Julieta Cervantes para The New York Times
Julieta Cervantes para The New York Times

Eles não veem a dança, mas podem tocá-la

O toque e o som proporcionam pequenas revelações

Serena Solomon, The New York Times

06 Junho 2018 | 10h00

Não era uma cena estranha nem sensual - aquelas pessoas pareciam mais mecânicos curvos sobre um motor, discutindo sua capacidade e funcionamento. Pela analogia, Mana Hashimoto, uma bailarina profissional e coreógrafa cega, era a chefe dos mecânicos e o seu corpo era o motor.

Recentemente, em um oficina, Mana estava cercada por alunos de uma escola pública para cegos e deficientes visuais em Nova York. Eles seguiam seus movimentos com as mãos: um tocava o seu ventre. Outro tinha uma mão sobre a cabeça de Mana, e outro ainda passava os dedos pelo seu braço estendido enquanto ela começava a curvar o corpo para trás em um arco acentuado.

“Como estão os seus pés? Um na frente do outro?”, perguntou Andrew Zhang, 22, que perdeu a visão em um acidente na infância.

“Sinta você mesmo”, respondeu Mana colocando uma das mãos do jovem sobre a sua tíbia. “Estão em uma posição natural”.

“Ah-há”, “uau”, “oooh”, eram as reações dos participantes, enquanto a combinação do toque e das descrições verbais proporcionava pequenas revelações.

Mana ensaiava “Bridge Over Troubled Waters”, uma dança contemporânea coreografada para a música de Simon e Garfunkel, que ela apresentaria no Metropolitan Museum of Arts.

A apresentação e as oficinas de Mana levam a dança, um modo de expressão com um forte componente visual, a pessoas que não enxergam, e ao mesmo tempo proporcionam uma nova experiência para o público que vê.

“Eu crio momentos de imobilidade e escuridão para começar a ter consciência dos outros sentidos”, explicou a bailarina, que funde o toque, o som e, às vezes, o perfume em um espetáculo no espaço com os movimentos que o preenchem.

Mana nasceu no Japão com a visão perfeita. Ela estudou dança clássica até a adolescência, quando sua visão começou a se deteriorar por causa da atrofia do nervo óptico. Os médicos supunham que sua visão não desapareceria completamente, e, há cerca de 20 anos, ela se mudou para Nova York para continuar o estudo da dança. Em 12 meses, deixou totalmente de enxergar.

Por um momento, ela achou que teria de desistir de dançar. Mas uma amiga sugeriu que fizessem aulas de dança juntas, para que Mana pudesse memorizar e refinar os movimentos por meio do toque e de indicações verbais. Uma professora se comoveu até as lágrimas ao ver as duas dançando como se fossem uma só pessoa. Mana disse que a professora compreendeu que ela tinha alguma coisa distinta para oferecer por meio desta forma de arte.

Agora, ela precisa de muito pouco para se apresentar: uma bengala para sentir a direção que deve tomar no palco e dois pedaços de fita crepe em cruz ou um pedacinho de carpete para definir o espaço de sua dança e a direção. As suas apresentações são em geral solos, em parte para evitar colidir com outros bailarinos.

Em uma oficina que ela dá algumas vezes por ano, “Dança sem a visão”, Mana traz para seu mundo quem vê e quem não vê. Os participantes - os que enxergam fecham os olhos ou usam vendas - exploram o espaço da dança de Mana, tomando nota de como o som reverbera nas paredes, sentindo ao mesmo tempo as texturas e a disposição no palco.

Na oficina da escola de música, Madeline Mau, de 11 anos, que vê luz, sombras e cores vibrantes com sua visão limitada, moldou os próprios movimentos para imitar os movimentos que sentiu por meio de Mana. Ela disse que está muito grata a Mana por lhe ter permitido um acesso tão íntimo ao seu corpo e espaço pessoal.

“Eu consegui traduzir a dança em algo que posso entender, não apenas em um meio visual”, disse Madeline. “Há tanta emoção - solidão, felicidade, amor”.

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