Bryan Tarnowski para The New York Times
Bryan Tarnowski para The New York Times

Elevação do nível do mar ameaça laboratórios marinhos

Aquecimento global ameaça capacidade dos pesquisadores de estudarem ambientes marinhos de perto em uma época em que é mais vital do que nunca compreendê-los

John Schwartz, The New York Times

20 de janeiro de 2020 | 06h00

COCODRIE, LOUSIANA - O laboratório marinho a cerca de 140 quilômetros a sudoeste de Nova Orleans foi projetado para ser uma fortaleza. Mas poderá ser derrotado pela mudança climática. Localizado no final da Rodovia Estatal 56 da Louisiana, onde o terreno se torna pântano e, em seguida se transforma no Golfo do México, o laboratório W.J. DeFeliced Marine Center suportou com sucesso muitos furacões desde a sua inauguração, em 1986. Construído cinco metros acima do solo sobre pilares, sua armadura chega a mais de 30 metros abaixo do solo. Suas paredes podem suportar ventos de até 400 quilômetros horários.

Mas a água está avançando. Nos Estados Unidos, de Nova Jersey ao Massachusetts, Virginia e Oregon, centros educacionais e laboratórios marinhos como este enfrentam a elevação dos níveis do mar e a mudança climática. O ataque do aquecimento global é mais lento, mas mais persistente do que qualquer tempestade. Ela ameaça a capacidade dos pesquisadores de estudarem os ambientes marinhos de perto em uma época em que é mais vital do que nunca compreendê-los.

Bob Cowen, diretor da Associação Nacional de Laboratórios Marinhos, considera a mudança climática uma grande ameaça, mas também uma oportunidade científica. “Nós a sofremos, e ao mesmo tempo a estudamos da melhor maneira possível”, afirmou. O estacionamento do Centro Marinho DeFelice, que faz parte de um consórcio, já foi uma área elevada e seca. Agora, ele inunda várias vezes ao ano, o que determina ocasionalmente o seu fechamento. As autoridades preveem que, se não forem tomadas as medidas necessárias, o laboratório poderá fechar vários dias seguidos todos os anos, nos próximos 10 a 15 anos. 

A água salgada ataca a estrutura, e sobe através do solo penetrando nos cabos elétricos enterrados, e já causou um apagão. Certas inundações são acompanhadas por centenas de caranguejos violinistas que às vezes chegam até os elevadores. “Cheiram mal”, disse Murt Conover, diretora associada de educação e divulgação. “Alguns definiram o odor como cheiro de carniça. Carniça podre”.

“O edifício foi construído para funcionar lá onde o mundo termina”, disse Ursula Emery McClure, projetista sênior da firma de arquitetura Perking & Will e pesquisadora de arquitetura no centro marinho, “ não no mar aberto”. Alex Kolker, professor adjunto do consórcio marinho, afirma que, pelo fato de no sul da Louisiana a terra baixar enquanto os oceanos sobem, a região registra possivelmente a maior elevação do nível relativo do mar nos EUA.

Muitos laboratórios marinhos se preparam para enfrentar desafios semelhantes. Na Woods Hole Oceanographic Institution, em Massachusetts, Robert S.C. Munier, vice-presidente de laboratórios e operações marinhas disse que o complexo está sentindo os efeitos da mudança climática no ataque à doca atual.

A instituição planeja uma reforma da área da orla no valor de US$ 80 milhões, com docas mais elevadas e um complexo de edifícios adjacentes. Mas o planejamento é problemático, afirma Munier: segundo as projeções, a elevação do nível do mar poderá ser inferior a um metro nos próximos 50 anos, ou superior a um metro.

Em Nova Jersey, a Estação do Campo Marinho da Universidade Rutgers incluiu a mudança climática em seu plano de 30 anos como “um experimento de longo prazo para saber como as pessoas reagirão à urbanização desse trecho”, disse Oscar Schofield, diretor em exercício da estação do campo e presidente do Departamento de Ciências Marinhas e Costeiras da Rutgers. Ele afirmou que a elevação do nível do mar e o abaixamento da terra  fazem com que a estrada até a estação inunde frequentemente com as marés altas.

Os diretores do laboratório na Louisiana planejam mantê-lo como está, apesar da inclinação dos pisos e da frequente inundação do estacionamento, a ponto de os gerentes discutirem a compra de um buggy próprio para circular nos pântanos, destinado ao transporte das pessoas até o local. Entre outras possibilidades estudadas, está o prolongamento de um deck, do centro até um estacionamento em terreno mais alto e mais próximo da estrada, que é ligeiramente mais alta.

A instalação já elevou a altura das docas para os dois navios de pesquisa e passou por uma reforma a fim de transferir o equipamento para os andares superiores. Segundo Kolker, que as futuras modificações da instalação incluem a incorporação de parte da infraestrutura usada nos terminais de petróleo em alto mar, como cabos elétricos resistentes à água salgada. 

O consórcio está construindo também uma instalação adicional em um terreno mais elevado, a cerca de 50 quilômetros ao norte, na cidade de Houma, Louisiana, onde seria possível continuar as operações nos dias em que o centro DeFelice não pudesse ser utilizado. A arquiteta Ursula McClure disse que a invasão dos mares a inspirou a estudar o que fazer quando os edifícios são desativados com a chegada do oceano. Derrubar estas construções “custaria muito dinheiro”, ela afirmou. O pior, acrescentou, é quando olhamos ainda mais para frente: “O que acontecerá com comunidades inteiras?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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