Erin Brethauer para The New York Times
Erin Brethauer para The New York Times

Edição 'caseira' de DNA preocupa cientistas

Os chamados 'biohackers' estão editando genes em laboratórios caseiros, experiência cujos resultados podem ser catastróficos

Emily Baumgaertner, The New York Times

22 Maio 2018 | 10h15

WASHINGTON - Quando adolescente, Keoni Gandall já operava um laboratório de ponta em seu quarto, na Califórnia. Enquanto os amigos compravam jogos eletrônicos, ele adquiriu mais de uma dúzia de equipamentos (uma centrífuga, um transiluminador, dois termociclos) para alimentar um hobby que já fora exclusividade dos doutores de jaleco dos laboratórios institucionais.

“Eu queria apenas clonar DNA usando meu robô de laboratório e, possivelmente, criar genomas completos em casa", disse ele.

Gandall está longe de ser o único com tais inclinações. Nos anos mais recentes, os chamados hackers biológicos começaram a praticar edição de genes com as próprias mãos. Conforme o equipamento se torna mais barato e a experiência com as técnicas de edição genética é amplamente compartilhada, cidadãos-cientistas tentam recriar o DNA de maneiras surpreendentes.

Até o momento, esse trabalho rendeu apenas erros e tropeços. Um ano atrás, um biohacker injetou em si DNA modificado na esperança que este o tornasse mais musculoso (não deu certo). No início deste ano, no Texas, o executivo de uma empresa de biotecnologia injetou em si mesmo algo que esperava ser um tratamento para o herpes (não deu certo).

Numa entrevista recente, Gandall, que agora tem 18 anos e é bolsista de pesquisa da Universidade Stanford, na Califórnia, disse querer apenas garantir o livre acesso à tecnologia de edição de genes, acreditando que as descobertas biotecnológicas do futuro serão feitas pelos intelectos mais inesperados. Mas ele reconhece que a revolução da genética do tipo faça-você-mesmo pode ter resultados catastróficos.

“Posso dizer que o nível de regulamentação atual para a síntese de DNA simplesmente não é suficiente", disse Gandall. “Essas regulamentações não vão funcionar quando tudo for descentralizado e todos tiverem um sintetizador de DNA no celular.”

A preocupação mais urgente é com a possibilidade de alguém usar a tecnologia mais acessível para criar uma arma biológica.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Alberta recriou do zero um parente já extinto da varíola costurando fragmentos de DNA encomendado ao longo de apenas seis meses, a um custo de aproximadamente US$ 100 mil.

Para alguns especialistas, o experimento acabou com um debate que se arrastava por décadas a respeito da decisão de destruir os dois últimos resquícios de varíola preservados no mundo, no centro de controle e prevenção de doenças de Atlanta e num centro de pesquisas na Rússia, já que agora está comprovado que os cientistas podem criar o vírus sozinhos.

A publicação do estudo na revista PLOS One incluiu a descrição dos métodos usados e, alarmando Gregory D. Koblentz, especialista em biodefesa da Universidade George Mason, na Virgínia, novas dicas e truques para superar obstáculos.

“É claro que sabíamos dessa possibilidade", disse Koblentz. “Também sabíamos que a Coreia do Norte poderia um dia construir uma arma termonuclear, mas ainda ficamos horrorizados quando vemos o resultado”.

Muitos especialistas concordam que seria difícil para biólogos amadores projetarem sozinhos um vírus assassino. Mas, conforme mais hackers trocam códigos de computador e suas habilidades se tornam cada vez mais sofisticadas, cresce o temor de que o potencial de abusos esteja aumentando.

“Algo mortífero poderia ser lançado a qualquer momento, mesmo hoje", disse George Church, pesquisador da Universidade Harvard. “Se eles estão dispostos a injetar em si mesmos hormônios para tornar seus músculos maiores, podemos imaginar que estariam dispostos a testar coisas mais poderosas", acrescentou ele.

Se os biohackers tentassem criar uma arma biológica a partir do zero, um vírus ou bactéria capaz de circular livremente entre hospedeiros, alcançando milhões de pessoas, o provável ponto de partida seria as compras online.

Um site chamado Science Exchange, por exemplo, funciona como um serviço de classificados de DNA, um ecossistema comercial que conecta quase qualquer pessoa com acesso à internet e um cartão de crédito válido a empresas que vendem fragmentos de DNA clonado.

Gandall compra fragmentos desse tipo - fragmentos benignos. Mas uma pessoa mal-intencionada pode não ter tanta dificuldade em seguir os mesmos passos.

Os biohackers logo serão capazes de dispensar essas empresas completamente apenas com uma impressora genômica portátil e completa: um dispositivo semelhante a uma impressora de jato de tinta que emprega as letras AGTC (pares de bases genéticas) em vez do modelo de cores CMYK.

Um dispositivo semelhante, chamado BioXp 3200, já existe para os laboratórios institucionais e é vendido por cerca de US$ 65 mil. Mas os biohackers caseiros podem começar com o DNA Playground, da Amino Labs, um forno genético Easy Bake que custa menos que um iPad, ou o kit de edição genética Crispr, da The Odin, por US$ 159.

Josiah Zayner é um cientista da NASA convertido em biohacker e celebridade que usa uma câmera GoPro presa à cabeça para transmitir os experimentos que faz em si mesmo de sua garagem. Foi ele quem tentou aumentar os músculos. Zayner reconheceu que, entre seus seguidores da cena biohacker, um acidente seria possível.

“Não tenho dúvida de que alguém vai se machucar", disse ele. “As pessoas tentam se superar, e a coisa está avançando mais rapidamente do que qualquer um de nós poderia imaginar. É quase incontrolável. É assustador.”

Mais conteúdo sobre:
clonagem DNA Pesquisa Científica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.