Gillian Flaccus/AP
Gillian Flaccus/AP

Por que eu leciono

Na educação - e na democracia - a obrigação de ouvir. E de aprender

Viet Thanh Nguyen*, The New York Times

30 de setembro de 2019 | 09h58

Minha empregadora, a Universidade do Sul da Califórnia, exige que eu lecione um curso de formação geral todos os anos. Apesar de eu às vezes não gostar dessa obrigação, na maior parte do tempo, me sinto agradecido por ela. Passei a pensar nas minhas aulas de formação geral tanto como um sintoma da nossa falha democracia quanto como uma tentativa de exercer essa democracia - esforço que requer de nós um trabalho que, frequentemente, não queremos realizar.

“Formação geral” é o nome que a USC confere às matérias que todos os estudantes são obrigados a cursar e que, em outros lugares, podem ser chamadas de “base curricular comum”. A formação geral é a essência da missão de qualquer universidade. Os estudantes podem se formar em dezenas de cursos diferentes, mas eles devem obter da educação de nível superior uma base compartilhada, um corpo geral de conhecimento intelectual, ético e cultural que os conduzirá mesmo que mudem de carreira.

Para cumprir esses requisitos de formação geral, os estudantes podem escolher variados cursos, incluindo o meu: A Guerra Americana no Vietnã. Cento e cinquenta estudantes se matriculam toda vez que ofereço esse curso. Um dos desafios mais básicos de qualquer outro curso de formação geral é se comunicar com pessoas que não pensam como nós. Para muitos professores, que são treinados para atuar como especialistas, ter de falar para uma grande plateia é uma das razões para temer lecionar cursos de formação geral. Minha abordagem é encontrar uma história que eu tenha capacidade de contar, uma narrativa - ou, pelo menos, uma série de questões - que possa nos unir.

Meus estudantes são representativos da universidade, no sentido de se interessarem, em sua maioria, por ciências, saúde, administração, direito, etc. Uma pequena porcentagem é de veteranos de guerra. Alguns são cadetes se preparando para a guerra. Somente uma minúscula minoria vem do meu campo, as humanidades, onde minhas elaboradas credenciais são as de um professor de inglês, de estudos americanos e etnicidade e de literatura comparada.

Enquanto esses títulos são tão sem significado para a maioria das pessoas quanto condecorações no peito de um soldado, o significado de ambos é o mesmo: compromisso. Soldados têm ideais, e professores, também. Desafortunadamente, nossos ideais são frequentemente contaminados pela realidade - dos absurdamente altos orçamentos militares às absurdamente caras universidades privadas. É fácil se esquecer dos ideais depois de uma ou duas décadas no “mundo real”. Quando o pragmatismo se torna natural, o idealismo da juventude parece ingênuo, a “experiência” pode se tornar um código para a resignação diante de como as coisas são, e o cinismo pode se mascarar de “sabedoria”.

Maus professores desperdiçam vidas e tempo - seus próprios e os de seus estudantes. Bons professores ensinam com competência suas matérias. Grandes professores compartilham algo profundo de dentro de si mesmos.

Espero ser um bom professor. Espero conseguir encontrar em mim a capacidade de ser um grande professor. Isso exige que eu esteja presente para os meus alunos, que eu acredite na importância da minha erudição, que eu transmita aos estudantes a paixão que tenho sobre o tema, que eu saiba qual é a minha própria história para que eu possa contar-lhes. 

No meu curso, os estudantes aprendem a respeito de uma guerra que matou milhões de pessoas ao longo de décadas. A história do curso é essa: a guerra envolve a todos nós, soldados e civis, homens e mulheres, jovens e idosos - e ela emerge de nossas qualidades humanas e desumanas, resistentes e indissociáveis, ao mesmo tempo que as revela.

As questões também são universais: Como a desigualdade entre as nações e as culturas determina quais histórias são contadas e ouvidas? O que é digno de ser lembrado? O que é um esquecimento justificado? O que torna possível o perdão, aquele que ocorre como uma dádiva, incondicional e sem expectativa de reciprocidade?  

Nossa obrigação mútua, enquanto professores e estudantes, é se importar. Eu me importo o suficiente para dar palestras envolventes e estimular o debate. Meus alunos, em sua maioria, se importam o suficiente para das as caras - pelo menos dois terços ou três quartos deles o fazem. A obrigação deles, como a obrigação de todos os cidadãos, é escutar e aprender. Questionar. Participar. Essas exigências são similares às exigências das democracias em relação aos cidadãos.

Temos um presidente que foi eleito por menos do que a maioria dos eleitores. Há além dele muitos outros líderes na nossa democracia, encarregados de política, economia e cultura. Quantos desses líderes podem dizer honestamente que alcançam e servem a três quartos das pessoas sob sua esfera de influência?

O espírito da formação geral - de uma essência comum - deveria prevalecer também entre esses líderes. E por que não se aplicaria ao presidente? Educação geral não é fácil nem para o aluno nem para o professor. Mas enquanto aos estudantes permite-se que relutem, os professores - e os líderes - têm obrigação de estar entusiasmados, têm obrigação de encontrar a paixão e a história para reunir suas plateias.

Atualmente, o espírito da formação geral é tolhido pela desigualdade, seja em termos da crescente desigualdade econômica de nosso país ou das iniquidades na maioria das universidades. A desafortunada realidade da educação superior é que a maior parte do ensino é realizada por professores temporários, que não possuem nenhuma segurança no emprego. O professorado em tempo integral - pessoas como eu - não é recompensado por lecionar, somente pela atividade de pesquisa e produção acadêmica, frequentemente realizada por vias obscuras, para plateias especializadas.

A educação superior, como o restante da sociedade americana, dos líderes políticos e corporativos para baixo, envia um sinal contraditório. No discurso, damos prioridade a formação geral, ou a um país unificado e, ainda assim, colocamos obstáculos no caminho de prestar um serviço sincero aos estudantes ou ao eleitorado. Nesse sentido, a educação superior é realmente um microcosmo da sociedade como um todo e suas falhas, com uma elite, uma minoria bem paga, e uma maioria que cada vez sofre mais, formada por aqueles que trabalham demais e ganham mal.

Se nossos líderes deveriam ser professores, nossos professores também deveriam ser líderes, entendendo que o que fazemos nas nossas universidades não é simplesmente pesquisar e ensinar, mas estabelecer um modelo de como uma democracia deveria ser. Os professores mais experientes deveriam estar ensinando a todos os alunos e os menos experientes dos nossos professores desempregados deveriam ser efetivados, para que eles também possam compartilhar da promessa da nossa formação geral: preparar os jovens para o objetivo da plenitude econômica e da responsabilidade com a democracia - uma não pode sobreviver sem a outra. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Viet Thanh Nguyen é autor de The Refugees (Os refugiados, em tradução livre), publicado recentemente, e editor de "The Displaced: Refugee Writers on Refugee Lives” (Os deslocados: escritores refugiados narram vidas de refugiados, em tradução livre).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.