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Pamela Paul, The New York Times - Life/Style

13 de abril de 2021 | 05h00

“Meu filho já superou os livros com ilustrações

Ouço sempre isto quando manifesto entusiasmo por um novo livro ilustrado e o ofereço a um amigo. É o tipo de coisa que pais dizem com certo orgulho por causa do que isto envolve: meu filho agora lê sem ajuda e não precisa mais do apoio das imagens. Do mesmo modo que antes ele renunciou à chupeta, ele progrediu.

Ouço isto e penso: “pobre garoto”, ou “pobre pai”. Ninguém deixa para trás os livros ilustrados. Pelo menos, não deveria.

Embora os livros infantis sejam, no geral, e com frequência, menosprezados pelo mundo literário, talvez nenhum formato seja tratado com tanto desdém como os livros ilustrados. Mesmo os livros com capa e páginas duras para crianças são respeitados como no mínimo brinquedos convenientes para mastigar, e os livros para crianças narrados em capítulos se assemelham a romances destinados a se tornarem uma porta de entrada respeitável para a literatura de verdade. Mas os livros ilustrados são para uma fase transitória, apropriada para a hora de dormir, lidos em voz alta, ou aproveitados para a hora do conto durante as pausas das aulas, mas dificilmente são levados em consideração por seu valor intrínseco.

Muitos livros com imagens são recomendados para crianças de quatro a oito anos de idade. O que é um público muito pequeno. Mas eles são jogados fora ainda mais rápido, uma vez que muitas escolas esperam que as crianças já estejam lendo no término do jardim de infância. Como muitos pais pensam nos filhos progredindo e adquirindo novas habilidades, deixamos que os livros ilustrados sejam deixados de lado quando as crianças ainda estão descobrindo o Dr. Seuss.

Não permita que isso aconteça.

Em primeiro lugar, avalie o que os livros ilustrados, os autênticos magos do mundo literário, fazem. Com uma economia formidável, eles são excelentes nas artes de contar uma história, visual e textualmente. Qualquer pessoa que um dia leu um livro ilustrado para uma criança presenciou esta mágica em primeira mão. Você lê em voz alta e a criança ri, não de algo que você leu, mas do que ela leu nas imagens. Enquanto você está lendo uma história, ela está lendo outra, narrada por meio da arte. O ilustrador não apenas reflete as palavras gravadas na página; ele cria uma narrativa inteira por conta própria, adicionando detalhes, criando enredos secundários.

Pense naquele ratinho se dirigindo para a cama em Boa noite, Lua (de Margaret Wise Brown), ou nos prédios construídos com artigos domésticos dentro do ambiente de sonho de Na Cozinha Noturna (de Maurice Sendak). Esses elementos contam uma outra história, e mesmo crianças que não dominam ainda o alfabeto conseguem lê-la deduzindo da sequência de imagens como um evento leva a outro, descobrindo subtramas dentro dela. Por isso as crianças pedem para você ainda não virar a página, ou voltar à página anterior. Elas aprendem que você tem de olhar com atenção para conseguir descobrir as pistas para entender o significado. Estão também aprendendo em profundidade.

Os educadores chamam a isto de “alfabetização virtual” e embora o termo se refira mais diretamente à criação e leitura de imagens, ele se estende mais amplamente para abranger a comunicação e a interação. Vivemos numa cultura extremamente visual e se queremos inculcar as “habilidades do século 21” – ensinar seu filho a se comunicar através de uma sequência de imagens do Google, escrever códigos ou criar uma apresentação de vídeo – então encorajar a leitura de livros ilustrados atende a esse objetivo.

Os livros ilustrados também são uma maneira acessível para as crianças entenderem o que os livros são para elas, não importa quem elas sejam ou de onde vêm. As crianças retratadas nos livros ilustrados exibem uma total diversidade étnica, de classe, de gênero, religiosa e geográfica. Nas suas páginas as crianças visivelmente usam o transporte público, crescem em lares onde o casal é do mesmo sexo e enfrentam problemas físicos e emocionais; esses livros exploram os mundos imaginários e fantásticos onde às vezes é mais fácil solucionar as angústias da infância.

Eles são o incentivo que motiva o leitor incipiente, frustrado e entediado com a progressão fonêmica da palavra gato para pato. Os livros ilustrados são vibrantes e atraentes para dar às crianças que crescem teclando iPads o estímulo que elas esperam. Os livros ilustrados também oferecem uma linguagem e uma narrativa muito mais sofisticadas, a suposição de que sendo um adulto que está lendo aquelas palavras em voz alta, então as crianças não precisam se debater por causa delas.

Tudo isso parece exigir muito esforço e trabalho doméstico, então vamos deixar claro: livros ilustrados são também um dos grandes prazeres da vida. Quando digo que as crianças não devem crescer e abandonar os livros ilustrados, quero dizer a vida inteira. Segundo uma pesquisa feita em 2019, enquanto 55% das crianças entre seis e oito anos são leitores frequentes desses livros, somente 11% os leem já na idade entre 15 e 17 anos. Numa época em que lamentamos o estado de alfabetização dos nossos filhos, particularmente a leitura por prazer, com certeza não deveríamos dizer às crianças para abandonarem os livros que elas apreciam.

As editoras sabem disto. Cientes da dura competição com os videogames e a Internet, as editoras têm procurado levar os livros ilustrados para novas direções. Biografias para crianças hoje são repletas de fotos e ilustrações. As enciclopédias visuais, os livros sobre fatos, livros sobre o espaço são tão estimulantes como qualquer aplicativo. Estes são livros ilustrados também, mas em geral para crianças de seis a 12 anos.

Pense na explosiva popularidade dos graphic novels– livros como Guts e séries como Dogman e a trilogia March – e como transformaram crianças que não liam nada em leitores, e as que liam em leitores vorazes. O que as crianças estão dizendo quando querem continuar olhando imagens? Que são leitoras visuais tanto quanto de texto. E que talvez não deveríamos tão rápido desviá-las dos livros que respeitam os interesses delas e a maneira como sua mente trabalha.

Esses, também, são livros “reais”.

Ainda leio livros ilustrados e se você for honesto consigo mesmo, provavelmente o faz também. O que são esses mangás e graphic novels, os caros livros de mesa e histórias em quadrinhos se não, basicamente, livros ilustrados para adultos? Histórias com imagens.

Recentemente comprei para mim um exemplar de Marshmallow, um livro ilustrado de 1942 sobre um coelho que se introduz no lugar privilegiado do gato da família. O texto, que inclui vários poemas, resiste; as ilustrações capturam a impertinência do gato e a plácida fofura do coelho intruso. Como qualquer história atemporal, ela contém uma verdade emocional fundamental – neste caso, “todos necessitamos do nosso lugar” - e como qualquer livro ilustrado atemporal, esta história é narrada por meio de uma combinação poderosa de palavras e arte que qualquer pessoa consegue entender.

Insisti em ler esse livro para meu filho de 11 anos, também ocupado com o último capítulo da série Guardiã das Cidades Perdidas. Meu filho de 14 anos que tem tanto prazer em desenhar quanto ler os contos de Etgar Keret, me ouviu ao passar por perto. “Deixe o livro no meu quarto quando acabar”, disse ele.

Meus filhos ainda gostam de ler livros ilustrados. Sinto-me aliviada e, sim, um pouco orgulhosa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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