Sima Diab/The New York Times
Sima Diab/The New York Times

A egiptologia está registrando um grande momento. Mas será que os turistas virão?

O turismo no Egito sofre consideravelmente com a instabilidade política e o terrorismo. Mas a pandemia infligiu no setor o maior golpe dos últimos anos.

Abdi Latif Dahir, The New York Times – Life/Style

15 de maio de 2021 | 05h00

CAIRO – Em uma fria manhã de novembro, o ministro do Turismo e das Antiguidades do Egito se encontrava debaixo de uma tenda abarrotada da vasta necrópole de Saqqara, nos arredores do Cairo, para apresentar a maior descoberta arqueológica do ano no antigo sítio.

O gigantesco tesouro incluía 100 sarcófagos de madeira – alguns contendo múmias sepultadas há mais de 2.300 anos – 40 estátuas, amuletos, vasos canópicos e máscaras funerárias. O ministro Khaled el-Enany, explicou que os mais recentes achados indicam o enorme potencial do antigo sítio e mostravam a dedicação da equipe composta exclusivamente de egípcios encarregada da escavação de artefatos dourados.

Mas ele também destacou outra razão pela qual as descobertas arqueológicas foram cruciais: elas representam uma bênção para o turismo, dizimado pela pandemia do coronavírus.

“Este sítio único ainda esconde muitas coisas”, afirmou el-Enany. “Quanto maior o número de descobertas, maior o interesse por este sítio e pelo Egito pelo mundo afora”.

A egiptologia está tendo um grande momento: os arqueólogos  anunciaram este mês a descoberta de uma antiga cidade faraônica perto da cidade de Luxor no sul do país, de mais de 3.400 anos atrás.

A descoberta ocorreu pouco depois de 22 múmias reais terem sido transferidas para um novo museu com uma cerimônia espetacular transmitida no mundo todo. Além disso, a descoberta de 59 sarcófagos maravilhosamente preservados em Saqqara é o tema de um recente documentário da Netflix; em Saqqara também foi encontrada uma estátua coberta de joias do deus Nefertum; a Pirâmide  de Degraus de Djoser de 4.770 anos, foi reaberta no ano passado, depois de 14 anos, após uma restauração que custou $6.6 milhões. Enquanto isso, o progresso avança no impressionante Grande Museu Egípcio, cuja inauguração está marcada para este ano.

Mas a pandemia acabou afetando gravemente a indústria do turismo, e o que se esperava ser uma temporada farta tornou-se um inverno sinistro.

O turismo constitui uma parte crucial da economia – a receita do turismo internacional totalizou US $ 13 bilhões em 2019 – e o país está ansioso por atrair os visitantes de volta para os seus sítios arqueológicos.

Com as restrições de viagens, o fechamento de fronteiras e a capacidade em hotéis reduzida, o número de visitantes internacionais no Egito despencou 69% somente nos primeiros oito meses de 2020, enquanto no mesmo período a receita caía 67%, segundo a Organização Mundial do Turismo, uma agência da ONU.

Agora, mais de um ano depois, o turismo no Egito enfrenta “um problema sem precedentes”, falou o secretário geral da organização Zurab Pololikashvili, em um e-mail..

Nos últimos anos, o turismo no país foi afetado por uma série de tragédias, que começou com a instabilidade política, logo depois da revolução de 2011, e de surtos ocasionais de terrorismo, como ataques a turistas, explosões de bombas que danificaram museus famosos e abateram um avião comercial causando a morte de centenas de turistas russos em 2015.

Entretanto, o setor estava se recuperando persistentemente e os visitantes eram atraídos pelas antiguidades e pela perspectiva de mar e praias ensolaradas, registrando um crescimento de US$5,3 milhões, em 2016, para mais de US$ 13 milhões, em 2019. A pandemia do coronavírus acabou com estes ganhos, deixou hotéis, resorts e cruzeiros vazios, os sítios famosos sem visitantes e sem faturamento, e milhares de guias de turismo e vendedores de souvenirs com rendas drasticamente reduzidas, ou mesmo sem nenhuma.

“O turismo no Egito acabava de ter um dos seus melhores anos em 2019, e então veio a pandemia que afetou profundamente tudo aquilo”, afirmou Amr Karim, gerente geral da Travco Travel, uma das maiores operadoras de tours do país, em entrevista por telefone. “Ninguém sabia o que iria acontecer, como nos arranjaríamos, como isto afetaria a todos. É estranho”.

A pandemia, ele disse, devastou as operações das companhias de turismo, como eles cobravam os seus pacotes e como poderiam trabalhar com hotéis e obedecer às novas normas de higiene.

A pandemia também expôs a fragilidade do sistema de saúde do Egito, em que os médicos se queixavam da escassez de equipamentos de proteção e de kits para testes, enquanto os pacientes morriam pela falta de oxigênio. Com mais de 12 mil óbitos, o Egito também registrou uma das mais elevadas taxas de mortalidade causadas pelo vírus no mundo árabe.

Com o aumento do número de casos, as autoridades de saúde egípcias alertaram recentemente a respeito da chegada de uma terceira onda do vírus. Grandes reuniões e festivais foram cancelados e as autoridades ameaçaram multar os que não respeitarem as medidas de proteção, como o uso de máscara, mas muitos egípcios não obedecem a estas normas.

Os viajantes são obrigados a apresentar um teste negativo para covid-19 realizado 72 horas antes de sua chegada no Egito, enquanto os hotéis são obrigados a operar com metade da sua capacidade.

Com a queda das reservas, o governo precisou socorrer o setor do turismo. As autoridades introduziram uma série de medidas, como permitir que algumas empresas que dependem do turismo, hotéis e resorts, adiem o pagamento das tarifas dos serviços públicos, procurem o reescalonamento das dívidas, oferecendo ajuda financeira aos trabalhadores do setor.

O governo também procurou atrair os viajantes reduzindo o custo dos vistos dos turistas e os ingressos aos sítios arqueológicos, e ainda criou programas visando o aumento do turismo interno para compensar a falta de turistas estrangeiros. Uma promoção de inverno, por exemplo, oferece aos egípcios descontos  nas viagens aéreas internas e nos ingressos aos museus.

Mas Ahmed Samir, CEO da companhia de turismo Egypt Tours Portal, disse que a ajuda monetária direta aos trabalhadores no turismo foi mínima. Com as reservas reduzidas, ele conseguiu manter os funcionários em seus departamentos de marketing e mídia social, mas baixou o seu salário em 50%.

“Como uma espécie de solidariedade para com os funcionários, procuramos manter um certo equilíbrio”, ele disse. Mas, acrescentou, "várias companhias de amigos meus fecharam completamente".

A queda das chegadas de turistas fez com que áreas em geral lotadas de turistas ficassem silenciosas.

No Museu Egípcio no centro do Cairo, Mahrous Abu Seif, guia turístico, estava recentemente sentado à espera de clientes. Alguns pequenos grupos de turistas, inclusive da Rússia e da China, passavam por detectores de metais para entrar no museu. Mas ele esperava que mais clientes aparecessem.

“O que posso lhe dizer? Ficamos aqui sentados esperando, esperando”, ele disse gesticulando e arrumando os óculos, “sem saber o que o futuro nos reserva”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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