Mark Brake/Getty Images
Mark Brake/Getty Images

Elon Musk tem sua sanidade mental questionada

Atitudes recentes do símbolo da tecnologia deram margem a especulações sobre possível colapso nervoso

Kara Swisher, The New York Times

25 Agosto 2018 | 10h00

Quero responder às perguntas que muitos estão se fazendo: ele é louco?

Muitas pessoas perguntam o que eu acho do que está acontecendo com Elon Musk ultimamente. Mas o que elas querem mesmo saber é óbvio: será que ele é maluco?

Não doido varrido, mas completamente louco.

Nos últimos meses, o fundador da Tesla e de SpaceX puxou as orelhas de analistas em uma divulgação do balanço; fez piadas sobre a falência das suas companhias; chamou jornalistas de cúmplices; incomodou sem descanso vendedores a descoberto que apostaram em seu colapso; e chamou um mergulhador da equipe de resgate na caverna na Tailândia com quem teve uma briga de “pedo” - do tipo “filo”. 

Isso mesmo, ele fez isto.

Em meados de agosto, Musk revelou via um tweet conciso que queria fechar o capital da Tesla e que tinha o “financiamento garantido”. Não surpreende - porque está claro que o anúncio foi prematuro - que tenha armado uma confusão com o conselho a respeito do que deveria fazer com sua mania do Twitter. E o que é mais problemático, ele teria desencadeado uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos sobre as circunstâncias daquele tweet, que fez com que as ações da Tesla ziguezagueassem (provavelmente, ele será processado).

A maioria destas brincadeiras está no Twitter, onde os pronunciamentos de Musk muito frequentemente têm a força de uma bomba de mau cheiro. Elas deram origem a especulações a respeito do que estará acontecendo com o famoso empreendedor, que muitas vezes é comparado ao Homem de Ferro da ficção, Tony Stark. Palavras como “instável” - usadas de início pelos vendedores a descoberto que tentaram pintar Musk como louco - agora são usadas por analistas e jornalistas para qualificá-lo. Foi criado até o hashtag, #muskmeltdown.

A imagem que está sendo traçada é a de um homem à beira de um colapso nervoso digital, e teoricamente, o outrora incansável Musk, teria perdido o controle e acabou endoidando.

Então vou responder à pergunta: ele está louco?

Não, absolutamente não está. Pelo menos, não nos vários encontros que tive com ele ao longo de quase 20 anos - inclusive recentemente - em que se mostrou ora engraçado, rude, envolvente, odioso, acessível, ora tratável, intratável, sempre ligado, crítico quando se trata de uma falha, mesmo quando talvez a falha tenha sido sua, zangado, encantador, intenso e também estranhamente confiante. 

O que é uma maneira prolixa de dizer profundamente humano, com todas as características positivas e negativas que o adjetivo sugere.

E é por isso que, na minha opinião, Elon Musk se tornou o homem símbolo da tecnologia. Mas os seus desejos e necessidades nunca são inconscientes ou ocultos; estão sempre escancarados, extremamente diretos; todos ali, expostos no mais vívido Technicolor para todo mundo ver.

Na maneira mais curiosa, ele é transparente, tão totalmente direto que chega a ser inquietante e até mesmo doloroso às vezes para os que o cercam.

Recentemente, conversei com várias pessoas que conhecem Musk, inclusive pessoas que o adoram ou que se cansaram de sua brusca intensidade. E o que descobri junto aos seus colegas atuais e antigos é que eles realmente contam a mesma história a respeito de um chefe impulsivo e determinado que dirige uma cozinha muito quente e confusa, que não perde muito tempo desculpando-se por isso. Alguns partiram, outros prosperaram sob as luzes fortes. E outros ainda também partiram e depois voltaram, atraídos pelo brilho.

Este não é um fenômeno novo no campo da tecnologia, e principalmente no Vale do Silício, um lugar que precisa dos seus deuses complicados.

Durante muito tempo, Steve Jobs foi essencialmente Zeus (para o Hades, o inferno, de Bill Gates) naquele panteão. No início da carreira, Jobs foi em busca da sabedoria e tomou LSD para encontrá-la. Depois, foi o moleque da tecnologia de gravata borboleta, expulso por sua ousadia. Mais tarde, o imortal caído que se redimiu e voltou ao Monte Olimpo, brandindo um iPod à guisa de raio.

Exagerado? Sem dúvida, mas foi um mito muito bom e até mesmo melhor, porque em grande parte autêntico. Nos anos seguintes, Jobs usou o seu famoso campo de distorção da realidade para dobrar a mídia e os investidores, e todos os outros, à sua vontade. Ele também guerreou muitas vezes com alguns jornalistas e investidores, mas ninguém lembra mais disso. Sua morte, precoce demais e tão trágica, selou sua lenda épica para toda a eternidade.

Mas ele deixou o Vale do Silício sem a figura incompleta do herói, objeto de elogios generosos e de enorme inveja e desdém. Larry Page e Sergey Brin do Google: muito estranho; Mark Zuckerberg do Facebook: um bom garoto, mas, hem, não; Jeff Bezos do Amazon: talvez, se necessário, mas ele mora em Seattle e provavelmente não ligaria a mínima de ser o deus de alguém.

E foi assim que Musk se tornou a escolha óbvia, embora a comparação com Jobs certamente não seja perfeita. Jobs era elegante e parcimonioso, e até quieto; Musk é todo pompa e circunstância. Jobs viajava na imaginação; Musk quer morrer em Marte (certamente não ao aterrissar, como ele me disse em uma entrevista, há alguns anos).

O que eles compartilham é a propensão por aquilo que é talvez o elemento mais importante de todos os criadores de coisas importantes realmente lendários: a destruição criativa.

Para Jobs, era uma estratégia do tipo ‘aposto a companhia’ que abriu as portas a toda uma nova computação. Para Musk é toda uma série de grandes ideias, cada uma das quais seria difícil de realoizar sozinha, desde os carros elétricos à ubíqua energia solar a aterrissar uma nave espacial sem energia sobre uma plataforma no oceano. Sim, ele fez isso também.

O que não significa que eu seja uma fã de Elon, porque acho a hagiografia em torno dele cansativa e até mesmo perniciosa, no que diz respeito a alguns dos seus acólitos, que não suportam uma crítica válida do seu líder sem enlouquecerem. (E Musk não faz nenhum favor a si mesmo incitando-os - é indulgente e irresponsável)

Mas todo este debate me lembra algo que um investidor chamado Pejman Nozad me disse há muitos anos, quando lamentava todas aquelas estúpidas ideias das start-ups que ele via enxovalhando a paisagem. 

Bobas redes sociais, aplicativos idiotas com filtro para fotos, e mais um serviço de delivery para a geração do milênio. “O Vale do Silício”, ele disse, é uma quantidade de grandes mentes caçando ideias pequenas”.

Não se enganem, a mente e as ideias de Musk são grandes.

Ele disse publicamente, e outros concordam, que está simplesmente esgotado e vive sob uma pressão imensa, e estes erros recentes logo serão esquecidos. Mas ele foi descuidado, e poucas pessoas estão dispostas a lhe conceder o benefício da dúvida. 

Ele arruinou a sua reputação perseguindo inimigos imaginários, críticos justos e os que não lhe querem bem com as mesmas armas afiadas do Twitter. É uma enorme perda de tempo, quando o que ele precisaria fazer para selar a sua condição é na verdade construir uma companhia forte e estável que não gire apenas em torno da sua aura, e uma equipe que faça o melhor trabalho de que é capaz com ou sem ele.

E, evidentemente, apagar  aquele aplicativo do Twitter do seu celular. Afinal, vocês imaginariam Steve Jobs tuitando?

Não, nem eu.

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