Richard Lakos via The New York Times
Richard Lakos via The New York Times

O espírito do Edinburgh Fringe Festival segue vivo, mesmo com a pandemia

Pela primeira vez em seus 73 anos de história, o festival extremamente influente foi cancelado

Alice Jones, The New York Times - Life/Style

03 de setembro de 2020 | 05h00

LONDRES – David Chapple começou a planejar sua ida ao Edinburgh Fringe Festival de 2020 um ano atrás, porque nunca se está totalmente preparado quando se detém o recorde do maior número de apresentações assistidas do Fringe em uma edição. Depois de assistir a um recorde de 304 shows em 27 dias em 2014, ele planejava nova maratona do Fringe este ano para o sexagésimo aniversário de sua esposa. Mas no começo de abril, o evento – o maior festival de artes do mundo – foi cancelado pela primeira vez em seus 73 anos de história, por causa do coronavírus.

Para Chapple, um funcionário público que calcula que gasta a metade de sua renda assistindo ao vivo comédias e cria galinhas com o nome de comediantes britânicos de stand-up, foi algo devastador. “Edimburgo é tudo, mesmo”, afirmou. “É o ponto principal do nosso ano”.

O cancelamento do evento foi um grande golpe para os fãs mais antigos – e para os 30 mil participantes que todo ano viajam para a cidade escocesa em agosto para mostrar a sua obra. Para preencher o vazio, alguns artistas foram online para tentar captar a experiência anárquica, diversificada e mesmo irresistível de participar do Fringe.

Entre eles, Francesca Moody, uma produtora teatral de Londres que levou a versão original do palco de Fleabag para o Fringe em 2013 e planejava apresentar três peças em Edimburgo este mês.

Quando o festival foi cancelado, seu colega, o produtor teatral Gary McNair, brincou que então teria de encenar um “Shed Fringe” (de galpão). Há seis semanas, ela chegou com Shedinburgh, um festival de comédia e drama por streaming online ao vivo de um  galpão de jardim e três semana de duração.

Na realidade, há dois galpões, cada um de 1 metro por 1,70: um no palco no Teatro Soho, em Londres, o outro no Teatro Traverse em Edimburgo. Ambos os locais estão fechados desde março, quando o governo britânico ordenou que o fechamento dos teatros para ajudar a conter o contágio do coronavírus.

Aprontar o interior dos galpões é um estímulo ao espírito de pesquisa do Fringe, que todos os anos no mês de agosto vasculha cada canto da cidade de Edimburgo e transforma pubs e jardins, academias, estacionamentos, salas e teatros em espaços para apresentações teatrais.

”O cancelamento do Fringe deixou um enorme buraco”, disse Francesca Moody, que assiste ao festival há 17 anos. “Esta é uma oportunidade para reconhecer a magia do festival, sua importância para mim e para muitos artistas que fizeram sucesso lá”.

Por causa das normas de distanciamento social e das restrições de espaço, no “Shed-ule” predominam os espetáculos de uma pessoa só, de artistas como Jack Rooke, Deborah Frances-White e Tim Crouch. O público assistirá pelo Zoom depois de doar pelo menos 4 libras (cerca de US$ 5) por ingresso. E os lucros irão para um fundo dos artistas com a finalidade de encenar um espetáculo no Fringe do próximo ano.

Antes que o planejamento fosse suspenso por causa da pandemia, o Edinburgh Fringe Festival deste ano havia confirmado mais de 2.200 shows de 48 países em cerca de 230 locais, disse Rebecca Monks, uma porta-voz da Sociedade do Festival de Edimburgo. Eles estavam preparando um festival numa escala semelhante ao do ano passado, em que foram apresentados mais de 3.800 espetáculos e foram vendidos mais de 3 milhões de ingressos.

Edimburgo é “a maneira como as organizações artísticas, os locais e as companhias de produção de TV, encontram um novo trabalho; o fato de este ano não se realizar, terá consequências consideráveis”, disse Moody, que sabe como um Fringe de sucesso pode mudar uma vida.

Quando ela e Phoebe Waller-Bridge levaram Fleabag para um lugar úmido embaixo da ponte George IV em Edimburgo, há sete anos, levantaram dinheiro com Kirkstarter, não ficaram com dinheiro algum para si e distribuíram os ingresso de graça  na primeira semana para encher a sala de 60 lugares. Foi um dos shows mais comentados daquele ano, o que levou a uma temporada no Soho Theatre de Londres, onde chamou a atenção do diretor de comédia da BBC.

Este ano, tais oportunidades desapareceram simplesmente. “Para todos os artistas que compareceriam pela primeira vez ao Fringe deste ano”, disse Moody, “talvez este trabalho nunca mais apareça porque eles não teriam o apoio para continuarem se apresentando.”

“Shedinburgh” é apenas uma maneira que os produtores teatrais estão tendo de manter a chama do Fringe ardendo. Na sexta-feira, o Fringe se passará em um suposto cabaré de uma hora de duração semanal em streaming das casas dos atores; Edinburgh Unlocked é um festival de comédia em um formato de audiolivro da Penguin Random House apresentando cenas de 15 minutos desde stand-ups cujos show foram cancelados; a TV Zoo está oferecendo streaming a pedidos de apresentações passadas de Edimburgo; e Fringe of Colour passa diariamente filmes de artistas não brancos.

Corrie McGuire, um produtor de comédias que encenou o show interativo da meia-noite “Spank!” no Edinburgh Fringe nos últimos 15 anos, calcula que a sua agência perdeu 60 mil libras quando os teatros fecharam em março. Um quarto disso viria de Edimburgo.

Na semana passada, ela encenou o primeiro Spank! online com dois comediantes stand-up Lauren Pattison e Emmanuel Sonubi representando dos seus quartos de dormir. Magical Bones, um mágico de break-dance, fazendo truques em sua cozinha; e Vikki Stone cantando do sótão de sua casa.

Para combater “a fadiga do Zoom” que muitas pessoas estão sentindo entre a quantidade de eventos online e encontros durante a pandemia, McGuire disse, ela criou uma primeira fileira virtual em que 10 pessoas da plateia se apresentam como voluntários para “sentar na frente” cujos microfones foram retirados no mute para que os atores pudessem ouvir as suas reações. ‘Poder ter pessoas do mundo todo olhando o mesmo show deu a ele a energia real de Edimburgo”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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