Marco Garro The New York Times
Marco Garro The New York Times

Com a pandemia, escolas do mundo inteiro reaprendem a valorizar a TV

Em regiões onde o acesso à internet é limitado, menos tecnologia atual está sendo usada para alcançar os alunos

Benjamin Mueller e Mitra Taj, The New York Times – Life/Style

05 de setembro de 2020 | 05h00

Em uma favela nos morros de Lima, no Peru, o dia de aula de Delia Huamani não começa com a bagunça dos colegas na classe, mas com o piscar da televisão. Como as escolas físicas fecharam por tempo indeterminado, ela recebe as lições em casa, da biblioteca novinha em folha dos programas educativos do país.

Como recurso em substituição da escola normal, está longe de ser perfeita. Delia, de 10 anos, diz que seus pais não podem comprar livros – ela sente falta deles na biblioteca da escola – e não tem ninguém para corrigir o seu trabalho. Ela recorre à amiga Katy Bautista, de 12 anos, que gostaria de pedir aos apresentadores da televisão que fossem mais devagar com as lições mais difíceis.

“Quando  vamos pegar a comida na cozinha da merenda, conversamos e explicamos as coisas uma para a outra”, diz Delia referindo-se a Katy. “Bom, às vezes ela me explica coisas, eu não explico nada. Ela sim, e é por isso que é uma boa amiga”. Entretanto, apesar de suas limitações, a escola televisionada tem uma enorme vantagem para Delia, Katy e muito mais de um milhão de crianças no mundo todo que não podem frequentar as aulas por causa da pandemia: a escola vai até elas.

Nos países ricos, os debates sobre o método de ensino remoto versam sobre maneiras de tornar as aulas online atraentes e interativas. Mas estas conversas não passam de fantasia para muitos estudantes do mundo todo, e mesmo nas nações ricas, para milhões deles que não dispõem de conexões de banda-larga ou computadores.

Depois de décadas de redução da importância das tele-aulas, dados os enormes investimentos na escola pela internet, a televisão educativa recupera agora a sua importância. Educadores e governos espalhados pelo planeta, na desesperada tentativa de evitar o desastre a longo prazo para toda uma geração de crianças, estão recorrendo à velha tecnologia.

E contam com o charme e o glamour de atores conhecidos localmente, de novos âncoras e professores, procurando despertar a atenção dos alunos da pré-escola ao secundário. Segundo afirmam, todos eles estão aprendendo as lições fundamentais da era do YouTube  - quanto mais breve e fácil, melhor.

“Teoricamente, deveríamos ter laptops e todas aquelas coisas super bonitas  em casa”, disse Raissa Fabregas, uma professora de Economia e Assuntos Públicos da Universidade do Texas em Austin, que estudou Televisão Educativa no México. “Mas se não tivermos, isto será melhor do que nada”.

Embora as aulas pela televisão não ajudem muito como as interações online entre professores e alunos, afirmam os especialistas, as transmissões educativas pagam dividendos pelo progresso acadêmico das crianças, seu sucesso no mercado de trabalho e até no desenvolvimento social.

Para tornar as aulas menos passivas e mais eficientes, muitas lições que estão sendo transmitidas agora usam todos os instrumentos dos estúdios profissionais, como sets agradáveis, roteiristas, animação em 3D, tomadas de várias câmeras, gráficos e até mesmo os respectivos aplicativos no smartphone.

Nos Estados Unidos, onde a educação varia consideravelmente porque é administrada no plano local, alguns lugares prestam pouca atenção ao desenvolvimento do aprendizado remoto, e se concentram em malfadados esforços para a reabertura das escolas. Outros trabalharam muito para criar programas de robôs online. Mas isto não ajuda os 4 milhões de alunos em idade escolar que não têm acesso à internet em casa, problema particularmente predominante entre os alunos pretos, latinos e indígenas.

televisão é promissora como complemento do ensino online a baixo custo, e como suporte fundamental para estudantes que quase não têm outros recursos. Existe um vasto catálogo de programas educativos, mas segundo os analistas, os responsáveis pelas decisões perderam em geral a oportunidade de usá-lo.

“Quantos pais neste momento estão tentando imaginar como passar o dia enquanto os filhos estão vendo TV ou ocupados com o iPad?”, perguntou Melissa S. Kearney, professora de Economia da Universidade de Maryland, que publicou uma pesquisa sobre “Sesame Street”. “Poderíamos fazer coisas muito úteis se as pessoas em quem as famílias confiam pudessem orientá-las para trabalhar com deste conteúdo positivo”.

Desde março, muitos países recorreram ao ensino pela TV, com uma série de estratégias. Os programas variam desde gravações das aulas em classe a desenhos animados educativos e a esforços locais no plano nacional. Alguns se concentram em um grupo etário, enquanto outros, como o Peru, adaptaram o currículo nacional a todos os anos.

Muitas regiões da China ofereceram uma mescla de aulas online e pela TV, mas a província de Sichuan preferiu transmitir todas as suas aulas pela TV porque o governo temia que os estudantes passassem muito tempo diante dos computadores. Na Tanzânia, a organização Ubongo, que produz desenhos animados educativos para as crianças mais novas e também para os pais, decidiu oferecer seus programas gratuitamente às estações de TV de toda a África.

“Fora da África, tem havido uma pressão para o aprendizado baseado na internet”, disse Cliodhna Ryan, diretora do departamento de educação da Ubongo. “Mas na maioria dos países africanos, as crianças em geral não têm este acesso. No fim das contas, o melhor instrumento educacional que as pessoas têm é o que já têm em casa”.

A emissora de TV pública de Nova Jersey, a NJTV, começou a trabalhar com o sindicato dos professores do estado para a produção de programas escolares quando soube que 300 mil crianças do estado não tinham acesso à internet, disse John Servidio, diretor geral da emissora.

Na Indonésia também, a pandemia contribuiu para o renascimento de uma rede de televisão estatal, a TVRI. Em um país onde cerca de 33% da população não está ligada à internet, a TVRI começou em abril a transmitir “Belajar Dari Rumah” – Estudando em Casa – para crianças de todas as idades.

Os pais não foram totalmente receptivos. Muitos indonésios, por exemplo, afirmam que não têm formação escolar suficiente – ou tempo suficiente – para assumir a responsabilidade de ensinar em casa. Muitos pedem que as escolas reabram, embora apenas uma parcela do país tenha sido considerada segura para as aulas presenciais.

No Brasil, as autoridades capitalizaram o Centro de Mídia de Educação do Amazonas, fundado em 2007 para oferecer aulas televisionadas a 300 mil alunos em áreas remotas. Desde a eclosão da pandemia do coronavírus, os programas se expandiram para vários estados brasileiros, e os educadores os adequaram a diferentes culturas e estilos de ensino. Mais de 4,5 milhões de crianças tiveram acesso a eles, segundo o centro.

“Este instrumento se fortaleceu pela necessidade de alcançar o maior número possível de pessoas e portanto, de ter o maior alcance, mas isto não vai parar aqui,” afirmou Wilmara Messa, diretora do Centro de Mídia, que conta com uma equipe de produção de 60 pessoas.

Segundo os analistas, é muito cedo para saber até que ponto o ensino televisionado foi eficiente durante o fechamento, mas há algumas evidências de que os esforços passados foram bem-sucedidos.

No México, um programa de ensino pela televisão que há muito era usado para os alunos das áreas rurais, permitiu que as crianças permanecessem na escola por mais tempo e ganhassem salários maiores quando adultas. Kearney e uma colega constataram que, nos Estados Unidos, as crianças com acesso à programação de Vila Sésamo, tiveram maior possibilidade de atingir um nível de aprendizado condizente com a sua idade.

Para acabar com a maior desvantagem do ensino pela TV – a falta de interação e de feedback dos professores – alguns lugares elaboraram soluções para os professores monitorarem o progresso dos alunos. Muitos usam celulares, muito mais comuns nas regiões pobres do mundo todo do que as conexões de banda larga, embora até o acesso a um telefone possa ser uma barreira.

O estado do Amazonas, no Brasil, oferece um aplicativo de celular para suplementar o ensino pela TV, que permite que os alunos façam perguntas aos seus professores em tempo real. “Os alunos assistem à TV, e nós temos um professor na tela e outro fora dela ao lado mediando os comentários que entram pela sala de chat”, disse Sabrina Emanuela de Melo Araújo, professora de Biologia do segundo grau.

Ubongo, a produtora de desenhos animados da Tanzânia, complementa os seus programas com um aplicativo de smartphone que oferece suporte a pais e alunos.  E professores e alunos no mundo todo usam serviços de mensagens como WhatsApp para se manterem em contato. O Peru sofreu um dos piores surtos de coronavírus do mundo, com um total oficial de mais de 500 mil casos e 25 mil óbitos – dados que segundo os especialistas não expressam os números verdadeiros.

Em um país em que somente 15% dos alunos das escolas públicas podem ter um computador em casa, as lições à distância tornaram-se a maneira predominante de aprender durante a pandemia. Segundo uma pesquisa do governo, em junho, 66% dos pais disseram que seus filhos usavam os programas pela TV, em comparação com 25% que usavam o site educativo do governo. Quase todos enviavam as lições de casa aos professores por meio do WhatsApp.

As primeiras transmissões trataram de tópicos relacionados ao vírus, como a boa higiene e evitar a desinformação. As aulas mais recentes associaram lições tradicionais com séries feitas para a TV: em uma aula de matemática do segundo grau, um professor de verdade telefona para corrigir uma falha de compreensão de estatística de um apresentador.

“É vantajoso para os alunos que sabem como estudar por conta própria”, disse Heli Estela, professor do secundário na região andina de Cajamarca, no norte do Peru. “E nós temos alunos como este, com iniciativa, que resolvem o problema sozinhos. Mas não são muitos”.

No início da pandemia, ele contou que pagou à sua provedora de internet mais de US $ 100 para a instalação de uma antena porque a sua conexão era muito lenta. Estela manda mensagens aos alunos pelo WhatsApp para suplementar as lições pela TV e pelo rádio, mas tem sido difícil tentar explicar conceitos individualmente.

Em uma região em que muitos pais são camponeses, alguns dos seus 47 alunos perdiam o acesso à televisão sempre que suas famílias precisavam mudar-se para outra parte do país em busca de trabalho. Uns dez sequer responderam. Outros aparentemente trapaceiam a respeito das lições de casa. “Para começar a educação remota de verdade, é preciso primeiramente garantir que todo mundo tenha internet”, ele disse, “mas esta doença eclodiu de maneira totalmente repentina”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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