Doug Chayka
Doug Chayka
Farhad Manjoo, The New York Times

23 de outubro de 2018 | 06h00

Há mais de 40 anos, Bill Gates e Paul Allen fundaram a Microsoft com a ideia de colocar um computador em cada mesa de trabalho.

Ninguém acreditou neles, por isso poucos tentaram detê-los. A partir daí, quase todo mundo tinha um dispositivo Windows, e os governos ficaram tentando descobrir como controlar o monopólio da Microsoft.

Tal fato acontece repetidamente na indústria tecnológica. Audaciosos fundadores puseram os olhos em algo ridiculamente fora de alcance - Mark Zuckerberg quer conectar todo mundo - e o fato de isto ser extremamente improvável os coloca fora do alcance de um exame mais profundo. Então, quando o restante dos mortais consegue alcançá-los, muitas vezes é tarde demais.

Isso está acontecendo de novo. As maiores potências da indústria tecnológica estão de olho em um novo alvo. Se as suas novidades decolarem sem uma supervisão do governo, talvez estejamos convidando o pesadelo da vulnerabilidade da segurança e da privacidade a invadirem este mundo.

Qual é o novo alvo da indústria? Os carros, as fechadura das portas, lentes de contato, roupa, torradeiras, refrigeradores, robôs industriais, tanques de peixes, brinquedos eróticos, lâmpadas elétricas, escovas de dentes, capacetes de motocicletas e outros objetos de uso diário, estão no cardápio para ser tornarem “inteligentes”. Centenas de start-ups participam desta tendência - conhecida como “a internet das coisas” - mas o movimento é liderado por gigantes, como Amazon, Apple e Samsung.

No mês passado, a Amazon  mostrou um microondas ativado pelo Alexa, o seu assistente de voz. A Amazon vende também o chip que dá ao aparelho sua inteligência para outros fabricantes de uma ampla variedade de eletrodomésticos, como ventiladores e torradeiras, além de cafeteiras. E este mês, tanto o Facebook quanto o Google apresentaram seus próprios aparelhos que permitem que você assista a vídeos e realize outros truques digitais pelo comando de sua voz.

A internet das coisas está crescendo rapidamente. Será sensato imaginar que seja possível a digitalização de quase tudo o que nos cerca, e que está na hora de nos preocuparmos com os riscos decorrentes.

“Não costumo ser pessimista, mas é realmente muito difícil não ser”, disse Bruce Schneie, consultor de segurança que explora as ameaças em um novo livro, “Click Here to Kill Everybody”.

Ele afirma que colocar um computador em todas as coisas transforma o mundo inteiro em uma ameaça à segurança dos computadores. Os "piratas" podem danificar a sua propriedade, sua vida e a segurança nacional.

Segundo Schneier, somente a intervenção dos governos poderá nos salvar.

Às vezes, a inteligência pode nos levar a algumas conveniências - você pode berrar ao seu microondas que esquente o seu almoço. Às vezes isto poderá proporcionar oportunidades de ganho - o microondas da Amazon encomendará a pipoca para você, quando estiver acabando. E às vezes, a inteligência é usada para fins de supervisão e de marketing, como a safra de smart TVs que grava o que você está assistindo para apresentar-lhe anúncios.

O problema é que os modelos de negócios destes eletrodomésticos nem sempre proporcionarão a continuidade da manutenção da segurança à qual estamos acostumados  com os aparelhos de computação mais tradicionais. É por isso que, até o momento, a internet das coisas tem sido sinônimo de terrível segurança - por que, no ano passado, o FBI teve de alertar os pais sobre os perigos dos 

“brinquedos inteligentes”, e por que Dan Coats, o diretor de inteligência nacional dos Estados Unidos, identificou dispositivos inteligentes como uma crescente ameaça para a segurança nacional.

Schneier descreve a intervenção do governo não como uma panaceia, mas como uma lombada, uma maneira de nós humanos alcançarmos os avanços tecnológicos. A regulamentação e o descuido reduzem o ritmo da inovação. Mas quando há globais incertos envolvidos perigos, tomar um minuto não é uma ideia terrível.

Conectar todas as coisas pode trazer enormes benefícios. Mas a ameaça pode ser igualmente enorme. Por que não ir devagar ao encontro do futuro incerto?

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