George Georgiou, via Phatmedia
George Georgiou, via Phatmedia

Em 1988, uma cena musical transformou a cultura britânica

Origens do acid house retratadas em convites

Alex Marshall, The New York Times

30 Setembro 2018 | 10h45

LONDRES - No início de 1988, o DJ Danny Rampling pediu a George Georgiou que projetasse um convite para divulgar sua festa Shoom, numa academia de ginástica do sul de Londres.

“Os donos afastavam todo o equipamento e colocavam um DJ no canto", disse ele. “Era muito alto, muito lotado, uma fumaça com cheiro de morango por toda parte.”

Ele fez uma única exigência para o design do convite: tinha que haver uma carinha sorridente. “Achei uma coisa boba, sinceramente", disse Georgiou. “Pensei, ‘como criar algo diferente em cima disso?’”

Sua solução foi simples: ele criou o rosto sorridente num formato tridimensional e brincou um pouco com a expressão, para que se parecesse mais com alguém que exagerou na festa. “Todos interpretaram aquilo como um comprimido de ecstasy, mas não era essa a ideia", disse ele.

A festa Shoom é frequentemente considerada a pioneira do estilo acid house na Grã-Bretanha. Para os tabloides da imprensa do país, a nova música que varreu o país em 1988 produzia dores de cabeça, podendo ser apreciada somente pelos consumidores de ecstasy. O Daily Mail a chamou de “a maior ameaça à saúde e ao bem estar dos jovens britânicos desde o louco culto às drogas dos anos 60".

Mas, para os adolescentes e jovens britânicos reunidos nessas raves, essas palavras eram como um elogio. Eles batizaram 1988 de Segundo Verão do Amor, em homenagem àquele que floresceu em San Francisco em 1967. Para eles, 1988 foi outro momento em que um estilo musical específico, seus ouvintes e as drogas foram reunidos e mudaram uma cultura.

“As coisas eram bem difíceis em 88", disse o DJ Paul Oakenfold, que comandava noites de acid house. 

“Tínhamos Margaret Thatcher fechando as minas e siderúrgicas.” Mas o acid house mudou isso, disse ele. “Podíamos ir a um lugar desses e nos expressar por meio da música. Tínhamos a sensação de fazer parte de algo realmente especial.”

Alguns convites de festas de acid house, pequenos pedaços de papel usados para promover as casas noturnas na era anterior à internet, são considerados hoje clássicos do design. O museu Victoria and Albert guarda alguns deles em seu acervo permanente.

Muitos dos convites da época são projetos básicos, com pouco além do nome e endereço da casa noturna. 

Genesis, um dos primeiros promotores a organizar raves ilegais em larga escala, enchia seus convites com mensagens para convencer o público - incluindo a polícia - que o evento era legítimo, disse o promotor Wayne Anthony. “Tudo dentro da lei!” diziam os convites. “Bombeiros no local!”

Uma casa noturna tentou dar um salto no projeto de seus convites: a noite Spectrum, de Oakenfold, que começava na segunda à noite e terminava às 3h30 da madrugada. O convite da Spectrum foi o primeiro da era do acid house a ser impresso a cores, apesar da despesa.

Quando a popularidade do acid house explodiu, os convites deixaram de ser usados para promover os eventos. Mas eles ainda evocam memórias poderosas nos antigos frequentadores das raves.

Alex Lazar, 58 anos, tem uma caixa cheia de convites da época em que frequentava essas festas. 

“Vendi os convites de 88, 89 e 90 depois de sofrer um acidente de moto alguns anos atrás", disse ele. “Consegui pagar quatro meses de aluguel com esse dinheiro.”

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