Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

Elevação do nível dos oceanos ameaça da Califórnia às Filipinas

600 milhões de pessoas vivem diretamente em regiões costeiras no mundo, um dos lugares mais perigosos na era da mudança climática

Somini Sengupta, The New York Times

23 de fevereiro de 2020 | 06h00

O que você faz quando o mar chega à sua casa, sua escola, sua igreja? Você tenta afastar a água. Ou levantar sua casa. Ou simplesmente mudar dali. Um número estimado de 600 milhões de pessoas vive diretamente em regiões costeiras no mundo, um dos lugares mais perigosos na era da mudança climática. De acordo com projeções científicas, o nível dos oceanos deve ter subido 30 a 120 centímetros no final do século, com projetos de mais tempestades ferozes e marés mais altas que afetarão drasticamente a vida de comunidades inteiras.

Muitas pessoas já enfrentam os riscos hoje. Duas áreas metropolitanas extensas oferecem vislumbre do futuro. Uma rica, outra pobre, estão em lados opostos do Oceano Pacífico: a Área da Baía de São Francisco (sete milhões de habitantes) e a região metropolitana de Manila (14 milhões).

Sua história, sua riqueza, e as opções pessoais e políticas que adorarem hoje irão configurar como resolverão o problema quando as águas chegarem à sua porta. Em ambos os lugares, como você enfrentará a elevação dos mares vai depender do acaso ou do seu nascimento: se nasceu rico ou pobre, num país abastado ou em dificuldade, se tem um seguro ou não, se a sua propriedade vale milhões, ou ela é pouco mais do que um telhado de zinco.

E em ambos os lugares a mudança climática tem ampliado anos de decisões acanhadas. Manila permitiu que água de poços fossem bombadas tão rápido que a terra cedeu e se tornou uma bacia à medida que o mar aumentou de nível. Em São Francisco, foi permitido que as pessoas construíssem suas casas diretamente à beira-mar, o que colocou casas, estradas e até aeroportos em risco de uma inundação catastrófica.

Mas as pessoas tendem a permanecer, com frequência ingenuamente, à medida que a água aumenta em torno delas. Em alguns casos é porque suas propriedades valem muito, pelo menos no momento, ou porque têm tão pouco que não têm outro lugar para ir. Hoje, a baía de São Francisco e Manila se defrontam com escolhas difíceis. Elas podem se adaptar à elevação das marés, o que significa mudar as pessoas dos locais de risco.

Ou tentar forçar a água a se adaptar às suas necessidades, reforçando suas defesas. Para os líderes políticos decisões difíceis terão de ser adotadas. O que salvar à beira-mar, o que abandonar, e como reimaginar suas cidades costeiras numa era de perturbação climática?

A Baía de São Francisco e a área metropolitana de Manila são grandes e crescentes, com muitas pessoas e coisas para proteger na costa. A maneira como vai se enfrentar as circunstâncias fornecerá lições, para o melhor ou para o pior, para cidades costeiras em outros lugares.

"Vamos decidir não decidindo e esperar que a água chegue à nossa porta?", indaga Aaron Pesquin, da diretoria de Supervisão de São Francisco. “O maior desafio é fazer com que a sociedade entenda a questão, entre na luta, faça uma análise, planeje, discuta as soluções intermediárias”.

ÁREA METROPOLITANA DE MANILA

Desiree Alay-ay, de 30 anos, cresceu num bairro localizado em terreno baixo e uma área de risco para inundações, na periferia ao norte de Manila. E não é o que ela deseja para seu filho, ainda um bebê. A mudança climática exacerbou um problema antigo em Manila. Devido a uma proliferação de viveiros de peixes e um aumento rápido de poços artesianos, o terreno vem cedendo. Como resultado, desde o início dos anos 1990, o nível do mar vem subindo entre cinco e sete centímetros ao ano, o dobro da média global.  

As tempestades derrubam as pequenas casas feitas de bambu que são engolidas pelas águas. As pessoas fogem, mas retornam porque não têm lugar melhor para ir. O nível das estradas é elevado repetidamente. Pariahan, vilarejo ao norte de Manila, hoje está permanentemente embaixo d’água.

“A mudança climática não cria seus próprios impactos. Ela amplifica as políticas erradas”, disse Renato Redentor Constantino do Institute for Climate and Sustainable Cities, com sede em Manila. “Uma grande parte da região metropolitana de Manila sofre mais o impacto das águas por causa de décadas de planejamento do uso da terra que é míope e questionável”.

Os pais de Alay-ay construíram uma pequena casa em Malabon, o único bairro onde podiam comprar alguma coisa. A água invade as ruas a cada temporada de chuva. O nível da estrada foi elevado. Os pais de Desirée também elevaram o nível da casa de modo a ficar acima do da estrada e o andar térreo do imóvel cobriram com cimento e areia, quatro vezes em 30 anos. Todos vivem do mesmo modo. Um vizinho elevou o andar tão alto que a pia da cozinha hoje fica acima da cintura de uma pessoa. Foi só depois de Alay-ay ter seu filho que decidiu deixar Malabon. “Não quero que ele viva o que eu tenho vivido”, afirmou.

Ele queria que seus pais também partissem com ela, pois assim poderiam cuidar do bebê. Mas eles tinham outros planos. “Deixe o bebê, conosco”, ofereceu a mãe, Zucema Rebaldo. “Não vamos sair daqui. Quero morrer neste lugar”. Milhões de pessoas pobres vivem em áreas baixas e castigadas pelas tempestades tropicais. A mudança climática deve tornar essas tempestades mais intensas e mais frequentes.

Forçar as pessoas a saírem dessas regiões não basta, disse Antonia Yulo-Loyzaga, da diretoria do Manila Observatory, uma organização de pesquisa. Elas têm de ter capacidade de arranjar trabalho, ou de meios de transporte para chegar à casa. “É necessária uma retirada organizada, racional, da costa. Não existe nenhuma outra opção, salvo se você deseja que as pessoas vivam em constante medo”.

ÁREA DA BAÍA DE SÃO FRANCISCO

A elevação do mar enfatiza os tropeços do passado na Baía de São Francisco também. O Oceano Pacífico registrou um aumento de 10 a 20 centímetros ao longo da costa ao norte da Califórnia no último século, e o mesmo ocorreu na baía. Dependendo do aumento das emissões de gases com efeito estufa, o Pacífico poderá se elevar de 70 a 100 centímetros em 2100.

É por isto que a California Coastal Commission tem exortado as prefeituras locais a reforçarem suas defesas contra inundações, restaurarem os pântanos ou forçarem as pessoas a mudarem de área. Isto é tão difícil na Área da Baía como em Manila. “As propriedades e investimentos das pessoas correm risco”, disse Jack Ainsworth, chefe da comissão. “A questão é muito política e muito emocional”.

Ao contrário de Manila, os bairros na Baía de São Francisco são ricos. E muitos já está aplicando muito dinheiro para reforçar a infraestrutura costeira. Os eleitores de São Francisco aprovaram uma medida para começar a reforçar o muro ao longo da estrada que margeia a baía, um projeto equivalente a US$ 425 milhões.  

“Basicamente construímos tudo no nível da maré alta”, disse Laura Tam, diretora do SPUR, grupo de planejamento urbano. “Nada foi construído pensando nas mudanças futuras das marés”. No subúrbio de Pacifica, ao sul da cidade, as falésias estão sofrendo uma erosão tão rápida que as autoridades municipais já demoliram algumas propriedades antes de elas caírem na água.

John Raymond, advogado, adquiriu sua casa à beira-mar. Adora o local e pretende permanecer nessa casa o maior tempo possível. Mas, com 60 anos de idade, tem consciência dos riscos. A única coisa que protege sua propriedade do aumento do nível do mar é um muro financiado pelo poder público.

“Se a minha casa ficar condenada porque o muro não foi construído e o oceano chegar na porta da casa, terei de sair, e ponto final”, disse ele. O problema enfrentado por muitas autoridades da área da Baía  é o seguinte: o quanto blindar a costa, o que poupar e quem terá de se mudar? Uma retirada organizada, como é chamada, se tornou um tema politicamente sensível.

O problema do dinheiro complica a situação sob outros aspectos: os impostos e taxas sobre a propriedade são uma fonte crucial de receita. Forçar as pessoas a se mudarem resultará numa queda do orçamento municipal. E de qualquer maneira, quem vai pagar os proprietários para deixarem o imóvel? A prefeitura de Pacifica não tem condições. Algumas casas que estão nas falésias custam em torno de US$ 1 milhão.

Mas já têm ocorrido retiradas não organizadas da área. Alguns trechos do muro que protege do mar despencaram, e em determinado ponto colocou em risco um grupo de apartamentos. Os 52 inquilinos não tiveram direito a nenhuma indenização. Apenas tiveram de mudar.

PARIAHAN, NORTE DE MANILA

Visitar o vilarejo de Pariahan é como visitar os últimos moradores da mítica cidade de Atlântica. Pariahan, uma ilha que outrora era ligada ao continente por uma faixa de terra, tem cerca de cem casas. Ali você pesca ostras do mar e colhe ameixas de Java diretamente das árvores. As crianças frequentam a escola. Aos domingos, há missa na igreja local, que dá frente para a baía de Manila.

Chegando de barco, vindo do continente, a primeira coisa que o visitante vê é uma ilha pouco habitada, depois algumas casas solitárias ao longo do caminho sem pavimentação, e em seguida muitas casas abandonadas. Finalmente, um grupo de casas sobre pilotis, e barcos estacionados em frente. Há muito tempo existiam salinas na ilha, e viveiros de peixes.

A terra lentamente começou a afundar e quando uma tempestade fortíssima se abateu sobre a ilha, há dez anos, ela se transformou numa espécie de bacia. A água subiu e invadiu. “Simplesmente chegou e não mais saiu”, disse Benedicta Espiritu, de 53 anos, que vive há um longo tempo no local.

Pariahan ficou submersa. O teto da escola veio abaixo. Assim, as crianças precisam viajar meia hora de barco para assistir às aulas em outro estabelecimento, o que significa que perdem mais aula do que assistem. Uma vez ao mês os fiéis vão à igreja, quando um padre vem de barco de um vilarejo local.

Benedicta Espiritu teme que mudar dali será muito caro. “Quando você tem café, açúcar e arroz, a vida é boa”, disse ela. O ar é grátis e há um painel solar que fornece eletricidade. Mas a família dela ouviu falar que as pessoas que ainda permanecer ali terão de se mudar logo. Há uma proposta de construção de um aeroporto particular perto dali, na extremidade da baía, onde a elevação do nível do mar vem ocorrendo lentamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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