Galeria Nacional de Arte
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A sombria obsessão de Degas pela ópera transbordou na tela

Exposição Degas na Opéra, em cartaz no Musée d’Orsay, afasta a sentimentalidade atribuída às pinturas de Degas mostrando a dança e a música

Jason Farago, The New York Times

13 de dezembro de 2019 | 06h00

PARIS - São encontrados nos camarotes, ou na plateia, lendo o libreto em voz baixa ou cantarolando a melodia. Estamos falando dos superfãs: os adoradores compulsivos da ópera, balé ou teatro. A maioria não passa de admiradores inofensivos. Mas o superfã pode tramar em segredo, chegando ao assassinato.

Se a melhor arte estimula os sentimentos e o intelecto, o superfã reage de maneira desproporcional: paixão vence razão, e apreço se converte em obsessão. Nos anais da história da arte francesa, o superfã mais conhecido é Edgar Degas: o mais parisiense de todos os impressionistas, obcecado pela ópera e pelo balé.

Durante décadas, ele assistiu jovens cantores e dançarinos, analisando os membros do corps de ballet. Quase metade da produção de Degas nas telas retrata a Opera de Paris - que era (e ainda é) ao mesmo tempo ópera e companhia de dança. Somente em 1885, Degas foi 55 vezes ao ainda novo Palais Garnier. Assistiu uma ópera específica pelo menos 37 vezes. Suas imagens de dançarinas em seus grandes arabesques ou treinando na barra eram o produto de uma verdadeira mania.

A exposição Degas na Opéra, profunda, esclarecedora e um pouco perversa, em cartaz no Musée d’Orsay até 19 de janeiro, afasta a sentimentalidade atribuída às pinturas de Degas mostrando a dança e a música, revelando a compulsão de uma ideia fixa que impulsionou suas inovações.

São incluídas mais de 200 obras - pinturas e pastéis, gravuras e leques pintados, e até fotografias solarizadas de dançarinas -, mas o tema é um só: o hermético universo do teatro musical de Paris, um lugar de espetáculos grandiosos e depravação ainda maior. A exposição também traz o molde em bronze da peça Bailarina de catorze anos, usando um tutu, a única escultura exposta por Degas; a original fica na Galeria Nacional de Arte, em Washington, que receberá Degas na Opéra em março. 

A era atual dos superfãs - para quem uma selfie substitui o autógrafo, e a direção proposta para a trama de um seriado pode ser combatida em uma petição na internet - tem suas raízes na sociedade teatral da aurora do capitalismo industrial. A relevância de Degas at the Opéra está no fato de ele demonstrar que o público sempre teve mais influência sobre os artistas do que gostamos de admitir. 

Na Paris de fins do século 19, a ópera era um espetáculo social que fazia dela o tema ideal para um retratista da vida moderna. Degas frequentava essas apresentações tanto quanto podia. Reparava atentamente tanto no palco quanto na plateia, que retratou a partir de perspectivas pouco ortodoxas - às vezes um ângulo curioso que flagra as cabeças das bailarinas vistas de cima, às vezes um olhar vindo dos assentos da orquestra.

Em tons pastéis, particularmente, ele conseguia imitar sua visão das dançarinas iluminadas por trás, o rosto ofuscado pela claridade. A maioria das bailarinas nos quadros e gravuras de Degas não era como as dançarinas atléticas que vemos nos palcos de hoje, e sim meninas miseráveis vindas do porão da sociedade francesa.

Em meados do século, mais da metade das novas alunas da Opéra era de filhas de mães solteiras, que geralmente trabalhavam como lavadeiras ou recepcionistas, e a maioria das meninas chegava à casa de ópera mal alimentada. Ali, os mestres do balé “amaciavam” as meninas - alongando seus corpos em aparelhos, reformando seus pés com caixas especialmente preparadas para este fim.

No palco, ou nos pastéis de Degas, as meninas de saia tutu podem parecer anjos. Mas, para os frequentadores da Opéra as bailarinas eram conhecidas como “petits rats”: pequenos roedores, vulneráveis à exploração sexual. Nas imagens de Degas, os mais dedicados frequentadores da da ópera pairam nas coxias.

Mas até nos hoje amados pastéis de Degas, de aparência mais solar, as bailarinas mais parecem posses, e não artistas como ele. São meninas trabalhadoras, inclinadas, amarrando as sapatilhas, encolhidas em um canto - raramente elegantes, e sempre observadas. Degas era um misógino conhecido, e as inovações formais de sua arte acompanham um avarento foco no controle.

Certa vez, ele confessou, “Talvez eu tenha frequentemente pensado na mulher como um animal". Será que as artes performáticas deixaram para trás esse passado predatório? O Paris Opéra Ballet tem seus problemas; no ano passado, um questionário vazado revelou que três quartos das bailarinas disseram ter sido vítimas de abuso verbal ou testemunhado episódios desse tipo, e um quarto foi vítima ou testemunha de abuso sexual.

Degas nunca se casou. Não há registro de amantes que tenha tido. Mas o fato de não ter tocado nas “petits rats” não faz de sua arte menos perturbadora. Esse pintor que (na avaliação de Van Gogh) “não gostava das mulheres” encontrou na Opéra uma arena de desejo e depredação que pôde traduzir em formas puras - maravilhosas e sufocantes, modernas e frias. Essa é a verdade por trás dos superfãs: eles sufocam aquilo que amam. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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