Fotos de Andrea Mantovani para The New York Times
Fotos de Andrea Mantovani para The New York Times

Edifícios decadentes denunciam desigualdade em Marselha

Na cidade da França, cerca de 40 mil apartamentos não oferecem segurança

Adam Nossiter, The New York Times

01 Dezembro 2018 | 06h00

MARSELHA, FRANÇA - “Estamos fechando o prédio”, informou o bombeiro aos moradores ansiosos reunidos em volta dele.

Desnorteados e assustados, eles subiram as escadas inseguras do seu edifício da Rua Jean Roque. Ali, reuniram os seus pertences e depois se foram, pela última vez. O decrépito edifício de apartamentos de cinco andares, há muito tempo ignorado pela prefeitura, agora era considerado perigoso.

As autoridades de Marselha apressaram-se a agir depois que dois edifícios ruíram este mês, matando oito pessoas. Cerca de 1.054 pessoas tiveram de ser retiradas dos 111 apartamentos em condições de extrema precariedade, no centro da antiga cidade portuária do Mediterrâneo. Mas um relatório de 2015, redigido pelo ministro da Habitação da França, já havia declarado inseguras 40 mil habitações da cidade - afetando 100 mil inquilinos.

Marselha, a segunda maior cidade da França e uma das mais pobres da Europa, enfrenta uma crise de pobreza. Mais de 25% dos seus habitantes são oficialmente pobres. Muitos perguntam por que as autoridades demoraram tanto para tratar das terríveis condições e da persistente pobreza de Marselha que denunciam a negligência da “outra França” - em parte imigrante e pobre.

Enquanto a prefeitura gastava milhões com a construção de instalações esportivas e com esplendorosos museus para turistas, recursos mínimos foram destinados para impedir que centenas de edifícios do século 18 simplesmente caíssem. As inspeções foram aleatórias, relatórios alarmantes foram ignorados e as iniciativas oficiais não contaram com um número suficiente de funcionários. No dia 18 de outubro, semanas antes do desabamento dos edifícios na Rua d’Aubagne, um especialista enviado pela prefeitura declarou que somente o primeiro andar do número 65 não apresentava perigo.

As vítimas - inclusive uma mãe imigrante de oito filhos, um estudante, um pintor e um imigrante africano sem trabalho e sem documentos - refletem o fosso existente entre os que têm uma habitação, água potável, educação e oportunidades, e o resto da população, em um país dotado de uma ampla rede de seguro social.

No mês passado, milhares de pessoas foram às ruas em protesto contra a negligência das autoridades. “Gaudin, assassino!” gritaram contra Jean-Claude Gaudin, que há muito tempo é o prefeito da cidade.

E elas continuam desfilando, dia após dia, diante do verdadeiro mausoléu que foi montado nas proximidades do local do desastre. “Quem foi que morreu aqui?” perguntou Rabah Ramdani, o dono de uma loja, que veio prestar as suas homenagens aos mortos. “Somente gente pobre. E isto ainda não acabou”.

Nos dilapidados edifícios antigos do bairro de Noailles, no centro da cidade, paira o medo. As crianças têm medo de voltar para casa depois da aula, as mães afirmam que acordam de noite à menor vibração, estudantes universitários procuram dormir em outro lugar. “Até agora, tínhamos vergonha de trazer gente aqui”, disse Laura Spica, musicista. “Agora, não temos apenas vergonha, temos medo”.

Deslumbrante em suas cores pastel, Marselha nunca se recuperou dos duplos golpes da desindustrialização e da descolonização, afirmou o sociólogo Michel Peraldi. O desemprego é cerca de 50% superior ao da média nacional. Os imigrantes foram chegando em ondas desde os anos 50. “Há três gerações de desempregados”, segundo Peraldi. “Nunca houve uma política clara de reintegração destas classes na sociedade”.

Dos edifícios que caíram na Rua d’Aubagne, o número 63 estava vazio e havia sido tomado pela prefeitura. 

Acredita-se que o colapso da sua estrutura tenha provocado a queda do número 65. Nos edifícios do bairro de Noailles, as escadas provavelmente cederão se alguém pisar nos degraus. Os tetos não têm reboco e as vigas de madeira frequentemente estão expostas e podres.

As três filhas de Saida Ouaheb agora ficam apavoradas diante da perspectiva de continuar no seu apartamento. A filha de 9 anos se recusou a sair da escola para ir para casa, um dia destes. Sua mãe disse: “A gente não consegue dormir bem aqui”.

Nas passeatas de protesto, os imigrantes que moram nestes cortiços eram esperados em grande número por moradores brancos burgueses que não costumam ser afetados pelas pavorosas condições de habitação da cidade. Muitos mesmo assim se diziam envergonhados pelo grave desastre.

“É incrível que uma coisa como esta tenha acontecido aqui, na França”, disse Elise Sut, musicista que participou de uma passeata.

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