândalo. Van Halen manteve seu manto de guitar-hero numa época em que o título já parecia obsoleto. Durante o apogeu do Van Halen na década de 1980, a música eletrônica e o hip-hop estavam remodelando o pop, enquanto boa parte do hard rock ia ficando underground e fragmentado.

O punk já tinha suscitado um certo ceticismo a respeito da musicalidade extravagante e do heroísmo de guitarra, e quando o grunge empurrou o hard rock de volta para as paradas pop, num último suspiro na década de 1990, os guitarristas obedientemente se subordinaram às canções e às bandas.

As inegáveis proezas de guitarristas como Steve Vai, Joe Satriani, Yngwie Malmsteen ou Buckethead só os manteria no pedestal dos heróis para uma base de fãs muito mais limitada. Eddie Van Halen foi herdeiro de guitarristas e compositores como Jimi Hendrix, Pete Townshend e Jimmy Page, cuja maestria sobre seus instrumentos fundia completamente a técnica tradicional do braço da guitarra com um domínio cada vez maior sobre a amplificação e os efeitos.

Mas, se aqueles heróis da guitarra dos anos 1960 estavam totalmente enraizados na tradição vocal e narrativa do blues, Van Halen – tanto Eddie quanto a banda – deram um passo à frente, partindo do The Who e do próprio Led Zeppelin para criar seus solos e power chords.

Outra influência para além do blues foi o rock progressivo, particularmente a técnica de tapping do guitarrista inglês Allan Holdsworth, que Eddie Van Halen usou em alguns de seus solos mais rápidos e selvagens. Van Halen, que influenciaria incontáveis guitarristas nas décadas seguintes, virou o shredder supremo, o debulhador supremo, esbanjando velocidade e precisão em afinações agudas. ‘Eruption’, a faixa de dois minutos de aquecimento que acabou entrando no álbum, era mais impetuoso cartão de visita do guitarrista.

Fundia o impacto do hard rock – seu acorde de abertura e o dramático golpe final – com os trinados vertiginosos e os arpejos metódicos de um étude clássico, muito distante do blues. Em todo o catálogo do Van Halen – sem mencionar seu solo acelerado e desfibrilador em ‘Beat It’, de Michael Jackson – sua ernão gemia com muita frequência. Em vez disso, ela corria, espetava, saltava, bombardeava, zumbia.

Às vezes ele era melódico – como na repentina aparição em ‘Panama’ – mas claramente preferia músculos e disrupção. Ainda assim, sua disrupção não parecia destrutiva. Era uma sobrecarga de pura alegria – com a agilidade de seus dedos, com suas distorções que se agarravam à orelha, com as surpresas que ele não conseguia resistir a trazer para as canções. No centro de sua música havia um sorriso alegre – e era bem merecido. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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