Michelle Groskopf/The New York Times
Michelle Groskopf/The New York Times

Elijah Daniel, um dos maiores influenciadores da internet, é um agente do caos

Atos satíricos de Daniel visam pessoas com poder, sejam eles políticos, influenciadores ou executivos de tecnologia

Taylor Lorenz, The New York Times - Life/Style

23 de dezembro de 2020 | 05h00

Elijah Daniel é o dono da internet desde sempre. Há tempos, ele fez um abaixo-assinado pedindo ao governo dos Estados Unidos que tornasse a música Party in the USA o hino nacional. E, em seu curto mandato como prefeito de Hell, no Michigan, declarou a heterossexualidade ilegal. Ah, e houve também a vez em que seu conto erótico sobre o presidente Donald Trump disparou para o topo dos mais vendidos da Amazon.

As ações satíricas e os empreendimentos aventureiros de Daniel miram os poderosos, sejam políticos, influenciadores ou executivos de tecnologia. Pense nele como uma mistura de Sacha Baron Cohen e Mark Cuban da geração TikTok.

"Sempre fui visto como o antialguma coisa. No TikTok, sou anti-hétero ou alt-TikTok. Quando estava no YouTube, eu era o anti-youtuber. Quando todos faziam vlogs exibindo a marca Gucci, estávamos fazendo vídeos com coisas de drag queen de lojas de um dólar. Para o marketing, sou um antimarketing. Não digo às pessoas que comprem anúncios no Facebook. Procuro maneiras divertidas e originais de fazer as coisas. Se não vai me fizer rir, não me interessa", disse Daniel, de 26 anos.

Sua carreira pode ser vista como um plano para obter sucesso no cenário da mídia digital atual, caso você esteja disposto a enlouquecer algumas pessoas no processo. Para alguém tão on-line, Daniel teve uma infância bastante analógica. Cresceu no Michigan, foi educado em casa, e seus pais limitavam o acesso à TV e à internet, bem como o acesso à música secular. (Eram muito religiosos.)

Sua mãe dirigia um jornal cristão no qual Daniel escrevia uma coluna semanal, tornando os versículos da Bíblia acessíveis às crianças. "Eu pegava uma história da Bíblia e a reescrevia, deixando de fora os assassinatos e os estupros", comentou. No ensino médio, dedicou-se à promoção do jornal. Entrar em contato e vender para empresas locais o empolgava, e ele começou a estudar técnicas de marketing na Coursera, uma plataforma de aulas on-line, enquanto terminava os estudos em casa.

Aos 14 anos, abriu, secretamente, uma conta no Twitter e começou a postar piadas. Notou que as contas de paródia eram populares e criou algumas, o que o colocou em um círculo social bastante flexível de administradores de contas de paródia.

Eles trocavam dicas, e Daniel descobriu que notícias de última hora e fofocas de celebridades tinham um bom desempenho; assim, conseguiu falsificar a conta do Twitter @BreakingNews e mais tarde criou um site de notícias de celebridades falso. "Apenas inventávamos notícias falsas e tirávamos sarro das pessoas", frisou. Às vezes, as histórias inventadas eram escritas por agências verdadeiras de notícias de celebridades, o que ele achava hilário.

Ainda assim, não gostava de como as contas de paródia pegavam carona no conceito de outras pessoas. Por isso, aos 15 anos, criou uma conta pessoal no Twitter. "Pensei: 'Estou tornando famosas pessoas que são literalmente falsas. Vou começar a me tornar famoso'", relembrou.

Pouco depois de seu aniversário de 18 anos, a empresa Taco Bell o levou a Nova York para estrelar um anúncio do Dia dos Namorados em forma de pegadinha. Este alcançou meio milhão de visualizações em um dia, um grande feito para os padrões de 2013. Daniel já estava se tornando conhecido por suas ações malucas e sua verve cômica, mas começou a se firmar como especialista em marketing, primeiro para uma marca de roupas de música eletrônica e depois como fundador de uma empresa própria.

Na época, a cena tecnológica girava em torno dos aplicativos, e as startups de São Francisco e de Los Angeles estavam à procura de ajuda para ter destaque no mundo on-line. Daniel, no entanto, ficou frustrado com a forma como os executivos resistiam a seus conselhos.

"Eu estava dando consultoria para todas essas marcas, mas elas não me ouviam. Poderia muito bem aplicar aquilo a mim mesmo e me tornar um influenciador. Sei como alavancar uma marca corretamente. Não vou apenas dizer: 'Fala, galera! Adorei este chá para emagrecimento, deslize seu dedo para cima!' Vou fazer algumas ações, mas de forma lucrativa", continuou.

Em 2016, o conteúdo de Daniel se tornou cada vez mais político. Ele é gay assumido e sempre desconfiou de políticos conservadores, mas sentiu que Donald Trump representava um novo tipo de ameaça. Naquele janeiro, Daniel ficou bêbado e chapado e postou no Twitter que lançaria um livro tipo 50 Tons de Cinza, mas com Trump como protagonista.

Em uma semana, ele lançou Trump Temptations: The Billionaire and the Bell Boy [Tentações de Trump: o bilionário e o recepcionista, em tradução livre], um relato fictício de Trump e um amante do sexo masculino, na Amazon. As vendas do livro explodiram antes que a edição fosse recolhida, o que fez com que Daniel o lançasse gratuitamente no Wattpad, um site de publicação independente. "Fui à Fox News para falar sobre o livro e usei um suéter de Natal com folhas de maconha por toda parte enquanto tentavam aprovar as leis de consumo recreativo da droga na Califórnia. As pessoas na internet engoliram tudo", comentou Daniel.

As travessuras continuaram. Ele reescreveu a Bíblia em 24 horas, dando a Rihanna o papel de Deus e colocando drag queens como suas discípulas. Iniciou um canal no YouTube. Em 2017, filmou um segmento para The Maury Povich Show com sua amiga Christine Sydelko e a estrela do YouTube Tana Mongeau; nele, Daniel finge ser um gay enrustido traindo a namorada. O clipe foi visto mais de 21 milhões de vezes no YouTube.

Em outra ação maluca de 2017, Daniel foi nomeado o prefeito da cidade de Hell, no Michigan, por um dia; nesse curto período, declarou a heterossexualidade ilegal na cidade. Em 2019, fingiu comprar a cidade de Hell por vários milhões de dólares e proibiu os residentes de hastear a bandeira americana – uma repreensão à rejeição presidencial do pedido de hastear a bandeira do orgulho nas embaixadas dos EUA.

Se suas estratégias de captação de público pareciam não ortodoxas, hoje são consideradas engenhosas. "Nunca vi outro profissional de marketing como ele. Ele vê as coisas como 'isso será enorme'", disse Jesse Leimgruber, fundador da Neoreach, empresa de marketing influenciadora que trabalhou com Daniel, que descreveu o senso de impacto social deste como quase intuitivo.

Este ano, em meio a uma pandemia devastadora e uma eleição presidencial que aprofundou as divisões políticas, Daniel tem usado sua plataforma com mais seriedade.

Em março, ele fundou a Cult for Good, organização sem fins lucrativos destinada a fornecer suprimentos e produtos básicos à população de rua de Los Angeles. Em junho, ajudou a promover uma campanha de registro falso liderada por tiktokers antes de um comício de Trump em Tulsa, Oklahoma. Também criticou abertamente influenciadores por ignorarem as diretrizes de saúde pública durante a pandemia e mantém uma constante rivalidade com Bryce Hall, a celebridade do TikTok que promoveu várias festas violando a ordem da cidade.

Isso não quer dizer que suas ações tenham acabado. Daniel começou a trabalhar com a Clash, plataforma de vídeos curtos construída por uma ex-estrela do Vine. Para parodiar a tendência da mansão colaborativa TikTok, Daniel desenvolveu The Clash, reality show estrelado por vários influenciadores, entre eles Claudia Conway.

Recentemente, Daniel, seu noivo e ex-colegas de quarto, ao lado de Katia Ameri, fundadora de startups que ajudou a criar a The Zoom Bachelorette, mudaram-se para uma casa imensa em Hollywood Hills com uma piscina enorme e um vinhedo.

A ideia da casa começou como uma piada. Daniel lançou um vídeo provocativo em meados de outubro para algo chamado Rocketship House, casa colaborativa criada para simular a cultura de startups e a cultura de influenciadores. Mas a ideia pegou e os investidores ficaram interessados. A ideia é que a casa, batizada de Villa, seja um estúdio de conteúdo e um espaço de escritório para o desenvolvimento de marcas e o lançamento de produtos.

Daniel passa a maior parte dos dias em sua casa de estilo toscano em Hollywood Hills, tendo novas ideias, muitas vezes na cama. É descontraído, quieto e, em suas palavras, "prefiro ficar em casa com meus cachorros relaxando e começando coisas". E completou: "Odeio atenção de todas as formas. Todas as minhas ações acontecem somente uma vez. São grandes ações para a imprensa, mas jamais quero ser uma celebridade."

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