James Hill para The New York Times
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Egito mantém mistério sobre supremacia no squash

Hoje, os quatro principais homens no ranking mundial são egípcios e outros seis estão no top 20

David Segal, The New York Times

11 de dezembro de 2019 | 06h00

CAIRO - Trata-se de um dos mistérios mais fascinantes do esporte. Vinte anos atrás, o Egito era casa de alguns dos maiores jogadores de squash. A última vez que produziu um campeão mundial foi em meados dos anos 1960, quando A.A. AbouTaleb venceu o British Open por três anos consecutivos.

Hoje, os quatro principais homens no ranking mundial são egípcios e outros seis estão no top 20. Desde 2003, um egípcio venceu o campeonato mundial masculino dez vezes. O domínio das mulheres egípcias pode ser ainda mais impressionante, dado o número reduzido de jogadores na virada do século. Assim como os homens, todas as quatro principais jogadoras de squash são egípcias, incluindo a número 1 do mundo, Raneem El Welily.

"Sempre me perguntam: 'Qual é o grande segredo?", disse El Welily em uma entrevista recente. “Eu digo a eles que é a pergunta de um milhão de dólares. Ninguém realmente sabe. Mas existem algumas teorias.” Essas teorias foram revisitadas recentemente, quando o Egito demonstrou suas proezas no esporte em um cenário essencialmente egípcio. 

A Associação Profissional de Squash realizou o campeonato mundial de mulheres de 24 de outubro a 1º de novembro, com as partidas, à noite, em uma quadra com a parede de vidro em frente à Grande Pirâmide de Gizé. Em 1996, o desempenho de um jovem de 19 anos iniciou uma paixão nacional pelo esporte. Agora, o maior problema do Egito é a falta de oferta de quadras para atender à demanda. Omar El Borolossy, ex-número 14, disse que havia mais de dois mil jogadores com idades entre 5 e 10 anos entre sua academia e outros dois clubes de squash.

"Isso é suficiente para dominar o esporte nos próximos 20 anos", disse ele. O Egito tem cerca de 400 quadras e menos de 10 mil jogadores, dizem atletas e treinadores. Mas os melhores jogadores egípcios estão reunidos em cerca de 10 clubes em duas cidades, Cairo e Alexandria, distantes uma da outra em cerca de três horas de carro.

Para jogadores aspirantes, a proximidade com os melhores "é como uma 'droga' que melhora o desempenho", disse Daniel Coyle, autor de Equipes brilhantes: Como criar grupos fortes e motivados, que registra "surtos" de talentos em diferentes esportes e países. "Esses jovens jogadores conseguem ver como os melhores jogam, treinam e se alimentam".

O squash nasceu na Inglaterra e foi exportado para suas colônias. Durante anos, o esporte foi um produto de nicho no Egito, até 1996, quando o jovem Ahmed Barada chegou à final da primeira edição do torneio Al-Ahram International, a primeira vez que um torneio foi realizado ao lado da Grande Pirâmide de Gizé. 

Barada perdeu na final, mas sua atuação agressiva em quadra fez dele um herói nacional. Ele venceu o Al-Ahram em 1998 e finalmente chegou ao número 2 no ranking mundial. Ele se aposentou do esporte em 2001. "Todo mundo queria ser como eu", disse Barada em uma entrevista por telefone.

"Esses torneios estavam na televisão, então as pessoas que nunca ouviram falar de squash estavam assistindo de repente. E havia cinco mil pessoas nas arquibancadas.” Coyle se refere ao feito de Barada como um evento-chave - uma conquista atlética improvável que inspira outras pessoas.

Os egípcios também mudaram a forma de jogar squash. Por décadas, a estratégia padrão do jogo centrou-se em derrotar um oponente durante longas partidas. É uma abordagem metódica baseada em atrito que leva tempo, e que os egípcios aparentemente não têm. "Você viu a maneira como jogamos?", disse Nour El Tayeb, a número 3 do mundo entre as mulheres, durante um intervalo após uma partida.

O squash jogado pelos egípcios é dinâmico e desestruturado, com disparos do nada e movimentos enganosos de pulso. Repetidas vezes, jogadores e treinadores descreveram sua atitude em relação ao jogo como "indisciplinada", sugerindo que o que fazem é improvisado e não científico. A maioria preferiria jogar uma partida do que aprimorar uma habilidade por meio de treinos repetitivos.

El Tayeb e colegas profissionais não estão buscando riquezas, pelo menos segundo os padrões dos esportes profissionais mais populares. O jogador profissional médio de squash ganha cerca de US$ 100 mil por ano e o melhor jogador ganhou cerca de US$ 280 mil em todo o ano de 2018.

Mas o squash é frequentemente o caminho para uma vaga em uma das melhores universidades ou escolas preparatórias americanas. Por trás de muitos dos jovens jogadores do Egito estão os pais esperando que seus filhos recebam a melhor educação. “As mães egípcias são nossa arma secreta", disse Amir Wagih, ex-integrante da equipe nacional do Egito e treinador em período integral. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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